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Michel Husson: "Não acredito na derrocada do capitalismo"

Crise do capitalismo, abrandamento dos países emergentes, intensificação das divergências no seio da zona euro, novo «Bretton Woods»: Michel Husson, economista no Institut de recherches économiques et sociales, membro da Attac, analisa o grande sismo económico em curso.

Por Ludovic Lamant, publicado originalmente por Mediapart.fr

Considera, tal como o pensador americano Immanuel Wallerstein, que «o capitalismo se aproxima do seu fim»?

Eu adoptaria uma posição intermédia. Efectivamente, a grandeza da crise é tal que põe em causa a natureza do capitalismo. Contudo, sempre critiquei a ideia de uma derrocada do sistema capitalista. Não acredito num cenário de implosão.

O meu esquema de interpretação é o seguinte: os lucros aumentaram, mas os investimentos não os acompanharam. A satisfação de uma parte crescente das necessidades sociais não interessa mais ao capitalismo, porque implica uma baixa de rentabilidade. Prefere-se, por conseguinte, não a satisfazer. De repente, a finança representa o vazadouro destes lucros, que já não são investidos na esfera da economia real.

O modo de reconhecimento das necessidades sociais do capitalismo tornou-se excluidor, dito de outra forma, «selecciona» entre o que é rentável e o que não é. Daí a incapacidade do capitalismo hoje fazer aquilo que fez durante cerca de trinta gloriosos anos, e que lhe garantia legitimidade: a melhoria do poder de compra.

Quando eu era estudante, explicaram-me que o capitalismo garantia o pleno emprego, o aumento do poder de compra e a ampliação do Estado social. Estas pretensões, hoje, desapareceram completamente. São um verdadeiro elemento de crise sistémica. Daí a dizer automaticamente que isto conduz ao «fim do capitalismo», não creio. Isto força sim o capitalismo a procurar formas de reprodução socialmente cada vez mais regressivas.

A crise poderá ainda acelerar o incremento de poder dos três gigantes do Sul, o Brasil, a Índia e a China?

Efectivamente, está em vias de acontecer algo significativo: a inversão dos fluxos de capitais. É uma banalidade dizê-lo, mais ainda é difícil ter em conta todas as implicações dessa viragem. O facto de o crescimento mundial, ser de cerca de 0% no Norte, e de 6% nos mercados emergentes. Ainda hoje, em matéria de raciocínio económico, permanecemos demasiado concentrados na tríade Estados Unidos/Europa/Japão.

Que consequências tem a crise nos países emergentes?

Esta crise deveria avançar no sentido de um crescimento mais auto-centrado nos países emergentes. Podemos fazer um paralelo com o que se passou na América Latina depois da crise dos anos 30. Foi o período dito de «substituição das importações»: assistindo à diminuição das suas exportações correntes, os países recentraram-se em si próprios.

É possível que o mesmo aconteça actualmente. Quando vemos, devido às suas muito intensas trocas com os Estados Unidos, a que ponto o México vai sofrer com a crise...

Se este mecanismo de recentramento se intensificar, terá uma importante repercussão sob o modelo China/Estados Unidos: a China não poderá garantir mais, nas mesmas proporções, os capitais que financiam o défice dos Estados Unidos. Simplificando, neste momento, os Estados Unidos compram à China, e a China aplica os seus excedentes de forma a financiar o défice americano.

Se a China se «recentrar», esta configuração deixará de funcionar, em prejuízo do crescimento americano. Evidentemente, estes são ritmos longos. Mas é certo que é nessa direcção que vamos. Talvez a crise actual vá acelerar este processo.

O euro amorteceu a crise na Europa?

É um pouco contraditório. Sem o euro, haveria uma especulação das moedas, o que iria multiplicar por dez a actual bagunça. A Espanha, por exemplo, cujo crescimento dos últimos anos foi alicerçado pelo sector imobiliário, é atingida por um défice comercial equivalente a 6 ou 7% do seu PIB. Sem o euro, este país teria conhecido uma monstruosa especulação.

A contrapartida disto, é que, desde a explosão da bolha da Internet, que a zona euro encarou de maneira completamente branda a baixa do dólar. Deste ponto de vista, as consequências variam segundo os países. Mas, em certos casos, o facto de aceitarem sem nenhuma reacção as flutuações monetárias pode ter um efeito considerável sobre o crescimento.

