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‘Vamos corrigir a política económica’, afirma Ollanta Humala

Em entrevista ao diário argentino Página/12, o presidente eleito diz que a pobreza no Peru deve-se a uma má distribuição da riqueza, afirma que vai cobrar o novo imposto sobre os lucros minerais, e promete creches gratuitas para crianças menores de 3 anos e uma pensão para os maiores de 65 anos que não têm esse tipo de ajuda. Entrevista de Carlos Noriega.
O meu governo será para o povo, diz Humala. Foto da Agência Brasil, wikimedia commons

O presidente eleito do Peru, Ollanta Humala conversou com o jornal Página/12 no hotel Los Delfines, onde recebeu a notícia da sua vitória no domingo e de onde despacha desde então. Percebe-se que está cansado, as poucas horas de sono dos últimos dias reflectem-se no seu rosto. Na terça-feira, teve outro dia agitado. Reuniu-se com os parlamentares do seu partido, com os seus principais colaboradores, recebeu as visitas dos ex-candidatos presidenciais Pedro Pablo Kuczynski e Luis Castañeda, derrotados no primeiro turno e que no segundo apoiaram a Keiko Fujimori, e continuou atendendo telefonemas do exterior, entre eles a da secretária de Estado norte-americano, Hillary Clinton.

Humala iniciará em seguida uma viagem pela região, que começará no Brasil e depois o levará à Argentina, Uruguai, Chile e Bolívia, e numa segunda etapa ao Equador, Colômbia e Venezuela. Na entrevista fala da reacção dos mercados à sua eleição, o que será sua política económica, a sua relação com a imprensa, a possibilidade de transferir o ex-ditador Alberto Fujimori para um cárcere comum, o Mercosul, a agenda da sua visita à Argentina. “Nesta Copa América vamos ganhar da Argentina. Temos uma selecção muito boa, mas temos de avaliar o dano emocional que poderíamos causar”, brinca Humala. Acomoda-se na cadeira, respira fundo como para expulsar o cansaço e prepara-se para responder às perguntas.

Na segunda-feira, a Bolsa de Valores teve uma significativa queda, que se atribuiu à sua eleição. Como vê esta reacção dos mercados à sua vitória?

O que vi foi um buraco na Bolsa de Valores. A economia peruana é sólida, tem um crescimento sustentado nos últimos oito anos. Essa é a realidade. Por esta razão, o buraco na Bolsa não é um problema estrutural. As agências de riscos, os bancos internacionais, bancos de investimentos como JP Morgan, disseram que é preciso continuar a investir no Peru, que as eleições já passaram e a economia vai bem.

Desde a sua eleição, no domingo, houve pressões dos sectores empresariais e da direita para que indique o mais rápido possível o seu chefe de Gabinete e seu ministro de Economia e enviaram-lhe a mensagem de que essas nomeações devem tranquilizar os investidores. Como toma essas pressões?

As declarações do presidente da Confiep (Confederação Nacional de Instituições Empresariais Privadas, que reúne as principais empresas do país) e de outras personalidades pedindo nomes para o gabinete, eu as respeito, mas creio que não é o momento oportuno para dar os nomes do gabinete. Como vou apresentar o gabinete se até agora o Jurado Nacional de Eleições não nos entregou as credenciais de Presidente da República? Vencemos as eleições de domingo, mas a contagem da ONPE (Oficina Nacional de Processos Eleitorais) ainda não foi fechada. Tudo tem o seu momento e o gabinete será apresentado no seu devido momento.

Como vê o comportamento das empresas privadas?

Há empresas que na questão do trabalho têm um comportamento bastante adequado, mas há outras que não e os seus trabalhadores denunciaram maus tratos laborais. Essas denúncias de maus tratos laborais serão vistas pelo Ministério do Trabalho para que todas as empresas, peruanas e estrangeiras, respeitem os direitos dos trabalhadores.

