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Palavras que nos governam: o caso do "interesse nacional"

As palavras que mandam não são apenas as que são utilizadas pelos governantes mas também participam nos discursos de quem os critica, como é o caso do patriotismo. Texto de José Neves.

A fórmula "interesse nacional" tem ocupado a linha da frente das palavras que nos governam. A expressão é de uso recorrente por quem subscreve as medidas de austeridade implementadas ao longo do último ano. Para estes, o "interesse nacional" é quem mais ordena. Em seu nome justificam-se medidas tidas como as menos desejáveis pela população que habita o território do país por cujo interesse se pretende zelar.

O poder da fórmula "interesse nacional" é, porém, especialmente assinalável por fundamentar o próprio discurso de muitos dos actores políticos que têm combatido as medidas de austeridade. É o caso de quem aponta a defesa da soberania nacional como uma das primeiras razões para que combatamos as medidas de austeridade. De acordo com estes, a implementação de tais medidas exprime a subordinação de Portugal aos interesses de mercados internacionais e de países estrangeiros.

Esta crítica à economia de austeridade em nome do "interesse nacional" tem vindo a ser repetida pela actual direcção do PCP, mas também por personalidades como Carvalho da Silva ou Boaventura de Sousa Santos e até por partidos como o BE. Todas estas esquerdas tendem a alertar contra o que designam como um processo de imposição colonialista de uma agenda político-económica. Infelizmente, entre os críticos da economia de austeridade e da ingerência externa, poucos são os que têm abdicado de fazer apelo a um orgulho português.

As razões por que as esquerdas apostam no patriotismo são diversas e o espaço desta coluna não permite discutir o tema com a seriedade que ele merece, mas há um grito de alerta que daqui pode ser dirigido a todos os que se reconhecem nesse espaço político, como é, aliás, o meu próprio caso.

Os que defendem a possibilidade de um patriotismo de esquerda dizem, e com razão, que o patriotismo é permeável a ideologias diversas. Por exemplo, a fórmula "interesse nacional" não terá um e o mesmo conteúdo político quando invocada por Sócrates e Passos Coelho e quando reclamada por Jerónimo de Sousa, Carvalho da Silva ou Francisco Louçã. Assim sendo, dizem que o facto de as esquerdas recorrerem a um imaginário patriótico tem a vantagem de impedir que a pátria seja um tema exclusivamente embandeirado e capitalizado pelos políticos do centro ou da direita.

Há, porém, um efeito perverso desta nacionalização da esquerda que é raramente atendida pelos defensores de uma via patriótica para o socialismo: o de o patriotismo levar a que a esquerda se aproxime do centro e da direita, assim como da extrema-direita. Esta hipótese ganha razão de ser se concordarmos que a aposta da esquerda no patriotismo em parte repete o gesto táctico do centro e da direita na hora de lidarem com a extrema-direita. É deste gesto exemplo o facto de, no quadro da actual crise, governos europeus de centro e de direita justificarem o seu tímido apoio aos países europeus do Sul sugerindo que tal retracção é condição necessária para que, a nível interno, impeçam que uma parte do seu eleitorado seja atraído pelas forças da extrema-direita. Ou seja, aqueles governos fazem-se nacionalistas para não deixar que o nacionalismo fique nas mãos da extrema-direita, à semelhança da esquerda que se afirma patriótica para não deixar que o patriotismo seja monopólio do centro e da direita.

No meio desta infernal sequência, determinada entre outros factores por mercados eleitorais nacionalizados, o papel de uma esquerda que preze tanto a ideia de internacionalismo proletário como a de cosmopolitismo universal só poderá ser, à partida, recusar as regras do jogo. Para a esquerda, o problema económico inadiável é a desigualdade social no país e no mundo, e não a questão do crescimento da economia nacional. E o desafio político que nos mobiliza não é restaurar a soberania nacional, mas uma democracia ilimitada, que não se fica nem à porta da fábrica nem numa linha de fronteira.

