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De Nagasaki a Fukushima: o legado nuclear do Japão

No dia em que passam 71 anos do lançamento da bomba atómica sobre Nagasaki, republicamos este artigo de Amy Goodman escrito há cinco anos.
"Fat Man", bomba atómica lançada sobre Nagasaki em 9 de agosto de 1945 - Foto wikimedia

Os níveis de radiação nos reactores nucleares de Fukushima, no Japão, aumentaram nas últimas semanas, alcançando patamares de até 10.000 milisieverts (mSv) por hora no mesmo lugar. Este foi o nível máximo informado pela Companhia Eléctrica de Tóquio, a TECO, desprestigiada empresa proprietária da central nuclear, embora caiba dizer que esse número é o máximo que o Contador Geisel possa medir. Em outras palavras, os níveis de radiação literalmente ultrapassam todas as medições. A exposição a 10.000 milisieverts durante um curto período de tempo tem consequências fatais: provoca a morte em apenas semanas (a título de comparação, a radiação total de uma radiografia dental é de 0,005 mSV e a de uma tomografia computadorizada do cérebro é de 5). O jornal The New York Times informou que, após o desastre, funcionários do governo japonês ocultaram os prognósticos oficiais sobre para onde se dirigia a chuva radioactiva devido ao vento e ao clima para evitar o caro deslocamento de centenas de milhares de habitantes.



“O segredo, uma vez aceite, converte-se em vício”. Essas palavras bem que podiam descrever a manobra realizada pelo governo japonês diante da catástrofe nuclear. A fala pertence ao cientista atómico Edward Teller, um dos principais responsáveis pela criação das duas primeiras bombas atómicas. A bomba de urânio conhecida por “Little Boy” foi lançada no dia 06 de agosto de 1945 sobre a cidade de Hiroshima, Japão.

Três dias mais tarde foi lançada a segunda bomba, desta vez de plutónio e denominada “Fat Man”, sobre a cidade de Nagasaki. Cerca de 250 mil pessoas morreram por causa das explosões e dos efeitos imediatos. Ninguém sabe exactamente a quantidade de pessoas que morreram ou padeceram de enfermidades nos anos seguintes em virtude das explosões, que vão desde as dolorosas queimaduras, que sofreram milhares de sobreviventes, até os efeitos tardios como doenças provocadas pela radiação e câncer.



A história dos bombardeios em Hiroshima e Nagasaki é em si mesma a história da censura e da propaganda militar estadunidense. Além das filmagens que foram ocultadas, as forças armadas impediram o acesso de jornalistas às zonas de explosões. Quando o jornalista vencedor do Prémio Pulitzer George Weller conseguiu chegar a Nagasaki, seu artigo foi pessoalmente censurado pelo General Douglas MacArthur. O jornalista australiano Wildred Burchett conseguiu entrar em Hiroshima pouco depois das explosões e dali mesmo escreveu sua famosa “advertência ao mundo”, na qual descreveu a propagação massiva das enfermidades como uma “praga atómica”. Mas as forças armadas estadunidenses disseminaram sua própria praga. Acontece que William Laurence, jornalista do New York Times, também era empregado do Departamento de Guerra. Laurence informou precisamente a posição do governo estadunidense, insistindo que os “japoneses descreviam ‘sintomas’ que não pareciam verdadeiros”. Lamentavelmente, ganhou o Prémio Pulitzer por sua propaganda.



Greg Mitchell escreveu sobre a história e as sequelas de Hiroshima e Nagasaki durante décadas. Neste novo aniversário do bombardeio à Nagasaki, perguntei-o sobre seu mais recente livro “Dissimulação atómica: Dois soldados estadunidenses, Hiroshima e Nagasaki, e o melhor filme jamais rodado”.



“Parece que tudo que é tocado pelas armas nucleares ou pela energia nuclear provoca ocultação e perigo para o público”. Mitchell disse que durante anos buscou imagens filmadas pelas forças armadas estadunidenses nos meses posteriores ao lançamento das bombas; rastreou os envelhecidos produtores cinematográficos e, apesar de décadas de classificação de documentos por parte do governo, foi um dos jornalistas que publicizou os incríveis arquivos cinematográficos em cor. Como parte do Relatório sobre Bombardeios Estratégicos dos Estados Unidos, as equipes de filmagem documentaram não só a devastação das cidades, como também realizaram um documentação clínica com tomadas das graves queimaduras e as feridas degenerativas sofridas por civis, entre eles crianças.



Numa cena, vê-se um homem jovem com feridas em carne viva por todas as suas costas, enquanto recebe tratamento. Apesar das graves queimaduras e de ter sido realmente tratado apenas meses mais tarde, o homem sobreviveu.



Sumiteru Taniguchi, que agora tem 82 anos de idade, é director do Conselho de Pessoas Afectadas pela Bomba Atómica de Nagasaki. Mitchell reproduziu comentários recentes de Taniguchi num jornal japonês que relacionam à bomba atómica ao actual desastre de Fukushima:



O senhor de idade foi citado dizendo: “A energia nuclear e o ser humano não podem coexistir. Nós, os sobreviventes da bomba atómica, sempre o dissemos. E, no entanto, o uso da energia nuclear foi disfarçado de ‘pacífico’ e continuou avançando. Nunca se sabe quando haverá um desastre natural. Não é possível dizer que nunca haverá um acidente nuclear”.



Neste doloroso encontro de novos e velhos desastres, deveríamos escutar as vítimas sobreviventes de ambas as catástrofes.




Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna. Texto em inglês traduzido por Mercedes Camps para Democracy Now! em espanhol. Texto em espanhol traduzido para o português por Rafael Cavalcanti Barreto, revisto por Bruno Lima Rocha, para Estratégia & Análise.

Este artigo foi publicado originalmente no esquerda.net em 23 de agosto de 2011

 

Sobre o/a autor(a)

Co-fundadora da rádio Democracy Now, jornalista norte-americana e escritora.
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