You are here

Paralisação estudantil contra uma educação em crise em um país do "primeiro mundo"

Em Santiago do Chile, há muitas universidades, 80% delas privadas. Até aí nenhuma grande diferença da realidade brasileira em que 75% das vagas do ensino superior são oferecidas na rede privada. Mas no Chile, mesmo as universidades públicas são pagas. Essa realidade faz parte da política do governo Piñera para a educação. Por Mateus Fiorentini
Polícias fortemente armados hostilizando os manifestantes, spray de pimenta no ar criaram um clima pesado nas manifestações. - Foto de Depreda_grafica/Flickr

A realidade da educação superior chilena

Conversando com muitas pessoas, sempre que se fala no Chile, vem à mente um país desenvolvido, com crescimento, etc. Segundo alguns, no próximo período o Chile deve ingressar no rol dos países considerados desenvolvidos. Porém nos dias 26 de maio e 1° de junho, 40 mil estudantes, liderados pela Confederação de Federações de Estudantes do Chile (CONFECH), fizeram uma mobilização contra a mercantilização da educação. Ainda pautavam que a educação chilena vive uma crise. Bom, pensamos, tem boi na linha nessas informações. Vejamos.

Em Santiago do Chile, há muitas universidades. 80% delas privadas. Até aí nenhuma grande diferença da realidade brasileira em que 75% das vagas do ensino superior são oferecidas na rede privada. A questão é que mesmo as universidades públicas são pagas. Essa realidade faz parte da política do governo Piñera para o financiamento da educação. Nesse sentido ao invés de financiar as Universidades, o governo concede um financiamento directamente ao estudante, e ele define onde aplicar. Na prática isso corresponde à desresponsabilização do Estado com a educação e vê o ensino apenas como um serviço prestado. Além disso, o ensino privado não possui qualquer tipo de regulamentação e prevalecem as regras do mercado na educação. E não existem espaços de diálogo do governo com a comunidade académica. Para conseguir falar com o ministro de Educação e apresentar suas opiniões é preciso colocar milhares de pessoas nas ruas. Aí surge uma questão mais, a da democracia.

De certa forma, no Brasil já faz parte do nosso cotidiano a produção de filmes sobre a ditadura militar. Assim, para que um filme sobre esse tema nos mobilize para vê-lo, há que tratar de algo novo, um tema até então não tratado ou de uma óptica ainda não vista. E isso é difícil. Estamos acostumados a ver nesses filmes cenas de polícias armados até os dentes reprimindo manifestantes nas ruas, com forte agressão física, prisão, etc. Ou as vemos em governos dirigidos por forças que se referenciam em uma ave com bico grande, ou ainda em alguns demos que ainda existem em algum canto por aí.

Pois bem, essas cenas foram revividas pelos estudantes chilenos. Polícias fortemente armados hostilizando os manifestantes, spray de pimenta no ar criaram um clima pesado nas manifestações. Quando se encerrou o acto entrou em cena uma espécie de tanque com um canhão de água e um auto-falante de onde saía uma voz estridente dizendo que os estudantes tinham que sair da rua. Ao demorarem a sair, começaram as chuvas de bombas de gás lacrimogéneo e os jactos de água para cima dos manifestantes. Foi nesse momento que as pessoas mais se assustaram, o comércio fechou e o corre-corre começou. Quem ficou para trás ou enfrentou os polícias sofreu as consequências.

As manifestações foram gravadas por um polícia que identificou os manifestantes. Como se não bastasse tudo isso, no dia 1° de Junho os Carabineros do Chile entraram na Universidade de Santiago e reprimiram manifestantes que voltavam da marcha. O confronto fez com que os polícias saíssem da universidade expulsos pelos estudantes. Uma vez fora dela, passaram a dar tiros com bala de borracha e lançar bombas de gás lacrimogéneo para dentro da Universidade.

Os estudantes chilenos, da CONFECH, seguem mobilizados com o apoio dos reitores, professores e funcionários das universidades. Está em curso uma paralisação sem prazo definido para acabar e muitas universidades foram tomadas pelos estudantes. Um país é desenvolvido quando aplica um modelo soberano de desenvolvimento que promova a integração regional. Esse país deve ver ainda as Universidades não apenas como centros de formação de profissionais, mas sim, como um instrumento de produção científica e tecnológica a serviço de um projecto de país. Para isso, não pode ser a lógica mercantil a mandar na educação.

