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Os dramas de Viegas

Esta secretaria de estado vai dar atenção ao livro e ao património e não vai dar atenção à criação e à rede de cine-teatros. São escolhas legítimas mas, na minha opinião, erradas.

Francisco José Viegas começou bem. Ainda em campanha avisou logo que acabava com o Ministério da Cultura. É inteligente, por um lado institucionaliza aquilo que o PSD acredita ser o papel do estado para a cultura, um balcão de cheques para passar aos amigos mais ou menos flutuantes e, evita simultaneamente qualquer responsabilidade democrática de prestar provas, afinal de contas é um mero secretário de estado. A questão não é menor e o tempo o irá comprovar. Mas devemos então dar atenção ao que já sabemos e o programa deste governo para a Cultura é claro, esta secretaria de estado vai dar atenção ao livro e ao património e não vai dar atenção à criação e à rede de cine-teatros. São escolhas legítimas mas, na minha opinião, erradas. Explico porquê.

Primeiro, todas estas áreas maiores da governação cultural são complementares e devem fazer parte de uma estratégia compreensiva para o sector. Obviamente que cada ministro tem o seu cunho pessoal na estratégia a tomar e faz as suas escolhas próprias mas o maior problema para a cultura tem sido a instabilidade das políticas da tutela que parecem depender mais dos caprichos do que de estratégias com princípio meio e fim. E é precisamente em momentos de crise que a estratégia se torna necessária, alguma garantia de que, apesar de pouco, saber que o que existe e o que se quer atingir permite a todos planear e gerir uma situação difícil. Ou seja, o que se quer nestas situações não é novos programas piloto mas sim garantir que não extinguem o que já existe.

Segundo, o sector da criação está neste momento no limite da sua capacidade financeira mas também no limite da sua capacidade de produção. Nunca se produziu tanto e com tanta qualidade mas isso é graças ao maior investidor no sector, os próprios artistas que, gerindo as migalhas que o governo ia distribuindo, têm financiado o seu trabalho com segundos empregos e empréstimos bancários sob promessa de apoios e concursos atrasados. Esta é uma situação incomportável e vamos por isso assistir a uma quebra de actividade abrupta e profunda da qual não recuperaremos durante alguns anos. É por isso que uma estratégia para a rede de cine-teatros é tão importante pois dessa forma estaríamos a utilizar a capacidade instalada dos teatros já existentes em geral abandonados e, simultaneamente, criar condições mínimas para o mercado interno se manter activo no sector permitindo aos criadores a manutenção da sua actividade.

A aposta no livro é salutar, a aposta na rede pública de bibliotecas é estruturante para o país, mas nem sequer mencionar a rede de cine-teatros no programa de Governo é clarificador e demonstra que o PSD ainda não chegou ao séc. XX no que respeita à Política Cultural.

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