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Ditadores árabes seguram-se… mas até quando?

Este vosso correspondente para o Médio Oriente não está a prometer nada, talvez, talvez, nada é garantido, mas é possível que esteja próximo – e como detesto esse cliché –, para a Síria, o ponto de não-retorno.
Militares sírios disparam na cidade da Hama - 31 de Julho de 2011

Embora se saiba que vive mudando de direcção conforme sopre o vento, Walid Jumblatt começou a fazer comentários pessimistas sobre a Síria.

O líder druso, chefe do Partido Socialista Progressista do Líbano, ‘senhor-da-guerra’, foi quem sugeriu que se deveria esquecer o Tribunal Especial da ONU e as investigações sobre o assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafiq Hariri, em nome de defender “mais a estabilidade que a justiça”. Ouviu urros de ira de Saad Hariri, filho do ex-primeiro-ministro, que actualmente perambula pelo mundo para ficar bem longe do Líbano – o que é compreensível, porque teme ser também assassinado –, enquanto a Irmã Síria cala-se para o oriente. Agora, Jumblatt anda a dizer que há forças na Síria que impedem qualquer reforma.

Parece que “alguns” no regime do Partido Baath não querem ver traduzidas em acção as promessas de reforma que o presidente Bashar al-Assad tem feito. Os soldados não devem atirar contra civis. Jumblatt diz que a lição da Noruega é útil também para o regime sírio; o mundo árabe não deixou de anotar que as sandices que Anders Breivik distribuía pela internet incluíam a exigência de que os árabes deixassem para sempre a Cisjordânia e Gaza.

Este vosso correspondente para o Médio Oriente não está a prometer nada, talvez, talvez, nada é garantido, mas é possível que esteja próximo – e como detesto esse cliché –, para a Síria, o ponto de não-retorno. 100 mil pessoas (no mínimo) nas ruas de Homs; há notícias de deserções entre os soldados da academia militar síria. Um commboio inteiro descarrilado – por agentes “sabotadores” segundo autoridades sírias; pelo próprio governo, segundo os manifestantes que exigem o fim do governo do partido Baath. E tiroteios à noite, em Damasco. Assad ainda estará a contar que os medos sectários mantenham o apoio que a minoria alawita e os cristãos e os drusos ainda lhe dão? Os manifestantes dizem que os seus líderes estão a ser assassinados por pistoleiros do governo; que centenas de manifestantes, talvez milhares, foram presos. Será verdade? Será mentira?

O braço sírio é longo. Em Sidon, cinco soldados italianos da ONU foram feridos, depois que Berlusconi se uniu à União Europeia e condenou a Síria. Depois, Sarkozy uniu-se à mesma condenação e – bang! – cinco soldados franceses foram feridos na mesma cidade, esta semana. Bomba sofisticada. Todos desconfiam da Síria, mas, com certeza, nada se sabe. A Síria tem apoiantes entre os palestinianos do campo Ein el-Helweh em Sidon.

E, então, Hassan Nasrallah do Hezbollah anuncia que os seus militantes vão dar proteção e cobertura aos campos libaneses submarinos de petróleo ainda não prospectados: o perigo é Israel. São 550 milhas quadradas de águas mediterrâneas ao largo de Tiro – e não se sabe sequer, com certeza, se são águas territoriais libanesas. Aí há, claramente, motivo para mais uma guerra.

E, lá no Egito, o velho ex-presidente irá a julgamento com os seus filhos Gamal e Alaa Mubarak, na 4ª-feira, além de outros dos favoritos da corte de Hosni Mubarak. Os ministros da Justiça e da Segurança, hoje, são antigos auxiliares de Mubarak: permanecem, pois, no poder. O que significa isso? Os velhos Mubarakistas seguram-se? Os sauditas ofereceram milhões ao exército egípcio para que Mubarak não fosse julgado – muitos querem condená-lo à morte; o exército gostaria de executá-lo hoje mesmo. E enquanto isso, os sauditas dão tudo que podem para defender o Bahrain e outros potentados do Médio Oriente. Estão preparados para deixar Kadhafi ser derrubado (Kadhafi tentou assassinar o rei, vezes demais). Os sauditas ainda não entenderam qual a posição de Obama em relação à Síria – desconfio que Obama, tampouco. Mas o presidente dos EUA deve estar contentíssimo por não ter soldados norte-americanos no Líbano, nas tropas de paz da ONU. Todos sabemos o que aconteceu com o último pelotão de norte-americanos que lá esteve (1983, na base dos Marines, 241 mortos, um suicida-bomba, a maior explosão que o mundo ouviu desde Nagasaki).

