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Mudança de Jogo

Aqueles partidos políticos e governos que querem ter a certeza de que são eleitos, têm de prometer e concretizar mudanças económicas e sociais reais. Por Mark Weisbrot
A elite tradicional do Peru foi derrotada, apesar do crescimento económico durante a última década. Foto de Thomas Hirsch

A vitória do candidato populista de esquerda Ollanta Humala na eleição do Peru é um “tema do caraças” como famosamente murmurou o Vice-Presidente Joe Biden a Obama na televisão nacional noutro contexto. No que respeita à influência dos EUA no hemisfério, dá cabo de um dos dois aliados com que Washington podia contar, deixando apenas o governo de direita do Chile. Agora, o Brasil, a Argentina, a Venezuela, a Bolívia, o Equador, o Paraguai, o Uruguai e o Peru têm governos de esquerda que são mais independentes dos EUA do que é a Europa. E a Colômbia de Manuel Santos está a alinhar com estes governos mais do que com os norte-americanos.

Isto significa que a integração política e económica prosseguirá mais suavemente; embora seja um projecto a longo prazo. Por exemplo, no dia 5 de Julho, chefes de Estado de todo o hemisfério encontrar-se-ão em Caracas, Venezuela, para proceder à formação da CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos). É uma organização regional que inclui todos os países excepto os EUA e o Canadá e a qual – não importa o que digam no âmbito diplomático – é destinada a substituir a Organização Americana de Estados (OEA). A nova organização é uma resposta ao abuso da OEA pelos EUA (que controlam a maior parte da burocracia) para propósitos anti-democráticos, como os recentes casos das Honduras e o do Haiti.

Estas mudanças institucionais, incluindo o papel expandido da UNASUR (União das Nações Americanas do Sul), estão a mudar as regras e os costumes das relações diplomáticas no hemisfério. A administração Obama, que continuou as políticas de “contenção” e “recuo” do seu predecessor, tem sido morosa na aceitação da nova realidade. Como resultado, não tem embaixadores na Bolívia, na Venezuela e no Equador.

A eleição é também importante para o Peru por um número de razões. Como disse o peruano, conservador, Nobel da Literatura e político Mario Vargas Llosa, a vitória de Humala “salvou a democracia.” O ex-presidente Alejandro Toledo declarou, “o povo venceu, a democracia venceu, a memória do povo venceu. O povo escolheu o crescimento económico com inclusão social.” De facto, teria sido enviada uma terrível mensagem aos peruanos e ao mundo se a filha de alguém que está na prisão por vários assassínios políticos fosse eleito presidente. Embora ela tenha feito um esforço por se distanciar desses crimes, candidatava-se com o nome e o legado de seu pai, e a ajuda dos seus conselheiros.

A eleição é interessante por outras razões. Primeiro, é outro exemplo de como os eleitores vão contra a maioria dos ricos e da elite, incluindo os mais influentes deste grupo – os média. A esquerda pode criticar Humala por algumas das promessas que ele fez (por exemplo, não haverá nacionalizações) de maneira a conseguir o apoio de alguns actores políticos. Mas é evidente que ele não era o candidato dos ricos e poderosos. Esta é uma coisa grande, e quase sem precedentes na democracia na América do Sul, que aconteceu repetidamente nos anos recentes – aqueles que têm controlo da maioria dos rendimentos, património e meios de comunicação de um país, podem ser derrotados numa eleição. Ainda estamos longe de obter um resultado como este nas nossas próprias presidenciais aqui nos EUA.

É ainda interessante que a elite tradicional do Peru tenha sido derrotada – tanto na primeira como na segunda volta – apesar do crescimento económico durante a última década. O crescimento foi, em média, 5,7% do PIB em cada ano desde 2000, o maior da região. Dando mérito a quem o merece, estes governos (o de Alejandro Toledo e o de Alan García) acertaram nas mais importantes medidas macroeconómicas – fiscais, monetária e taxas de câmbio – o que não tem sido a normal na era neoliberal. Também responderam à crise mundial com políticas contra-cíclicas minimizando os danos económicos. Como seria de esperar da taxa de crescimento, houve melhorias nas vidas das pessoas, incluindo nas dos mais pobres: a taxa oficial de pobreza desceu de 55% em 2001 para 35% em 2009. A esperança média de vida subiu de 70,5 para 73,5 e a mortalidade infantil diminuiu de 35,1 para 19,4 por milhar (entre 2000 e 2009).

Mas, em 2009, o Peru ainda tinha cerca de 62% da sua população a viver com menos de 3 dólares por dia, e esta percentagem é a mesma hoje em dia – o Peru é um país maioritariamente pobre com vastas disparidades regionais, urbanas-rurais, étnicas e de distribuição de rendimento – a taxa de pobreza é 60% no mundo rural em contraste com os 21% no mundo urbano – compreensivelmente, muitas pessoas sentem-se enganadas. Mais importante ainda, os governos de García e Toledo não concretizaram as grandes iniciativas que os governos de esquerda da região fizeram. A Bolívia baixou a idade de reforma de 65 para 58 anos e expandiu o sistema público de pensões, nacionalizou a indústria dos hidrocarbonetos e aumentou o gasto social. O Equador expandiu o gasto social, especialmente na saúde. A Venezuela forneceu serviços de saúde gratuitos e triplicou o gasto social per capita, expandido a educação, incluindo universidades grátis. O Brasil aumentou o salário mínimo em termos reais em 60% (nos oito anos de Lula) e alguns aumentos modestos no gasto para o combate à pobreza. Os dois últimos governos do Peru não tiveram iniciativas destas.

A lição é clara: aqueles partidos políticos e governos que querem ter a certeza de que são eleitos, têm de prometer e concretizar mudanças económicas e sociais reais. Os governos de esquerda da América do Sul do passado ajudaram a tornar tudo isto parte do processo democráticos, o que provavelmente vai influenciar a região de várias formas nos próximos anos.

Mark Weisbrot é economista e co-director do Centro de Investigação de Economia e Políticas. É o co-autor, com Dean Baker, de “Social Security: the Phony Crisis.”

Publicado no Counterpunch

Tradução de Sofia Gomes para o Esquerda.net

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