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Cuba: cinco anos depois

"Talvez a maior transformação tenha sido na mudança de uma visão política da economia por uma visão econômica da política", diz o escritor Leonardo Padura Fuentes neste artigo sobre os cinco anos passados desde o anúncio da saída de Fidel Castro.
Com o passar do tempo, percebeu-se que a retirada de Fidel não era temporária. Foto a-birdie/Flickr

Há cinco anos foi feito o anúncio público, por Fidel Castro, informando que por razões de saúde delegava “provisoriamente” seus altos cargos à frente do Estado e do governo cubanos e colocava suas responsabilidades nas mãos de uma junta de cinco pessoas, encabeçada por seu irmão Raúl Castro, até que seu estado físico permitisse seu retorno a esses postos.

Com os meses, foi ficando evidente que o regresso planeado pelo então Primeiro Secretário do governante e único partido admitido em Cuba, o comunista, não seria tão imediata e, pouco depois, se revelou que seria impossível, e foi anunciada sua retirada da vida política activa, mas não da política.

O afastamento do líder da revolução de 1959, e por muitos anos ocupante dos máximos cargos do país, gerou uma dúvida que, um ano depois, começou a tomar forma: uma Cuba sem Fidel à frente seria igual a uma Cuba governada por Fidel? Hoje, cinco anos depois, talvez seja impossível aventurar uma resposta de certas sonoridades socráticas: a Cuba de hoje é a mesma de Fidel, mas, ao mesmo tempo, bastante diferente da que Fidel governava.

Sem que as essências do sistema socialista cubano e sua projecção política tenham mudado substancialmente, as estruturas e concepções sociais e económicas sofreram uma violenta alteração, muito visível em dois ou três itens altamente significativos: mudança total da equipe de governo encarregada da economia (e não apenas a economia), reanimação e ampliação do trabalho por conta própria e as potencialidades da propriedade privada, guerra à corrupção de alto nível, modificações da retórica triunfalista por uma mais realista, entre outras variações.

Nos cinco anos transcorridos, talvez a maior transformação tenha sido na mudança de uma visão política da economia por uma visão económica da política. A revelação das proporções da ineficiência económica imperante no país forçou um necessário saneamento de seus mecanismos financeiros, produtivos e comerciais como condição para a sobrevivência de um modelo político. Daí a revogação de medidas de puro carácter político que impediam a arrecadação de dinheiro (telefonia celular, venda de eletrodomésticos e computadores, abertura das instalações turísticas aos cidadãos cubanos, etc.) e outra, inclusive mais profunda, como uma nova divisão das improdutivas terras estatais com produtores privados e a abertura da microempresa individual ou familiar como fonte de geração de bens e recursos, de arrecadação de renda pelos impostos e de absorção de mão de obra, exactamente quando o governo “descobria” que o pleno emprego cubano escondia a existência de mais de um milhão de trabalhadores pagos pelo Estado sem real conteúdo de trabalho.

Aos que vivem em Cuba todos estes anos quase parece incrível que o evidente finalmente tenha se transformado em política de Estado, com a eliminação de métodos de mobilização tão arraigados como o do trabalho voluntário, por ser considerado improdutivo e não rentável, das brigadas estudantis que anualmente tinham de sacrificar parte de suas férias em trabalhos para os quais não estavam aptos e que geravam mais gastos do que benefícios, ou a supressão dos centros de ensino médio localizados fora da cidade com a intenção de facilitar a combinação do estudo com o trabalho, sem que ao final nenhum dos dois rendesse: nem o estudo nem o trabalho, e menos ainda a formação ética e civil desses jovens.

No puro terreno político talvez o fato mais significativo resida na libertação de mais de meia centena de presos, na maioria detidos na primavera de 2003 e condenados a longas penas. Graças à mediação da Igreja Católica e à intervenção da Espanha como facilitadora, cerca de 90% desses ex-presos hoje estão fora de Cuba, e, com sua libertação, o governo de Raúl Castro conseguiu resolver uma crise política, aberta com a morte do grevista de fome Orlando Zapata, e que ameaçava complicar-se com o possível falecimento do dissidente Guillermo Fariñas.

E, enquanto era tirada pressão da onda política, colocava-se mais fogo na guerra contra a corrupção de funcionários públicos, e, só neste ano de 2011, já são 36 os burocratas, incluídos um ex-ministro e um ex-vice-ministro, julgados e condenados…

No entanto, foi em abril deste ano, durante a realização do VI Congresso do Partido Comunista, que Raúl Castro fez o anúncio que definitivamente distingue sua forma de fazer política: junto com a ordem de ser imposta uma mudança radical de mentalidade para dirigir e viver em um país que começa a ser diferente, comunicou a decisão de que os altos cargos do governo e do Estado só poderão ser exercidos por dois períodos de cinco anos. Essa mudança de estilo e projecção, inédita em um Estado socialista de partido único, e mais profunda do que aparenta vista do presente, parece marcar o fim de um modelo de governo e de uma forma de fazer política, para outro que poderá ser de muitas maneiras, mas desde já diferente da patenteada por Fidel Castro em seus mais de 46 anos à frente do país.


Artigo publicado no Envolverde/IPS

* Leonardo Padura Fuentes é escritor e jornalista cubano. As suas novelas foram traduzidas para mais de 15 idiomas, e a sua obra mais recente - "O Homem que Gostava de Cães" - tem como personagens centrais Leon Trotski e o seu assassino, Ramón Mercader.

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