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Reino Unido: escutas ilegais terão tido como alvo príncipe e Brown

Escândalo que envolve grupo de Rupert Murdoch continuou a ampliar-se. Empresário desistiu para já de comprar a British Sky Broadcasting. O seu principal assessor é alvo de investigações.
Charles e Camila terão estado sob escuta. Foto de Defence Images

O magnata australiano Rupert Murdoch retirou a oferta de compra da rede de TV por assinatura British Sky Broadcasting, que conta com 10 milhões de assinantes. A decisão foi tomada pelo empresário esta segunda-feira depois de ter chegado a Londres para gerir a crise em que o seu grupo de média mergulhou devido ao escândalo de realização de escutas ilegais que levou ao encerramento do semanário News of the World neste domingo.

O vice-primeiro-ministro Nick Clegg, do Partido Liberal Democrata, já tinha exortado Murdoch a recuar: "Faça a coisa decente e reconsidere a sua proposta de compra da BSkyB", disse Clegg à BBC News, depois de um encontro com familiares de uma das vítimas das escutas telefónicas, a estudante Milly Dowler, que foi assassinada em 2002.

O próprio primeiro-ministro David Cameron disse que, depois do escândalo, a prioridade da News Corporation, o conglomerado de Murdoch, deveria ser “limpar a sua crise interna”.

Novas escutas

Nesta segunda-feira surgiram novas denúncias de que as escutas telefónicas feitas pelo tablóide tiveram como alvos a família real ou o ex-primeiro-ministro Gordon Brown. Segundo o The Guardian, a Scotland Yard teria advertido a família real que o príncipe Charles e a duquesa da Cornualha teriam tido os seus telemóveis sob escuta, promovida por um detective privado contratado pelo jornal sensacionalista.

Outro alvo teria sido o primeiro-ministro Gordon Brown, que, segundo a BBC, teria estado sob escuta do jornal The Sunday Times, também do grupo de Murdoch.

As investigações policiais sobre as escutas ilegais concentram-se agora no papel que teve nelas Les Hinton, o assessor mais próximo de Murdoch, que é actualmente director do Dow Jones (que também faz parte do grupo). Os investigadores querem saber se Hinton tomou conhecimento de um relatório interno de 2007 que afirmava que as escutas ilegais eram muito mais amplas do que a própria empresa tinha reconhecido publicamente. O Financial Times sugere que o assessor e executivo seria sacrificado para salvar James Murdoch, director de operações e filho de Rupert Murdoch, e Rebekah Brooks, conselheira editorial do grupo e que dirigiu o News of the World entre 2000 e 2003.

Jornal sensacionalista

O escândalo das escutas telefónicas, que levou ao encerramento do News of the World, já vem desde 2007, quando o correspondente para a família real do jornal, Clive Goodman, se reconheceu culpado de interceptar comunicações pessoais ilegalmente e cumpriu uma pena de cadeia de quatro meses. Na época, o editor Andy Coulson demitiu-se. Mas o caso reacendeu-se este ano, quando o The Guardian revelou que um detective particular, Glenn Mulcaire, fora pago pelo News of the World para fazer escutas telefónicas às mais variadas personalidades. O caso tornou-se numa bola de neve e há cálculos de que mais de 7 mil pessoas teriam estado sob escuta – o que significaria que esta prática criminosa se teria tornado no método prioritário usado pelo jornal para publicar as suas “cachas”.

A sua especialidade eram manchetes sensacionalistas sobre a vida privada de celebridades, que muitas vezes processaram o jornal e receberam indemnizações, como foi o caso dos futebolistas David Beckham, em 2005, Wayne Rooney e Ashley Cole, em 2006, de Max Mosley, Presidente da Federação Internacional de Automobilismo, e tantos outros.

Mas o caso que provocou a fúria da opinião pública contra o jornal foi a revelação de que os familiares da menina Milly Dowler, de 13 anos, que foi raptada e assassinada em 2002, também tinham sido alvo de escutas.

Encerramento do jornal

O escândalo estava a afastar os anunciantes do jornal, preocupados por verem as suas marcas vinculadas a um caso de “jornalismo de cano de esgoto”. Pior ainda, empresas como a Renault já tinham decidido deixar de anunciar em qualquer órgão do grupo de Murdoch. O magnata decidiu assim fechar o jornal que comprara em 1969 e que já se publicava há 168 anos.

A decisão foi comunicada à redacção pela conselheira editorial do grupo, Rebekah Brooks, que já fora também editora do jornal no período da crise. Rebekah mantém o cargo editorial mais importante do grupo, como se não tivesse qualquer responsabilidade sobre as escutas. Os 200 jornalistas, porém, vão para o desemprego, com 90 dias de salário pago pela empresa. Muitos deles poderão vir a processar a News Corporation, se não conseguirem arranjar emprego devido à má reputação com que ficaram depois do escândalo.

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