José Neves, Historiador

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Resto dossier

Fórum Socialismo 2011

Entre 9 e 11 de Setembro, decorre em Coimbra o Fórum Novas Ideias para a Esquerda. Neste dossier, divulgamos mais informação sobre o fórum, incluindo alguns textos dos temas em debate.

A crise da social-democracia europeia

Como explicar que o evidente fracasso do neoliberalismo não tenha provocado uma reacção política e uma recuperação ideológica fulgurantes dos partidos da esquerda europeia que têm alternado com a direita no poder?! Por Alfredo Barroso

Estado e mercado hoje: Articulações e problemáticas da criação musical

Não será necessário que uma nova política de esquerda seja capaz de reinventar o papel do estado na cultura para além do que ele tem sido até hoje? Texto de António Pinho Vargas.

Capitais, culturais e europeias

Em boa verdade estas capitais teriam de ser amplamente repensadas em função dos problemas reais da falsa integração europeia. Se estamos a regredir a passos largos, (...) a que propósito é que uma iniciativa de algum vulto económico, como é o caso, não é questionada do lado da realidade que se nos impõe como tragédia? Texto de Fernando Mora Ramos

Do Estado gordo à cura de emagrecimento

Apresentação de José Castro Caldas, disponível em pdf

Debate sobre os caminhos da esquerda abre Fórum

Carvalho da Silva e Alfredo Barroso participarão no debate “Os caminhos da esquerda em Portugal”, juntamente com Fernando Rosas e José Manuel Pureza. O debate terá lugar sexta feira às 21.30h em Coimbra e dará início ao Fórum Novas Ideias para a Esquerda, que decorrerá de 9 a 11 de Setembro.

Crescimento e decrescimento

Não cabe à esquerda responder de forma binária à pergunta crescimento ou decrescimento. Não é essa a nossa luta. Interessa qualificar a pergunta: o que queremos que cresça e decresça? Texto de Nelson Peralta

Condições de eficácia e legitimidade da intervenção do Estado – O caso da política industrial em Portugal

O debate académico e político sobre o apoio do Estado a actividades específicas tem vindo a mudar de foco, deixando de estar centrada na sua razão de ser, para incluir de forma crescente a questão das condições políticas e institucionais que favorecem a eficácia e a legitimidade das políticas. Há dois motivos fundamentais que tornam o caso português particularmente interessante no presente contexto. Texto de Ricardo Paes Mamede

A Morte Assistida - um debate actual

A morte assistida reporta-se aqui, neste debate sobre o debate, à ajuda no morrer a pedido do próprio, tanto na sua forma auto como hetero-administrada. Texto de Luís Teixeira

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Que justiça internacional depois do 11 de Setembro?

A leitura do mundo pós Guerra Fria e, especialmente, pós 11 de Setembro, com guerras infinitas, potências emergentes e crises, vai ajudar-nos ao necessário afunilamento da problemática. Texto de Bruno Góis.

Direitos dos Animais: O que deve a esquerda propor?

Na minha perspetiva, importa que a Esquerda continue a manter os temas dos Direitos dos Animais na agenda parlamentar e no debate público. Texto de Manuel Eduardo dos Santos

Descarbonizar a Economia

Descarbonizar a economia passa por descarbonizar a energia que usamos. E há três formas diferentes de o fazer: apostar na produção de energia através de fontes renováveis, melhorar a eficiência na procura de energia e reduzir o consumo. Texto de Miguel Heleno

Espaço Público e Novíssimos Movimentos Sociais

Debate a ter lugar no sábado, 10 de setembro, entre as 14,30 e as 16 horas. Resumo por João Teixeira Lopes.

Habitação: Direito Vs. Especulação; ou pela casa começou a crise

A habitação é um direito essencial para a vida. Porém, o direito foi açambarcado pelo mercado financeiro e imobiliário – uma grande base de sustentação para uma economia de exploração de recursos, especulação e endividamento. Texto de Rita Silva