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Bloco elege primeiros deputados nos Açores

Nas eleições regionais dos Açores de 18 de Outubro, o Bloco de Esquerda triplicou o número de votos, passando para 3,3%, e pela primeira vez obteve representação na Assembleia Regional dos Açores, com dois deputados eleitos. O PS venceu novamente as eleições com maioria absoluta, num ano que também fica marcado pela polémica em torno dos vetos de Cavaco Silva ao Estatuto dos Açores.  

Nas eleições legislativas regionais dos Açores, o Bloco de Esquerda chega, pela primeira vez, ao parlamento regional, tendo eleito dois deputados, Zuraida Soares e José Cascalho. Desta forma o Bloco passa a ter representação em todos os parlamentos do país: parlamento nacional, parlamento da Madeira e agora também na Assembleia Legislativa Regional dos Açores.

A campanha eleitoral teve momentos interessantes, como aquele em que Carlos César, líder regional dos Açores e novamente candidato pelo PS, atacou Francisco Louçã. "Agora é o esquerdista da linha de Cascais, (...) dr. Louçã, que (...) que me acusa de fazer estradas para fazer favores a quem faz obras". A resposta do Bloco/Açores não se fez esperar: "Os impropérios usam-se para impedir o debate político. Onde estão o projecto da estrada da Fajã do Calhau, o concurso, o orçamento, os responsáveis e o estudo de impacte ambiental?"

Perante os resultados das eleições, que mostram que o Bloco foi o único partido que subiu em número de votos, em percentagem, e em mandatos, Luís Fazenda foi peremptório: "Esta é uma vitória do alargamento do Bloco e da sua intransigência no combate às políticas de privatização do governo regional".

Os dois deputados do Bloco de Esquerda foram eleitos no círculo regional de compensação, criado para permitir maior justiça na distribuição de mandatos. Desta forma, os votos que não chegam para eleger deputados nas respectivas ilhas passam a contar para este círculo, que totaliza cinco mandatos: dois foram para o Bloco de Esquerda, um para o PCP, outro para o PP e ainda outro para o PSD.

Apesar de descer em número de votos, mandatos e percentagem, o PS voltou a conquistar a maioria absoluta na região. De registar também a eleição de cinco deputados do PP (já há algum tempo que não concorria sozinho), a reentrada da CDU no parlamento regional (apesar de ter baixado a votação) e a entrada de um deputado do PPM pelo círculo do Corvo. O Esquerda.net analisou de forma comparativa e em gráficos os resultados destas e de anteriores eleições nos Açores.

Depois de conhecer os resultados, o Bloco/Açores declarou em comunicado de imprensa: "Tudo faremos, na Aseembleia Regional e fora dela, para honrar este voto de confiança, na luta pelos direitos das mulheres, contra as desigualdades sociais, na defesa dos serviços públicos de qualidade, por uma escola inclusiva para professores e alunos, pela transparência na utilização dos dinheiros públicos e por uma nova ambição para o desenvolvimento dos Açores".

Os deputados do Bloco eleitos são Zuraida Soares, de 56 anos, professora, da Ilha de S. Miguel e José Cascalho, de 41 anos, professor universitário, da ilha Terceira

Estatuto dos Açores

O ano de 2008 também fica marcado pela polémica em torno do novo Estatuto Político-Administrativo dos Açores. O diploma, que aprofunda em alguns aspectos a autonomia desta região, foi aprovado por unanimidade na Assembleia da República no mês de Junho, tendo o Presidente da República pedido ao Tribunal Constitucional a sua fiscalização a 4 de Julho.

Nesse pedido o PR levantou dúvidas sobre 13 questões, tendo o TC considerado que 8 delas têm inconstitucionalidades. O TC considerou, nomeadamente, que os artigos do estatuto sobre a declaração do estado de sítio e de emergência, que obrigam o Presidente a ouvir o governo e a assembleia regional, eram inconstitucionais.

Mas o que surpreendeu tudo e todos foi a declaração de Cavaco Silva na noite de 31 de Julho, anunciada com pompa e circunstância como um anúncio essencial para o país. Na altura, comentadores, políticos e jornalistas, especularam sobre o "tabu" que Cavaco manteve durante um dia inteiro. O Presidente ia falar mas não revelava o assunto da sua comunicação.

O mistério foi desvendado em directo para as três televisões. Cavaco Silva comunicou ao país as suas reservas em relação ao Estatuto dos Açores, que, em seu entender, retirava poderes ao Presidente da República, por este ser obrigado a ouvir o Governo regional em caso de dissolução da Assembleia Regional dos Açores. Muitos questionaram a pertinência do tema escolhido para a comunicação do Presidente, dados os graves problemas que o país enfrentava e enfrenta.