Para os países do leste da Europa mais atingidos pela crise, o facto de não terem ainda adoptado o euro aparece hoje como uma oportunidade...

Estruturalmente, os países do leste da Europa têm tendência a ter inflação. Por razões de recuperação da sua economia, aumentam a produtividade, mas continuam a sofrer de inflação. Para estes países, o euro teria sido um espartilho que os teria bloqueado.

Para além disso, há um tema, que não é novo, mas que se está a tornar cada vez mais importante: as economias europeias, desde que aderiram ao euro, começaram a divergir, em vez de convergir. Ao encontro dos critérios de convergência de Maastricht. Falamos de novo, recentemente, da política económica alemã, que em grande medida volta a alimentar-se de parte dos marcados dos países emergentes, assim como dos seus vizinhos Europeus...

O tratado de Mastricht está morto, enterrado na avalanche de planos de relançamento nacionais na Europa?

De momento, estamos em contra-relógio. A questão é saber se os países europeus voltarão a estes critérios mais tarde. Constatamos a incapacidade de definir uma estratégia de relançamento coordenada no plano europeu, e mesmo a recusa de o fazer. Assistimos a um retorno aos Estados-nação. Os países europeus fazem, um a um, planos de relançamento. Mas há uma relutância em ir mais longe e em utilizar ferramentas europeias para o fazer.

É uma questão de pessoas?

Não. Creio que há um viés ideológico na maneira como construímos a Europa, que se traduz, por exemplo, na recusa de princípio de toda e qualquer política industrial coordenada. Seria muito útil no período que aí vem, que um orçamento europeu um pouco mais consequente fosse consagrado à implementação de programas de investimento público. E isso não colocaria em causa os fundamentos da economia capitalista...

Será que reinvestindo os lucros de forma mais massiva na economia, ficaremos precavidos contra a formação de uma nova bolha?

Mas o dinheiro que é distribuído actualmente aos bancos do sistema, é o dinheiro da próxima bolha! Actualmente, os dirigentes americanos e europeus fazem exactamente aquilo que acusaram Alan Greenspan [antigo presidente da Reserva federal americana, de 1987 a 2006] de ter feito, ou seja, de ter inundado o mercado de liquidez, de ter baixado as taxas de juros. Se não modificarmos verdadeiramente a estrutura que alimenta a bolha financeira, voltamos a mesmo circuito.

Apoia os apelos para a implementação de um «novo Bretton Woods»?

Eu estou de acordo com a ideia de que é necessário reorganizar a finança mundial. Contudo, a ideia de que isso se possa fazer nas condições actuais parece-me errónea. Desde logo porque sou mais que céptico em relação a todos estes discursos sobre a regulação. É preciso lembrar que os recentes planos de salvaguarda dos bancos foram feitos, na maior parte dos casos, sem que se pusesse a estes estabelecimentos qualquer condição para a obtenção dos fundos.

As medidas concretas para regular a finança, quer se trate da limitação da titularização, ou da interdição provisória dos mercados de produtos derivados, não foram impostas, a quente, em plena crise, agora que a ocasião era perfeita.

Segunda razão. Só podemos imaginar dois sistemas monetários possíveis: um sistema que repouse sobre uma moeda dominante (por exemplo, o dólar), ou um sistema que repouse numa moeda mundial (como o Bancor que Keynes tinha imaginado no momento de Bretton Woods). Ora, estas duas vias estão hoje fechadas. Porquê? Porque o grau de cooperação entre os países, que tentam, durante esta crise, livrar-se a tempo de um negócio arriscado, transferindo para os outros os efeitos da crise, é nulo. Ou, em todo o caso, insuficiente para imaginar a implementação de uma moeda mundial, com regras precisas. Simultaneamente, não podemos mais reconduzir o dólar na sua função de moeda padrão.

A última grande consulta do género data de 1985, com os acordos de Plaza, em Nova York. Na época, os Estados Unidos impuseram, pela força, a desvalorização da sua moeda ao resto do mundo, com o objectivo de apoiar as suas exportações. Ora, esta relação de forças já não existe mais. Digamos que estamos numa situação que não tem condições suficientes para que possamos deduzir que tipo de acordo monetário internacional se poderá impor.

O que é impressionante é que as pessoas em torno de Dominique Strauss-Kahn, que põem em marcha o novo papel do Fundo Monetário Internacional, não têm nenhuma outra proposta que não seja esta. Não se entende o que propõem concretamente.

Tradução de Luísa Moreira

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