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Os crimes de guerra que se seguiram ao 11 de Setembro

Durante as comemorações do 11 de Setembro, esta semana, é da responsabilidade de toda a gente dedicada à paz e à justiça, honrar as vítimas da "guerra de terror" dos Estados Unidos. Editorial do Socialist Worker

Após os atentados do 11 de Setembro, em Nova York e Washington DC o “Socialist Worker” produziu uma edição especial com a manchete de primeira página: "Não transforme tragédia em guerra".

Mas, claro, a administração Bush fez exactamente isso – primeiro, com a invasão do Afeganistão e depois do Iraque. Uma década mais tarde, essas guerras têm gerado inúmeras tragédias ao longo dos anos Bush e continuado na presidência de Barack Obama.

A escala do terrorismo, patrocinado pelo Estado, que ocorreu após o 11 de Setembro nunca será conhecida na sua totalidade – precisamente porque o seu alcance é tão vasto.

No final de Agosto, por exemplo, um telegrama diplomático não secreto tornado público pela WikiLeaks centrou a atenção noutra, pouco conhecida, atrocidade de guerra dos E.U.A. no Iraque – quando as tropas americanas executaram 11 civis iraquianos numa casa, na cidade de Ishaqi, em 2006 e levaram a cabo um ataque aéreo para destruir as provas.

O que tornou este incidente diferente de tantas centenas de outros, foi o facto de um coronel da polícia iraquiana, treinado nos EUA e outros oficiais de alta patente estarem dispostos a gravar declarações sobre o massacre, embora projectasse as tropas dos EUA sob uma luz desfavorável. Estações de televisão iraquianas reportaram o incidente desencadeando uma investigação por parte das Nações Unidas.

Na altura, as autoridades dos EUA insistiram em que nada de impróprio tinha acontecido. Alegaram que um "militante" com ligações à Al-Qaeda, no Iraque, fora apanhado depois da destruição da casa onde estava escondido. Mas as evidências mostraram posteriormente que as tropas dos EUA entraram na casa, que pertencia a um lavrador, e, em seguida, algemaram e executaram cada um dos ocupantes com uma bala na cabeça – cinco crianças, todas com cinco anos de idade ou menos, quatro mulheres e dois homens.

Doze dias após os assassinatos, um investigador da O.N.U. Philip Alston escreveu uma carta às autoridades dos EUA a pedir uma explicação formal. De acordo com uma reportagem de McClatchy "Alston disse que a partir de 2010 – os dados mais recentes que tinha – as autoridades dos EUA não tinham respondido ao seu pedido de informações e que o governo do Iraque também não tinha ajudado. Disse que a falta de resposta dos Estados Unidos ‘foi o caso com o maior número de cartas para os EUA no período entre 2006 e 2007’ quando os combates no Iraque atingiram o pico."

Mas este caso de um massacre seguido de ocultação é apenas uma extensão da conduta diária das tropas dos EUA no Iraque, Afeganistão e em qualquer outra parte do mundo.

Poucos anos depois da guerra dos EUA no Iraque, os jornalistas de investigação Laila Al-Arian e Chris Hedges começaram a entrevistar soldados americanos sobre o que tinham testemunhado enquanto destacados. A maioria dos media ficou de boca aberta, levando Project Censored a seleccionar os relatos de Al-Arian e de Hedges como sendo das 25 mais importantes notícias confidenciais de 2008.

Na verdade, as histórias que Al-Arian e Hedges descobriram poderiam ser motivo para inumeráveis acusações de crimes de guerra. Entre as revelações do mês passado sobre o massacre de Ishaqi, Al-Arian descreveu as histórias que ela e Hedges ouviram de soldados dos EUA:

As cenas que descreveram eram aterradoras: comboios de dúzias de veículos rugindo pelas estradas iraquianas, transpondo separadores, embatendo contra carros civis e batendo em civis iraquianos sem parar para verificar os estragos. Descreveram como a mecânica da guerra – ataques a casas, comboios, patrulhas, detenções e postos de controlo militar – levou ao abuso diário e ao assassinato de inocentes. Como a morte de civis se tornou rotina, como as regras da batalha mudavam constantemente e como havia uma cultura de impunidade nas forças armadas quando se tratava de mortes de não combatentes.

"É melhor ser julgado por doze do que carregado por seis", disseram muitos. Resumindo, melhor matar que ser morto.

O mesmo padrão mantém-se no Afeganistão – erradamente considerada a, justificada moralmente, "boa guerra".

Em Outono de 2010, por exemplo, surgiram relatos de uma auto-denominada "equipa de morte" constituída por doze soldados dos EUA da 5ª Brigada Stryker. Cinco dos doze soldados foram acusados de matar civis afegãos "por desporto" em três incidentes separados, e sete foram implicados no encobrimento.

Mas, de acordo com o general Stanley McChrystal, agora aposentado, mas anteriormente comandante das forças dos EUA no Afeganistão, as operações do dia-a-dia dos militares americanos mataram muitos mais civis:

Matámos a tiro um número surpreendente de pessoas e, tanto quanto eu saiba, nenhuma se provou ter sido uma ameaça real para a força... Que eu saiba, nos mais de nove meses em que estive aqui, nem num único caso, onde nos envolvemos através da força, se descobriu que os veículos tivessem algum bombista suicida ou armas, e em muitos casos, tinham famílias.

Mas os E.U.A. não tinham de entrar em guerra contra o Afeganistão? Após os ataques de 11 de Setembro, tanto os políticos republicanos como os democratas insistiram que a guerra era o único modo de acção.