A Assembleia da República acabaria por aprovar pela segunda vez o Estatuto dos Açores, corrigindo apenas as normas declaradas inconstitucionais pelo Tribunal Constitucional. Mesmo assim, Cavaco Silva voltou a vetar o diploma no final do mês de Outubro, alimentando a querela com o Parlamento Nacional.

Em Dezembro, a Assembleia da República votou favoravelmente pela terceira vez o diploma, desta vez sem alterações em relação à votação anterior. O Bloco de Esquerda votou sempre a favor, porque a nova lei "reforça a autonomia e competência dos orgãos regionais". Entretanto, aguarda-se ainda a promulgação final do diploma pelo Presidente da República.

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Resto dossier

Portugal em 2008

Em Portugal, o ano de 2008 fica marcado pelas gigantescas mobilizações de professores contra a política educativa do governo. A crise financeira internacional também fez as suas vítimas por cá, tendo o governo preferido salvar os bancos, em vez de defender os mais fracos. Exemplo disso é o novo código do trabalho, aprovado só com os votos do PS, e o aumento da pobreza, do desemprego e da precariedade

Prémio "Precariedade 2008" para José Sócrates

O agravamento da precariedade em 2008, faz com que existam hoje 900 mil trabalhadores, aproximadamente 1/5 da população activa em Portugal, em situação precária. O Governo PS rejeitou a criminalização dos falsos recibos verdes, assim como a integração dos milhares de precários do Estado, e centrou a sua acção em falsos anúncios de "criação" de emprego. 

Populações e profissionais de saúde defendem SNS

Mudou o ministro da saúde mas a políticas mantiveram-se. O fecho das urgências nocturnas e a continuação da degradação do serviço nacional de saúde, levou as populações a saírem à rua de norte a sul do país. O descontentamento dos enfermeiros também ganhou expressão, na maior manifestação de sempre da classe, de que há memória. 

Skinheads condenados por discriminação racial

O dia 3 de Outubro de 2008 fica na história portuguesa pela primeira condenação efectiva por discriminação racial. Dos 36 skinheads acusados de crimes de sequestros, ofensas corporais, posse ilegal de armas, distribuição de propaganda nazi e discriminação racial, 23 foram condenados à prisão, embora a mior parte tenha ficado com pena suspensa. Mário Machado, o líder do movimento Hammerskins Portugal apanhou 4 anos e 10 meses de prisão efectiva. 

PS chumbou casamentos homossexuais

Duas propostas de legalização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, subscritas pelo Bloco e Os Verdes foram chumbadas com votos da maioria dos deputados do PS. Os socialistas recuaram em relação ao compromisso de apresentar a proposta no programa eleitoral de 2009 e impuseram uma contestada disciplina de voto sobre esta matéria.

Universidades na penúria

Se 2007 trouxe à praça pública os escândalos, fraudes e negociatas que envolvem o ensino superior privado português, já o ano de 2008 trouxe à tona as enormes dificuldades financeiras que enfrentam as universidades públicas, face à redução contínua das transferências do Orçamento de Estado. Por outro lado, já quase não existem universidades sem propina máxima, e torna-se cada vez mais insustentável a precariedade a que estão sujeitos muitos dos professores deste sector. 

Primeira condenação por violência nas praxes

Em 2008, pela primeira vez um tribunal português condenou praticas violentas ocorridas durante cerimónias de praxes académicas em Santarém. Inédita é também a decisão do Tribunal da Relação do Porto de condenar o Instituto Piaget a pagar cerca de 40 mil euros a uma aluna vítima de praxe em 2002. O Parlamento reconheceu pela primeira vez a importância de se discutir este assunto e aprovou por unanimidade, na Comissão Parlamentar de Educação, um relatório com medidas de combate à violência nas praxes.   

Aprovado divórcio sem culpa

A nova lei do divórcio foi um dos temas do ano que agitou as relações entre o Presidente da República e o PS. Cavaco Silva vetou a nova lei depois de aprovada no Parlamento, numa posição que lhe mereceu críticas de toda a esquerda parlamentar que o acusou de conservadorismo. Em Setembro o diploma teve novamente luz verde. 

Esquerdas convergem contra o neoliberalismo

2008 foi ao ano em que várias personalidades e sectores da esquerda portuguesa se aproximaram para procurar alternativas à governação neoliberal e ao pensamento único. A convergência começou por se fazer sentir no comício festa do Teatro da Trindade, em Junho, e continuou no Fórum Sobre Serviços Públicos e Democracia, em Dezembro. No parlamento, Manuel Alegre e outros deputados socialistas votaram ao lado do Bloco de Esquerda e do PCP em matérias tão fundamentais como o código do trabalho.

