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“Na terra dos Ricos”…

O mundo que conhecíamos entrou em Crise. Qual a origem, afinal, da crise que ameaça levar à falência as maiores, mais ricas, e mais estáveis economias do mundo?

Texto de Mariana Mortágua para o Esquerda.net

Imaginemos uma economia onde as taxas de juro são muito baixas e onde todos os bancos dão acesso facilitado ao crédito, mesmo àqueles que não tem condições de o pagar.

Imaginemos agora uma população que aspira níveis mais altos de consumo e de vida, apesar de não possuir as condições reais para o fazer, a quem é dada a oportunidade de se endividar mais do que as suas possibilidades o permitem, a um preço relativamente baixo.

Coloquemos também a hipótese de que os bancos conseguem criar produtos financeiros baseados nestes títulos de dívida. Deste modo, vendendo os créditos das famílias (e não só) a outras instituições financeiras pelo mundo fora, torna-se possível para os bancos verem-se livres do risco de incumprimento das suas hipotecas e empréstimos (que saem dos balanços), e obter fundos para novos investimentos e empréstimos.

Onde é que vão parar estes títulos de dívida em risco de incumprimento? Bom, na verdade ninguém sabe muito bem uma vez que estes activos são diluídos em diversos outros produtos financeiros, que serão vendidos e revendidos, contaminando todo o sistema financeiro mundial.

        No total, existem 6 mil milhões de dólares em CDS em valor líquido emitidos sobre títulos de dívida pública portuguesa;

        Existiam, a 31 de Outubro, 33,6 biliões (33.600 mil milhões) de dólares em CDS em valor líquido - 91% nas mãos de entidades profissionais nos mercados de derivados;

    (dados: DDTC, divulgados pelo Expresso online)

Todo este sistema é baseado na expectativa de que as famílias conseguirão fazer face ao serviço de dívida, mas o que é que acontece quando esta ilusão desaparece e não só as famílias mas todo o mercado se apercebem que não existe capacidade para pagar as dívidas? É este o ponto onde o sistema colapsa perante a descoberta de que grande parte dos activos transaccionados não têm, afinal, qualquer valor.

Mas esta não foi a única causa da crise financeira. Aquilo que provocou a derrocada do sistema financeiro foi, na verdade, o próprio sistema em si.

A constante necessidade dos bancos e outras instituições em gerar lucros astronómicos levou a que fossem criados inúmeros instrumentos financeiros de grande complexidade e, como tal, altamente imprevisíveis e difíceis de analisar.

A maior parte destes produtos não assenta, no entanto, em qualquer transacção real baseando-se, normalmente em actividades de pura especulação. Investidores em todo o mundo "apostam" no preço futuro de um determinado activo, pretendendo assim comprá-lo a um valor mais baixo que o valor de mercado ou, ao contrário, vendê-lo a um preço mais elevado.

Estes activos, sujeitos a aposta nos mercados financeiros, são denominados de "activos subjacentes" e podem tomar várias formas. Para além do preço de uma commodity (como o petróleo, o ouro, o trigo etc.), os agentes financeiros podem ainda apostar nos preços de acções, taxas de juro, taxas de câmbio, derivados de crédito (empréstimos, hipotecas) e mesmo índices de condições meteorológicas, de preços do consumidor ou resultados desportivos.

A elevada "opacidade" e complexidade destes produtos levaram assim a que milhares de milhões de euros fossem investidos em produtos financeiros cujo risco ninguém dominava, originando lucros correspondentes que, na realidade, não tinham qualquer impacto na economia real, servindo apenas para desestabilizar o sistema financeiro e os preços.

A isto temos de adicionar ainda o facto de muitos destes investimentos terem sido realizados com base não só nos nossos depósitos, mas também e principalmente em elevados níveis de securitização, ou seja, da venda (ou cobertura) de títulos de crédito.

Quando o mercado do crédito e das securities começou a ruir por falta de confiança, os bancos encontraram-se numa situação em que nenhum dos activos que possuíam era passível de ser vendido ou sequer financiado, uma vez que não tinham qualquer contrapartida real a não ser a confiança no seu valor.

O pressuposto de que o financiamento para este tipo de manipulações financeiras seria inesgotável acabou por conduzir o próprio sistema para uma armadilha, dando origem a avultadas perdas que terão graves consequências na economia real, para a qual tão pouco contribuiu nas últimas décadas.

Quando adicionamos a esta equação a ambição de gestores apenas preocupados com as suas remunerações e prémios variáveis, baseados nos lucros de curto prazo, seja a que custo for, os resultados são desastrosos. Os comportamentos de gestão danosa, a incapacidade para correcta e prudente avaliação dos riscos associados a cada manobra financeira, bem como os milhões desviados em offshores foram responsáveis por avultadas perdas, não só para os bancos e instituições financeiras como para a sociedade num todo.

        A indústria mundial dos "hedge funds" perdeu activos no valor de 100 mil milhões de dólares (79,76 mil milhões de euros) no mês de Outubro;

        O Banco de Inglaterra estimou em 2,8 biliões (milhões de milhões) de dólares as perdas dos bancos, seguradoras e fundos de investimento devido à crise mundial - 5% do PIB mundial;

É importante recordar que, quando falamos em impactos e perdas, estes se farão sentir à escala global, devido ao crescente processo de interdependência entre as economias mundiais a que temos assistido depois da II Guerra Mundial. A queda das barreiras ao comércio internacional, bem como à circulação de capitais, levou a que estas transacções financeiras de que falávamos acima se dessem, não dentro de uma única economia, mas entre agentes de todo o mundo.

O modus operandi do sistema financeiro, e a consequente crise por ele provocada, não passará de forma imperceptível pela sociedade. São diversos os prejuízos a contabilizar: A instabilidade de preços, principalmente nos produtos ligados ao sector alimentar, provocada pela especulação financeira; O decréscimo da procura (particularmente grave para países dependentes de exportações); o aumento do endividamento das famílias (fenómeno alarmante nas economias "desenvolvidas"); a perda de confiança no sector bancário onde depositamos as nossas poupanças e o consequente aumento dos preços do crédito.

Nas contas dos prejuízos sociais devemos ainda somar os milhares que circulam em paraísos fiscais (offshores) e que nada contribuem para a economia uma vez que, ao contrário dos rendimentos provenientes do trabalho, não pagam impostos.

Mariana Mortágua

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
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