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Da fé e Outros demónios

A infelicidade das alegorias de Cavaco Silva já há muito que deixou de surpreender...

A infelicidade das alegorias de Cavaco Silva já há muito que deixou de surpreender, e se calhar por isso é que ninguém prestou grande atenção quando, há dois dias, a propósito da intervenção externa e do memorando de entendimento com a troika, o Presidente da República citou um médico do século XVI. Disse que esperava que os portugueses quisessem ser curados.

Aparentemente, Cavaco andou a ler as Centúrias, de Amato Lusitano, e achou que «o caso do doente que não obedeceu às prescrições do médico» era uma boa linha política para deixar ao país.

«Amato nunca mais regressou à casa daquele paciente incumpridor porque, escreveu ele, 'aos que não aceitam as ordens dos médicos, não se deve dar conselho médico'». Assim encerrou Cavaco o seu discurso, no tom bolorento de quem acabava de contar daquelas histórias que dantes serviam para deixar as crianças aterrorizadas com o que lhes aconteceria se não comessem a sopa toda.

Mas o pior é que, tirando o mau gosto do paternalismo bafiento e da estética barroca da referência, até se trata de um bom exemplo.

Vejamos: a relação médico-paciente é, no extremo, da ordem da crença. Eu solicito a um Outro conhecimento de que não disponho. Não detenho o conhecimento do estado do meu organismo, do que se passa com ele, ou do que devo fazer para que retome o estado desejável. Neste ponto, não posso senão acreditar que o médico dispõe desse conhecimento. Esta adesão corresponde não a um progresso do meu conhecimento – porque o médico não me ensinou nada nem percorri um caminho lógico ou empírico que me conduzisse a um estado de conhecimento mais avançado – mas a um salto qualitativo, uma descontinuidade. Acreditar no conhecimento de um Outro – e isso bastar para responder à limitação do conhecimento sentida – é, enquanto acto cognitivo, um salto de fé.

Isto é, simultaneamente, uma leitura para o que se passou dia 5 e um exemplo do que não deve ser a democracia.

Actualmente, PSD e a direita pró-troika são os protagonistas de uma política de exaltação do Outro que faz geneticamente parte da agenda liberal. A «Outrificação» da política acontece desde um BCE estatutariamente isolado de controlo político-democrático, passando pelo constitucionalismo não sufragado encapotado no PEC, até às figuras que suspiram por suspensões temporárias da democracia para se poder pôr as coisas em ordem (e que depois até são condecoradas no 10 de Junho), culminando, finalmente, em memorandos de entendimento. A ideia é que é preciso garantir que os cidadãos ignorantes não condicionam (eleitoralmente) o médico (técnico), que sabe que ao início o remédio (mais mercado) pode custar a tomar mas no final lhes trará mais saúde e felicidade. Emancipar o mercado das grilhetas democráticas requer esta política de Outrificação – tornar a decisão num Outro, relativamente às pessoas. Ora, como no caso do médico e do doente, a base cognitiva de legitimação disto só pode ser da ordem da fé; e não há nada de mais anti-político e, especificamente, mais anti-democrático.

Passos Coelho e a direita venceram as eleições não por cumprirem o requisito filosófico básico de contrato social democrático – representar, estar no lugar das ideias das pessoas –, mas na qualidade de Amatos Lusitanos, a quem elas devem a sua confiança (crença). O que governa não é o conhecimento colectivamente construído, mas um (eventual) conhecimento superior – o do técnico – que elas têm de ter fé que existe.

Para esta política de apelo à fé na «Outrificação» da decisão sobre o futuro, o jargão marxista – coisa mui irresponsável e obsoleta nos dias que correm (mas, já agora, não tão irresponsável e obsoleta como Amato Lusitano e as Centúrias) – tem um termo: alienação. E a sua superação é o princípio mais elementar da dignidade humana.

Sobre o/a autor(a)

Investigadora em políticas públicas
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