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Batalhas

A criação de um discurso que opõe o sacrifício das pessoas ao privilégio e irrealismo político dos movimentos sociais, começando pelo sindical, é a táctica presente para a desagregação do campo organizado dos que vivem do trabalho.

O novo Governo tomava posse e já os corpos de Carlos Moedas e Vítor Gaspar tinham aquecido, umas horas antes, os lugares numa reunião com a troika. Quem manda marca as horas e está visto que o novo Governo discutirá as medidas que importam em inglês. E parece que há mais gente a dominar o idioma. Ferraz da Costa aparenta ter lido com atenção as missivas da revista The Economist1, que identifica os sindicatos como a “próxima batalha” a ser travada pelos governos europeus.

Este ex-patrão dos patrões portugueses preside ao Fórum da Competitividade (uma associação lançada por Mira Amaral, patrocinada pelo BES, BPI, Mello Saúde, EFACEC, Galp e tantos outros grupos) e tem por companhia na direcção homens como Nogueira Leite, Luís Palha, Vítor Bento, João Salgueiro ou Miguel Cadilhe. Todos eles com o número de Passos Coelho na lista telefónica. Em recente entrevista, Ferraz da Costa reavivou a sanha de esganar o “monopólio sindical”, pondo em causa a representatividade e legitimidade das estruturas sindicais na negociação colectiva. Seriam apenas desabafos de um patrão apoquentado não fossem, igualmente, pontos do programa do PSD.

Este ataque encerra mais do que o desejo de aniquilamento dos sindicatos, que ainda separam esta gente da mobilidade total da força de trabalho e da redução abrupta dos salários, é também uma investida contra a escolha da militância e a hipótese da mobilização. A criação de um discurso que opõe o sacrifício das pessoas ao privilégio e irrealismo político dos movimentos sociais, começando pelo sindical, é a táctica presente para a desagregação do campo organizado dos que vivem do trabalho. É um discurso que passa em horário nobre e que colheu os seus frutos no último 5 de Junho.

A tarefa imediata é, portanto, provar que estão errados. Esta semana foi lançada um apelo “por uma auditoria à dívida portuguesa”, que é assinado por sindicalistas, activistas e académicos. Vem no tempo certo. A criação de um movimento popular que leve a cabo uma campanha pela auditoria à dívida portuguesa constitui uma oportunidade não só de romper com a espiral da chantagem da bancarrota, desnudando a artificialidade e a usura do endividamento, mas também de criar uma frente capaz de unir sectores tão distintos como os sindicatos, partidos da esquerda, movimentos de precários, novos movimentos assembleístas e tantas pessoas que não aceitam o garrote da troika. A batalha da dívida continua a ser a chave da questão política em Portugal.

Abrir o campo de disputa pela identificação das batalhas que valem a pena ser travadas e com quem devem ser travadas é o que definirá a força de uma esquerda socialista nos próximos tempos. A revisão constitucional, a alteração do Código do Trabalho e as privatizações generalizadas impõe que comecemos desde já a construir uma resposta social. A luta dos trabalhadores dos Estaleiros de Viana, da CP, da CRH em Coimbra, dos formadores do IEFP, assim como das pessoas que nos últimos meses se reuniram e acamparam nas praças do país procurando soluções para uma crise que condena 800 mil pessoas ao desemprego e 2 milhões ao trabalho precário, depende, mais do que nunca, da vitória da mobilização sobre a chantagem da fatalidade.


1 “The public sector unions: The batlle ahead”, 06.01.2011.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, dirigente do Bloco de Esquerda e ativista contra a precariedade.
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