“Foram obrigados a levar Mubarak a julgamento” – disse-me um jornalista egípcio, na semana passada. “A rua incendiaria o país, se não fosse levado a julgamento”. Promete ser o julgamento do século no Egipto (o Independent lá estará).

O que me leva de volta ao nosso velho amigo Kadhafi, o ditador árabe que não combina exactamente com os demais déspotas. Neste momento, o mundo político na Líbia é enxame de Kerenskys. – Os Aliados não terem vencido a guerra para os Russos Brancos contra os Bolcheviques depois do conflito 1914-18 acorda alguns fantasmas infelizes que bem farão se assombrarem hoje os também tão infelizes quanto cobertos de medalhas comandantes da NATO. (Deveriam estudar, na biblioteca da NATO, o envolvimento de Churchill.)

De facto, o fracasso dos ‘rebeldes’ líbios parece mais semelhante à exaustão de Sharif Hussain depois de capturar Meca, em 1916; foram necessárias armas de Lawrence e dos britânicos (e muito dinheiro e muitos coturnos em terra) para pôr em pé novamente o herói, para enfrentar os turcos. Infelizmente, não há Sharif Hussain na Líbia. Assim sendo, porque, diabos, os britânicos nos metemos naquela loucura? (Desconsidero, neste raciocínio, os assassinatos e confusão geral em Benghazi nas últimas 48 horas.) Teria sido para proteger civis em Benghazi? Há quem acredite que sim. Mas… por que, então, Sarkozy atacou primeiro?

O professor Peter Dale Scott da Universidade da Califórnia em Berkeley tem opinião formada: Kadhafi estava a trabalhar para criar uma “União Africana” apoiada na moeda do Banco Central da Líbia e nas suas próprias reservas em ouro; se fizesse o que planeava fazer, a França perderia a extraordinária influência financeira que sempre teve nas suas principais ex-colónias da África Central.

O muito divulgado plano de Obama, de impor sanções à Líbia – confiscar dinheiro do “Coronel Kadhafi, dos seus filhos e da sua família e dos principais membros de seu governo” – ajudou a ocultar a parte das sanções que confiscaram também “todas as propriedades e investimentos do Governo da Líbia e do Banco Central da Líbia”.

No subsolo do Banco Central, em Tripoli, há, em ouro e moedas, 20 mil milhões de libras, guardadas para implantar três projectos da federação centro-africana.

E já que estamos neste tema, examinemos rapidamente uma guerra de ingleses no Afeganistão. Eis o que escreveu uma comissão que investigou a participação (e já quase completa derrota) dos britânicos, naquela guerra: “O nosso objetivo (…) é auxiliar os nossos concidadãos a entender as vias pelas quais foram envolvidos numa guerra contra a nação afegã e o que tenham a declarar, sobre o sentido dessa guerra, os autores. Não apenas o governo não consultou o Parlamento nem houve qualquer comunicação àquele corpo político de qualquer mudança na política britânica que nos levasse a envolver-nos naquele conflito, mas, além disso, quando o governo foi interrogado sobre as suas razões, respondeu por vias oblíquas, respostas construídas para nada informar e desviar a atenção do Parlamento. De facto, assim aconteceu: o governo conseguiu enganar até os mais atilados funcionários e especialistas e, através deles, toda a nação.” A citação lá está, no relatório final da investigação, pelo Parlamento britânico, da Segunda Guerra do Afeganistão. A data? 1879.

Artigo publicado pelo jornal britânico The Independent a 30 de Julho de 2011, traduzido para português pelo Coletivo da Vila Vudu e disponível em redecastorphoto.blogspot.com

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Sobre o/a autor(a)

Jornalista inglês, correspondente do jornal “The Independent” no Médio Oriente. Vive em Beirute, há mais de 30 anos
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