Na verdade, a invasão do Afeganistão era uma guerra de escolha como a invasão do Iraque. À medida que as comemorações do 11 de Setembro e do lançamento da "guerra contra o terror" assumirem os cabeçalhos deste fim-de-semana, relembre estes três factos.

Primeiro, 15 dos 19 sequestradores que realizaram os ataques de 11 de Setembro eram da Arábia Saudita. Nenhum era do Iraque ou do Afeganistão. Durante uma viagem à Arábia Saudita no início de 2007, George W. Bush reconheceu:

“Há muito boa gente aqui. Olhe, não pode negar o facto de que alguns, a maioria, dos terroristas vieram da Arábia, mas não deve condenar-se uma sociedade inteira com base nas acções de um punhado de assassinos.”

Mas isso foi precisamente o que fizeram os E.U.A. quando declararam guerra ao Afeganistão.

Segundo, os líderes talibãs afegãos ofereceram-se para entregar a al-Qaeda de Osama Bin Laden antes da campanha de bombardeamentos dos EUA que começou em 07 de Outubro de 2001 - com a condição de que os líderes talibãs dispusessem de provas do envolvimento de Bin Laden no 11 de Setembro, e que Bin Laden fosse entregue a outro país para ser julgado.

Dez dias após o início do bombardeamento, os talibãs ofereceram de novo a entrega de Bin Laden, desta vez sem fornecimento de provas. A administração Bush voltou a rejeitar. "Não haverá negociações", disse o secretário de imprensa da Casa Branca Ari Fleischer, na altura. "O Presidente não está a seguir esse rumo, porque não acha que seja construtivo."

Pela primeira vez, o mentiroso profissional Fleischer estava a dizer a verdade. A administração Bush não achava que as negociações fossem "construtivas" porque queriam a guerra – para conseguir para os Estados Unidos, maiores objectivos económicos, militares e geopolíticos na região. Capturar Bin Laden servia de pretexto para essa agenda maior.

Terceiro, essa agenda já tinha tomado forma antes do 11 de Setembro. A administração Clinton e até mesmo a administração Bush tinham amplamente considerado a linha-dura talibã uma força de estabilização no Afeganistão, para travar o tráfico de ópio e impor a lei e a ordem, o que tornou mais seguro negociar na região.

No início de 2001, a administração Bush estava a negociar com os talibãs a proposta de construção de um gasoduto na Ásia Central, pela Unocal, como forma de desafiar o controlo de longa data, da Rússia, sobre os recursos energéticos da região.

Mas as autoridades talibãs queriam uma fatia maior da riqueza, enfurecendo as autoridades dos EUA. "Em dado momento, durante as negociações, os representantes dos Estados Unidos disseram aos talibãs ‘ou aceitam a nossa oferta de um tapete de ouro, ou enterrá-los-emos sob um tapete de bombas’", escreveu Jean-Charles Brisard, autor de um livro sobre Bin Laden publicado em francês.

Dez anos depois pesquisas de opinião mostram que as pessoas nos EUA têm opiniões contraditórias sobre o 11 de Setembro.

De acordo com uma sondagem do Pew Research Center realizada em Agosto:

Em resposta à pergunta notória: "Porque é que nos odeiam?" os entrevistados, em geral, estavam mais dispostos a acreditar actualmente, que as políticas dos EUA no Médio Oriente motivaram os ataques da Al-Qaeda. Imediatamente após os ataques terem ocorrido, a maioria dos inquiridos (55%) rejeitou essa noção, enquanto apenas um terço concordou. Dez anos depois, a opinião do público está mais dividida, com a concordância de 43% de que os ataques podem ter sido motivados por algo que "os EUA fizeram de errado nas suas relações com outros países" e 45% em desacordo.

Ao mesmo tempo, no entanto, o número de entrevistados que pensam que o 11 de Setembro sinalizou "o começo de um maior conflito entre os povos da América e da Europa contra o povo do Islão", em oposição a "um conflito com um pequeno grupo radical" cresceu de 28%, em Outubro de 2001, para 35% actualmente.

Realmente, os factos falam por si. É o governo dos EUA que tem implacavelmente mantido uma guerra contra "o povo do Islão" e não o contrário – e não por causa da religião, mas porque os países predominantemente árabes e muçulmanos ocupam áreas do mundo que são a fonte do recurso mais vital do capitalismo: o petróleo.

A procura deste bem, por sucessivos presidentes americanos, gerou um século de chantagens económicas, o apoio a atentados pró-americanos e intervenções militares. Desde o apoio do Xá do Irão, ao ditador egípcio Hosni Mubarak, até à família real saudita – para não mencionar o apoio de Washington a Israel e à sua expropriação colonial dos palestinianos – os EUA ganharam o desprezo de árabes e muçulmanos que suportam a repressão de tiranos apoiados pela América.

Hoje, as revoluções e revoltas no norte da África e no Médio Oriente representam, em parte, uma reacção à falta de qualquer mudança nesta situação – apesar da eleição de Barack Obama, com as suas promessas de acabar com as guerras dos EUA e respeitar o mundo árabe. Em vez disso, Obama duplicou o número de tropas dos EUA no Afeganistão e aumentou os ataques de aviões zumbidores sobre o Paquistão, Iémen e Somália, continuando a política da era Bush de tortura de prisioneiros na Baía de Guantánamo.

Os media vão passar a próxima semana "em homenagem às vítimas do 11 de Setembro". Mas temos que recordar, a todos os que querem a verdadeira paz e justiça, todas as vítimas cujas vidas foram destruídas pela "guerra de terror" dos E.U.A.

Artigo publicado a 7 de Setembro de 11 em socialistworker.org, traduzido por Cristina Barros para esquerda.net

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