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"EUA têm mais inimigos hoje do que tinham em 2001"

Todos os Estados caem na tentação de responder à provocação terrorista com o terrorismo de Estado. A reacção dos EUA depois dos atentados de 11 de Setembro trouxe-lhes mais inimigos do que os que tinham no dia 10 de Setembro à tarde. Entrevista a François Bernard Huyghe, professor de Ciências Políticas. Por Eduardo Febbro, correspondente da Carta Maior em Paris
François Bernard Huyghe: "EUA cometeram um erro enorme do ponto de vista estratégico.

Uma década depois das imagens das Torres Fêmeas de Nova York a cair como castelos de areia, as análises dos especialistas são contrastadas: Bin Laden não ganhou, mas tampouco os Estados Unidos. No meio disso, eclodiram as revoluções árabes e estas, num mesmo movimento, desacreditaram tanto as teses do radicalismo islâmico quanto a vergonhosa posição dos países ocidentais que apoiaram, em nome dos seus interesses, os piores déspotas da história. Professor de Ciências Políticas, pesquisador no Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS), autor de vários ensaios brilhantes sobre o terrorismo, François Bernard Huyghe analisa nesta entrevista os dez anos transcorridos.

No seu último livro publicado na França, “Terrorismes, violences et propagande”, François Bernard Huyghe faz uma análise histórica do terrorismo. O autor destaca nesta entrevista o papel dos meios de comunicação, a permanência da ideologia conservadora norte-americana e a forma pela qual, por meio da “guerra ao terror”, a primeira potência mundial recorreu ao terrorismo de Estado ao melhor estilo de Pinochet no Chile.

Dez anos depois do 11 de Setembro, fica no ar algo como um balanço nefasto, tanto para os seguidores da Al-Qaeda quanto para os Estados Unidos. As revoltas árabes que estouraram em 2011 são uma poderosa negação das teses da Al Qaeda e, ao mesmo tempo, desmascaram o cinismo ocidental.

A Primavera árabe inscreve-se numa lógica oposta às ideias da rede de Bin Laden. Para a Al Qaeda, os muçulmanos tinham só duas opções: submeter-se ao Ocidente ou a ditaduras pró-ocidentais como a de Mubarak no Egipto; ou comprometer-se com a Jihad, a guerra santa, e combater. Mas damo-nos conta de que existia pelo menos uma terceira alternativa, a saber, a das revoluções democráticas. Hoje estamos então numa nova fase, na qual a Al Qaeda e a nebulosa jihadista esperam aproveitar-se da Primavera árabe segundo um esquema clássico. Contam com que a revolução popular e pacífica gere decepções, que haja desordens e tentativas reacionárias. A partir daí, os elementos mais duros jogarão a carta da radicalização da situação, com a ideia de passar daí para a luta armada. Esse é o esquema que se depreende das ideias de Al-Zawahiri.

Por outro lado, Hosni Mubarak, no Egipto, e Ben Ali, na Tunísia,, agitaram o fantasma da Al Qaeda e com isso reprimiram a população, ao mesmo tempo em que diziam ao Ocidente: “estamos do vosso lado, lutamos contra os islamistas”. Chegamos assim ao assombroso paradoxo de ver os EUA felicitarem-se diante da maravilhosa revolução democrática no Egipto quando, na verdade, até apenas alguns meses atrás Washington despejava milhares de milhões de dólares no Egipto de Mubarak.

Outro dos grandes paradoxos do 11 de Setembro reside em que os atentados serviram mais aos interesses da ideologia neoconservadora norte-americana do que aos interesses do mundo árabe.

Para os neoconservadores dos EUA, os atentados do 11 de Setembro foram uma surpresa divina. Deram aos conservadores o argumento ideológico para justificar os planos que já tinham prontos, como a invasão do Iraque por exemplo. Esse argumento consistia em dizer que os EUA não eram um tigre de papel, que podiam utilizar a força e inclusive impor a democracia, pela força, no mundo árabe. Aproveitaram a ocasião para vivificar o país, preconizando valores militares, de disciplina, de ofensiva.

Os neoconservadores apegaram-se à locomotiva do 11 de Setembro e conseguiram com isso uma influência ideológica incrível. Aproveitaram-se da situação, da personalidade do presidente Bush. Para eles, o 11 de Setembro foi um pão abençoado. E creio que, ainda hoje, não estão fora do jogo.