Esses foram marcos aprovados por estudantes, educadores, trabalhadores e autoridades na Conferência Regional de Educação Superior, em 2008, e na Conferência Mundial de Educação Superior, de 2009, e estão no centro da pauta de avanços do continente. Nesse sentido, um país com a história e o povo que tem o Chile não pode estar na contra-mão desse processo. Ainda, um modelo de desenvolvimento precisa conciliar desenvolvimento económico e social e democracia. É fundamental o diálogo entre Estado e sociedade civil e a garantia da liberdade de organização e mobilização. Ou seja, a discussão é: de que tipo de desenvolvimento estamos falando?

Artigo de Mateus Fiorentini1, publicado por Carta Maior


1 Mateus Fiorentini é estudante de História da UFRGS, da diretoria de Relações Internacionais da UNE e Secretário Executivo da Organização Continental Latino-americana e Caribenha de Estudantes (OCLAE).

(...)

Resto dossier

Revolta estudantil no Chile

Três meses de intensa mobilização estudantil em luta pela Educação Pública estão a transformar o Chile. No final de Agosto, dois dias de greve geral convocados pela central sindical ampliaram a luta contra o governo conservador de Sebastian Piñera e pelo fim da “herança de Pinochet”. Dossier organizado por Carlos Santos

O outro 11 de setembro: a tragédia chilena

O militante brasileiro Waldo Mermelstein vivia no Chile e foi testemunha do processo revolucionário e do golpe que vitimou milhares de pessoas e impôs o modelo precursor do neoliberalismo. Quarenta e um anos depois republicamos este artigo de 2011.

Estudantes procuram acabar com a herança de Pinochet

Em três meses de mobilizações massivas, os estudantes chilenos mudaram a face do país. Nunca nos últimos vinte anos os protestos foram tão importantes como estes. Renascem os sonhos de Allende. Por Víctor de la Fuente

Manifesto de Historiadores: Revolução antineoliberal social/estudantil no Chile

Apesar de corresponder a um momento novo da política e da história social pós-ditadura, a revolta estudantil este só pode compreender-se a partir da perspectiva mais ampla da historicidade do século XX no Chile.

Carta da Confederação de Estudantes do Chile ao Presidente Piñera

Através do presente documento queremos intimar o Governo do Presidente Sebastián Piñera a manifestar de forma clara a sua posição relativamente às exigências seguintes, que representam temas fundamentais, omitidos ou abordados com ambiguidade e ineficácia.

Carta Aberta para que alguém a leia à cidadã Ena von Baer, por Luis Sepúlveda

Cidadã porta-voz do governo, se os estudantes vão mais além das suas justas reivindicações puramente académicas, é porque decidiram tomar em suas mãos a correcção de algo anómalo, como a aberração de o Chile ser um país democrático que se rege por uma Magna Carta escrita à imagem e semelhança do ditador que a impôs. Por Luis Sepúlveda, escritor.

Breve história do movimento estudantil

Não é errado afirmar-se que o movimento estudantil chileno tem sido o mais importante da América Latina nos últimos cinquenta anos. Por Álvaro Ramis

As lições do movimento estudantil chileno

Através de uma série de massivas manifestações pacíficas o movimento estudantil, liderado pela Confederação de Estudantes do Chile (CONFECH), expressou a sua insatisfação com o projecto de reforma educacional proposto pelo actual governo, mostrando à sociedade chilena que este não satisfaz as necessidades da educação científica, tecnológica, artística e humanista de seus habitantes. Por Jaime Massardo

Paralisação estudantil contra uma educação em crise em um país do "primeiro mundo"

Em Santiago do Chile, há muitas universidades, 80% delas privadas. Até aí nenhuma grande diferença da realidade brasileira em que 75% das vagas do ensino superior são oferecidas na rede privada. Mas no Chile, mesmo as universidades públicas são pagas. Essa realidade faz parte da política do governo Piñera para a educação. Por Mateus Fiorentini

4 vídeos das lutas dos estudantes no Chile

Muitos vídeos e diversos canais no youtube ajudaram a divulgar e dão a conhecer as acções e mobilizações dos estudantes chilenos. Um primeiro vídeo, sobre a manifestação realizada a 16 de Junho, a violenta repressão policial de que foi alvo e a resistência dos jovens.