Novo código do trabalho aprovado só com os votos do PS

Fazendo tábua rasa das suas propostas enquanto oposição, o Partido Socialista aprovou o novo código do trabalho, merecendo rasgados elogios dos patrões e da direita. O fim do pagamento de horas extraordinárias, a legalização da precariedade e o ataque s convenções colectivas são algumas das novas regras que fazem de 2008 o ano em que a balança voltou a pender para o lado dos mais fortes. Só que nem tudo foram rosas para PS e Patrões, dado que o Tribunal Constitucional chumbou uma das normas do código, que assim voltará ao parlamento em 2009.

Camionistas paralisaram o país

2008 fica marcado por protestos em todo o Mundo contra o aumento do preço dos combustíveis. Em Portugal, os pescadores foram os primeiros a reagir, paralisando por alguns dias a frota pesqueira. Mas a mobilização com maior impacto foi sem dúvida a dos camionistas. Contra a vontade da grande empresa representativa do sector, milhares de camionistas revoltaram-se e montaram um bloqueio de vários dias no mês de Junho, que fez secar bombas de gasolina e obrigar o governo a negociar o que antes recusara. 

Alta tensão: Governo recusou alterar lei

Foi graças às acções de vários grupos cívicos que em muitas localidades do país contestaram a instalação de linhas de alta tensão na proximidade de casas e povoações, que em 2008 esta luta ganhou contornos nacionais, com o primeiro encontro nacional de movimentos a ter lugar em Junho. O governo foi forçado a recuar em alguns projectos mas o essencial, a alteração da lei, continua por concretizar. 

Congresso Karl Marx com 150 comunicações

A actualidade do pensamento marxista na presente conjuntura de crise do capitalismo global foi um dos temas que dominou o Congresso Internacional Karl Marx, realizado entre 14 e 16 de Novembro, e promovido pelo Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, pela Cooperativa Culturas do Trabalho e Socialismo (Cutra) e pela Transform Europe (rede internacional de associações culturais). 

As fraudes financeiras e os favores à banca

Começando pelo BCP e terminando no BPN e no BPP, 2008 foi o ano em que a máscara dos banqueiros caiu. Foram milhões de euros de prejuízos camuflados na razão inversa dos prémios e regalias para os grandes responsáveis. As fraudes detectadas mostraram a promiscuidade entre o poder político e o económico. Com a agudização da crise financeira, o governo veio em socorro da banca com milhões, algo que nunca tinha ousado fazer com os trabalhadores ou os mais desfavorecidos. 

Linha do Tua: os acidentes e a barragem

No dia 22 de Agosto de 2008 um novo acidente na Linha do Tua causou mais uma morte. Foi o quarto acidente em cerca de ano e meio, levantando dúvidas e suspeitas sobre as condições de manutenção da linha. A previsível construção da barragem que vai deixar submersa pelo menos uma parte da Linha do Tua é contestada por cidadãos e movimentos, e apontada como uma das razões que pode estar na origem do "desleixo" com que governo e autoridades têm tratado este assunto. 

Contra a "Directiva da Vergonha"

A 18 de Junho, o Parlamento Europeu aprovou, por larga maioria, a "Directiva do Retorno", a lei comunitária que facilita a deportação de imigrantes ilegais, e que entrará em vigor em 2010. Em Portugal, como noutros países, as associações de imigrantes manifestaram-se contra o que chamaram "directiva da vergonha". Ainda em matéria de imigração de registar em 2008 os acontecimentos ocorridos no Bairro da Quinta da Fonte, em Loures, e toda a especulação que foi feita sobre a alegada natureza racista dos conflitos.

Bloco elege primeiros deputados nos Açores

Nas eleições regionais dos Açores de 18 de Outubro, o Bloco de Esquerda triplicou o número de votos, passando para 3,3%, e pela primeira vez obteve representação na Assembleia Regional dos Açores, com dois deputados eleitos. O PS venceu novamente as eleições com maioria absoluta, num ano que também fica marcado pela polémica em torno dos vetos de Cavaco Silva ao Estatuto dos Açores. 

As gigantescas mobilizações dos professores

2008 será sem sombra de dúvida lembrado pelos maiores protestos de sempre que uma classe profissional alguma vez protagonizou contra reformas impostas por um governo. Duas manifestações gigantescas e uma greve que ficou perto dos 100% de adesão, mostraram ao país que os professores não se rendem às políticas burocráticas e economicistas de José Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues. A contestação promete continuar com nova greve nacional a 19 de Janeiro de 2009. 

Número de mortes por violência doméstica duplicou

Foi um ano negro da violência doméstica em Portugal. Em 2008, 44 mulheres foram assassinadas por actuais ou antigos companheiros e maridos, mais do dobro que em todo o ano passado, em que se tinham registado 21 casos. A média deste ano, em termos de homicídio conjugal, permite concluir que, em cada semana, uma mulher é assassinada pelo seu marido ou companheiro. Portugal regista uma das piores estatísticas da União Europeia nesta matéria.