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Tudo o que é sólido se dissolve no ar

A comunicação social é um negócio e nela os jornalistas têm cada vez menos força. Não são artesãos livres, mas empregados que têm de criar produtos e notícias que vendam. Por Nuno Ramos de Almeida.
A informação é um direito, mas os jornais são uma mercadoria. Foto Rusty Sheriff/Flickr

A informação é um direito, mas os jornais são uma mercadoria. Aquilo que os define não são os critérios do jornalismo, mas a sua capacidade de serem vendidos. A ética não faz parte dos limites do comércio, a lei, às vezes, sim. O que se passou com o News of the World e do grupo News Corp. é um caso de polícia. Como todos os casos mediáticos revela algumas coisas e esconde outras. Ficamos a saber que um dos maiores grupos de comunicação do mundo comprava notícias, subornava políticos, fazia escutas ilegais, acedia a documentos médicos. Tinha nessa prática criminosa uma agenda própria: ajudava políticos conservadores e Tony Blair e perseguia outros dirigentes trabalhistas. É muito? Sim, mas não é tudo. Se nos concentrarmos na violação da lei não perceberemos que esta situação não é isolada. Não está ligada à existência de alguns criminosos. A existência destes crimes e a diluição dos critérios da ética jornalística são devidas a uma situação social concreta. A comunicação social é um negócio e nela os jornalistas têm cada vez menos força. Não são artesãos livres, mas empregados que têm de criar produtos e notícias que vendam. Nesta venda é cada vez menos importante a relevância noticiosa daquilo que enche os órgãos de comunicação. O critério da importância traduz-se na venda e no dinheiro recolhido e não na importância social daquilo que é noticiado. Claro que assuntos socialmente relevantes podem dar notícias que se vendam bem, mas as notícias que se vendem bem não são só sobre assuntos socialmente relevantes. Podem morrer 10 mil pessoas num terramoto do Irão, mas se, no mesmo dia, Cristiano Ronaldo tiver um acidente com a namorada de turno no IC19, em que um dos implantes dela surja danificado, certamente será isso que abrirá os telejornais, com direito a directo e tudo.

Aquilo que caracteriza as indústrias de informação é a sua concentração em grandes grupos económicos e a sua concorrência desenfreada. Estes dois processos não têm permitido afirmar a diversidade e pluralidade da comunicação social. Têm, pelo contrário, contribuído para a dominação de uma informação espectáculo. Em que as regras do jornalismo são subvertidas pela necessidades do espectáculo.

As regras do jornalismo são resquícios de tempos antigos e estão ligadas a uma fase do negócio da comunicação social em que grupos de jornalistas conseguiam sobreviver dos negócios. O jornalismo tal como o lemos nos livros é vítima da dificuldade crescente de existirem órgãos de comunicação independentes dos grandes grupos e que tenham uma lógica que mantenha a autonomia relativa do discurso jornalístico em relação à sociedade do capitalismo global e financeiro em que vivemos. Há 30 anos, um grupo de jornalistas podia fundar um jornal e sobreviver das vendas. Hoje, os jornais e restantes órgãos de comunicação social são investimentos muito mais vultuosos que dependem sobretudo da publicidade. A lógica que prevalece não é a da notícia, mas a necessidade de ter audiências e de conseguir vender publicidade a quem tem dinheiro. Neste quadro, não há nenhum órgão de comunicação social relevante de esquerda anti-capitalista que consiga sobreviver. E todos os órgãos que conseguem manter-se à tona, têm de pertencer a um grande grupo económico e adequar os seus conteúdos. Os grandes grupos não vendem notícias, mas conteúdos que tanto podem ser entretenimento como informação. Não buscam noticiar o que se passa, mas têm como primordial chegar à maior audiência possível, para obter a maior fatia da publicidade e dos lucros. A informação espectáculo é o produto normal dessas empresas.

Acresce que o aumento do desemprego nos jornalistas, a chegada ao mercado de dezenas de milhares de candidatos à profissão, a situação de falência da maioria dos jornais leva a que os jornalistas tenham cada vez menos garantias de emprego, e como tal, cada vez menos liberdade profissional e capacidade de definirem a sua profissão. Como escreveram dois jovens de 28 anos no século XIX: “a burguesia fez de toda a dignidade profissional um simples valor de troca; substitui as inúmeras liberdades, duramente conquistadas, pela simples liberdade de comércio”. O caso do The News of the World é um simples resultado da liberdade do comércio. Só isso.

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