O seu governo mudará o modelo económico neoliberal ou continuará com o mesmo modelo, mas dando maior atenção à redistribuição?

A pobreza no Peru deve-se a uma má distribuição da riqueza e a riqueza está sendo distribuída segundo uma determinada política económica. Temos que corrigir a política económica. Não estamos a falar de mudar o modelo capitalista, o modelo de uma economia aberta de mercado. Nós defendemos essa economia de mercado. O que estamos a dizer é que a política económica actual tem uma série de imperfeições que não permite que o crescimento sustentado de oito anos se traduza em desenvolvimento e uma melhoria da qualidade de vida. Isso é o que temos de corrigir.

Como vão fazer isso? Quais são as correcções à política económica que o seu governo vai implementar?

As políticas sociais são fundamentais. Vamos criar o programa Cuna Más (creches gratuitas para crianças menores de três anos) nos 600 distritos mais pobres do país; implementar gradualmente o programa Pensión 65 (pensão de cerca de 90 dólares para os maiores de 65 anos que não têm esse tipo de ajuda); construiremos através de organizações público-privadas um hospital em cada província do país. Na questão tributária, vamos cobrar o imposto sobre os lucros minerais.

Há muita expectativa nos sectores pobres pela sua eleição. Está preocupado com o facto de haver um desborde de demandas sociais que complique o seu governo?

Vamos nos dedicar fortemente a solucionar os conflitos sociais em base à cultura do diálogo. Essa é a melhor maneira de resolver a alta conflitualidade social que agora existe. Dessa maneira, vamos permitir que os investimentos que se fizerem no Peru sejam no menor custo e com tranquilidade para todos.

O seu governo será de esquerda?

O meu governo será para o povo.

Vai renegociar o contrato com o consórcio Camisea, que explora e exporta o gás peruano e que pertence à petrolífera argentina Plus Petrol?

Sim. O que vamos fazer é procurar que se cumpra o contrato original. Esse contrato original diz claramente que a prioridade do gás do Lote 88 da Camisea é o mercado interno e não a exportação. Por interesses particulares, isso foi modificado para exportar esse gás, e há também a questão da satisfação da procura interna. Isso é um problema, porque actualmente a bilha de gás custa 11 dólares, sendo o Peru um país produtor de gás.

Nesta campanha, você foi duramente atacado pelos média e os dirigentes do seu partido foram muito críticos com o comportamento da imprensa durante a campanha. Como será sua relação com a imprensa?

É preciso defender e promover a liberdade de expressão como um princípio inalienável. O que aconteceu nesta campanha é que obviamente eu não fui o candidato dos meios de comunicação, mas é importante entender que, de acordo com o que nos ensinou o povo peruano, os meios de comunicação não necessariamente fazem o presidente.

Esta semana inicia uma viagem pela região que inclui a Argentina. Qual será a agenda de seu diálogo com a presidenta Cristina Kirchner?

Há muitos temas para avançar com a Argentina. Somos dois povos irmãos. Analisaremos com a presidenta o avanço das relações entre o Peru e a Argentina nos âmbitos comercial, económico, político, de migrações. Conversaremos sobre o que fazer para melhorar estas relações.

Qual será a relação de seu governo com o Mercosul?

Olhamos com interesse o Mercosul. Sabemos que os Tratados de Livre Comércio não facilitam que o Peru tenha maior participação no Mercosul. Interessa-nos consolidar a Comunidade Andina de Nações e participar da Unasul. A minha prioridade é a Unasul.

Alberto Fujimori deve ir para uma prisão comum?

Esse não é um tema de agenda para nós. Para nós, o importante é entender que esse não é um tema que une os peruanos e actualmente necessitamos unir os peruanos, gerar confiança nos mercados e nas famílias e, portanto, não é nossa prioridade estar a tocar nesse tipo de questões.

8-06-2011

Tradução do Cepat.

Publicado no site do Instituto Humanitas Unisinos

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