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“Limites da decência há muito que foram passados”

Num comício-festa em Lourosa, Santa Maria da Feira, Francisco Louçã respondeu a Cavaco Silva e sustentou que os que hoje se alegram com a decisão da UE de baixar os juros a Portugal dão razão ao Bloco quando defendeu que era preciso renegociar a dívida.
Imposto sobre as grandes fortunas, que o Bloco vem apresentando há dez anos, será uma das prioridades. Foto de Paulete Matos

O coordenador do Bloco de Esquerda anunciou que a proposta do imposto sobre as grandes fortunas, que o Bloco vem apresentando há dez anos, será uma das prioridades do partido. O Bloco defende que o património acima dos dois milhões de euros seja taxado para financiar a Segurança Social e para apoiar a promoção da economia.

“O Presidente da República veio dizer que talvez os portugueses já estejam próximos dos limites dos sacrifícios, disse Louçã. “Enganado está Aníbal Cavaco Silva. Há muito tempo que se passaram os limites da tolerância, da decência, dos sacrifícios”, sublinhou.

O deputado bloquista referiu-se também ao homem mais rico de Portugal, que não se considera rico e rejeita qualquer sacrifício dos mais ricos.

“Amorim não quer pagar. Mas era bom que aceitasse pagar o mínimo de imposto que se exige a todos”. E recordou: “Américo Amorim tornou-se o homem mais rico de Portugal com um empréstimo do BPN que não pagou, para agora comprar por 40 milhões de euros o banco a quem deve 1.600 milhões de euros. É tão fácil ser-se multimilionário em Portugal”, ironizou.

Louçã também se referiu ao governo da região autónoma da Madeira, que está a negociar com o governo de Lisboa a forma de superar as suas dificuldades financeiras: “Alberto João Jardim espatifou em desvio orçamental quase o dobro do que o seu governo no Estado vai exigir aos subsídios de Natal de 4 milhões de portugueses. É claro que diz-nos Alberto João Jardim que não há problema nenhum, que Passos Coelho e Paulo Portas no governo já prometeram pagar isto e mais ainda não se sabe quanto.”

Quanto à crise da dívida, o coordenador do Bloco apontou que o Presidente da República acha agora que a decisão europeia de baixar os juros do empréstimo a Portugal e à Irlanda é vantajoso. “E tem toda a razão. Nós deixarmos de pagar 5 ou quase seis por cento e passarmos a pagar 3,5% é melhor para uma economia que tem tantas dificuldades, tanto desemprego e tanta dívida. Mas atenção: quem nos dizia que Portugal não podia dizer nada, que não podíamos fazer nada, está agora a reconhecer que o Bloco de Esquerda, ou tanta outra gente, tínhamos mesmo razão ao dizer que é preciso renegociar a dívida para baixar os juros e para proteger a economia. Tínhamos razão.”

Mas o deputado bloquista sublinhou, “para não deixar nenhuma dúvida”, que “mesmo este juro de 3,5% que agora agrada ao Presidente da República, ou ao primeiro-ministro, não é possível ser pago. É um juro usurário.”

Secretas: Louçã pede inquérito judicial

Sobre a revelação do Expresso de que o Serviço de Informações Estratégicas do Estado (SIED) espiou, no ano passado, o telemóvel de um jornalista do Público, Nuno Simas,com o objectivo de descobrir as eventuais fontes do jornalista, Louçã defendeu a realização de um inquérito judicial, observando que “o governo, a fazer algum inquérito, mantê-lo-á em segredo e será inconsequente”. Por isso, “só a Procuradoria-Geral da República está em condições de desenvolver um inquérito para se saber se foi ou não desenvolvida alguma actividade criminosa, como indica a notícia, pela direcção dos serviços secretos”.

Louçã recordou que umas semanas atrás ficou a saber-se que nos serviços secretos era possível um dos seus directores “trabalhar para uma empresa, com a compensação, mais tarde, de entrar nos quadros dessa empresa privada”. Ora a mesma empresa (referindo-se à Ongoing) “agora, acaba de juntar a essa lista de contratações o ex-secretário de Estado do Tesouro do anterior governo do Partido Socialista e o ex-chefe de gabinete do anterior primeiro-ministro, José Sócrates, que já tinha sido contratado pelo governo do PSD e do CDS para fazer o código de trabalho de Bagão Félix”.

“Este mundo é muito pequeno”, ironizou Louçã, considerando que a tal empresa “é certamente uma fachada de um consórcio bancário”.

“Soubemos agora que, nesse período, essa mesma pessoa poderia estar a desenvolver uma operação de vigilância ilegal, sobre a actividade normal de um jornalista, no exercício da liberdade e responsabilidade de informação”, acrescentou.

“Teríamos, por isso, um director dos serviços secretos que vigia ilegalmente um jornalista e trabalhava ilegalmente para uma empresa da qual mais tarde veio a ser um dos quadros dirigentes”, completou.

O coordenador do Bloco recordou que o primeiro-ministro prometeu então um inquérito sobre esse primeiro caso e publicou “uma nota de imprensa com um resumo das conclusões do inquérito”, segundo o qual “não houve violação do segredo de estado nessa actividade de director dos serviços secretos para uma empresa privada”.

“Mas quando o Parlamento lhe pediu que entregasse o relatório para ele poder ser estudado, a resposta do primeiro-ministro é que é um segredo de Estado o relatório que garante que não houve violação do segredo de Estado por parte desse director dos serviços de informação”, disse.

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