Podem voltar nas próximas eleições presidenciais e, contrariamente ao que pensam muitos analistas, os neoconservadores não estão descontentes com Obama. Aprovaram a decisão de enviar 20 mil soldados adicionais ao Afeganistão. Para a Al Qaeda, o facto de a primeira potência do mundo, os EUA, terem declarado guerra e apontado a rede como seu principal inimigo, foi um tipo de felicidade paradoxal.

De alguma maneira continuamos mergulhados nas duas ideologias, a que Bush pôs em prática como resposta a Bin Laden.

Sim, essa corrente ideológica persiste. Por exemplo, um mês depois do assassinato de Bin Laden, Barack Obama firmou uma enésima doutrina contra o terrorismo na qual o enunciado principal continua a ser: “estamos em guerra contra a Al Qaeda”. A obsessão de um segundo 11 de Setembro, a prioridade que se deu à acção para eliminar os terroristas e as suas redes, assim como os regimes que os apoiam, não desapareceu. O discurso de Obama, obviamente, é diferente. O presidente diz que é preciso agir respeitando certos valores, e não adoptou um regime jurídico excepcional como o Patriot Act.

O terrorismo ao estilo Bin Laden também inaugurou uma indústria mundial dos meios de comunicação, uma espécie de frenesi comercial de comentaristas, analistas e canais de televisão que se ocuparam de propagar a legitimidade da chamada “guerra contra o terror”.

Sim, é certo, mas essa é também uma das regras do terrorismo: o terrorismo é também um meio de comunicação. Se os meios de comunicação não existissem, se os meios não afectassem o imaginário das pessoas, o terrorismo não existiria. O atentado contra as torres gémeas foi o acontecimento mais filmado da história da Humanidade. O terrorismo vive graças ao impacto que tem nos meios de comunicação. Antes, nos anos 70, os terroristas eram obrigados a se apoiar nos meios de comunicação inimigos, nos meios do capitalismo ,digamos, para que as suas acções fossem difundidas. O que mudou hoje é a aparição da Internet. Hoje há redes sociais islâmicas, portais islâmicos, revistas virtuais islâmicas e produtoras islâmicas. Os terroristas têm também os seus próprios meios de comunicação.

De um 11 de Setembro a outro, o do golpe de estado de Pinochet no Chile e o dos atentados de 2001, encontramos uma constante: o Estado chileno recuperado por Pinochet levou a cabo no Chile uma repressão semelhante à que Bush implementou em escala mundial na chamada guerra contra o terror. As violações de direitos humanos que vimos no Chile, Argentina, Uruguai e Brasil reencarnaram-se mais tarde nas práticas da primeira potência mundial.

É certo que, como resposta às guerrilhas, houve um terrorismo de Estado na América do Sul. Trata-se de uma lógica clássica na qual grupos minoritários obrigam o inimigo a mostrar o seu verdadeiro rosto, desmascarando-o para mostrar que é sanguinário. Quando os Estados se vêem confrontados ao terrorismo, aplicam suas próprias leis, adoptam medidas, proclamam um estado de excepção e, assim, entram numa fase repressiva que, às vezes, os leva a eliminar poucos adversários e a ter mais inimigos do que antes.

Os Estados vêem-se tentados a recorrer a práticas condenáveis: prisões secretas, torturas, repressão, interrogatórios. Todos os Estados caem na tentação de responder à provocação terrorista com um terrorismo de Estado. É isso o que vemos com a reacção dos EUA depois dos atentados de 11 de Setembro: imagens de guerra terríveis, a prisão de Guantánamo e todo o dispositivo que foi posto em marcha com o Patriot Act. Com esse esquema, os EUA fizeram mais inimigos do que os que tinham no dia 10 de Setembro à tarde. É um erro enorme do ponto de vista estratégico.

Tradução: Katarina Peixoto

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Resto dossier

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“A Grande Estratégia” depois da Guerra Perpétua do 11 de Setembro

15 anos depois do 11 de setembro, republicamos o artigo de Tariq Ali, escrito em 2011, onde assinalava que os EUA e os seus aliados europeus estão presos num pântano e sublinhava que, tirando a retórica de Obama, pouco divide esta administração americana da sua predecessora.

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