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As rivalidades da primavera árabe

A Turquia e o Qatar começaram a demonstrar uma apaixonada irritação contra o regime sírio de Bashar al Assad. Artigo publicado na Página/12 e Carta Maior.

A primavera árabe esconde os seus segredos. A Turquia e o Qatar começaram a demonstrar uma apaixonada irritação contra o regime sírio de Bashar al Assad. Os turcos, inclusive, estão a planear uma espécie de “lugar seguro” dentro do território sírio para evitar que uma maré de refugiados invada a fronteira turca. Enquanto isso, os árabes do Golfo suspeitam que a Argélia está a fornecer armas à Líbia.

A Turquia acredita que Assad desonrou duas vezes a sua promessa de retirar os seus capangas armados das ruas sírias. A cobertura da rebelião neste país pela cadeia de notícias Al Jazeera, do Qatar, enfureceu tanto os sírios que eles acabaram por bloquear projectos do Qatar nos seus territórios, equivalentes a investimentos superiores a 4 bilhões de dólares.

As forças armadas do Qatar auxiliam os rebeldes líbios na cidade portuária de Misrata, no oeste do país. Os seus oficiais estão a treinar rebeldes líbios que combatem na guerra de guerrilhas, no perímetro do confronto principal. Embora não tenha havido nenhum comunicado oficial acerca da vinculação do Qatar no conflito líbio, os emirados do Golfo mantêm seis aviões bombardeios estacionados em Creta e outros tantos sobrevoam de maneira permanente o país de Muammar Kadafi.

O medo de que a Argélia esteja a fornecer tanques e pessoal militar armado ao regime de Kadafi através da fronteira desértica de 1.200 quilómetros que ambos países compartilham é a verdadeira razão que impulsionou a visita do emir do Qatar ao presidente argelino, Abdelaziz Bouteflika, que conta com um exército melhor equipado que o do líder líbio.

Os líderes dos países do Golfo acreditam que as armas que os argelinos enviaram ao regime líbio são a causa do lento progresso da missão aérea da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) contra Kadafi.

Mais sérios, talvez, sejam os planos que a Turquia começou a delinear em torno da construção de uma “zona de protecção” dentro da Síria, para utilizar em caso de a rebelião neste país converter-se em uma guerra civil.

Os turcos recordam com terror as semanas durante as quais centenas de milhares de turcos iraquianos fugiram desesperados para as fronteiras da Turquia. Naquela época, Sadam Hussein tinha lançado as suas forças contra eles, após a libertação do Kuwait em 1991. Milhares de curdos morreram nas montanhas congeladas e só a “zona liberada” propiciada pelos Estados Unidos dentro do Iraque permitiu a Turquia devolver os refugiados a seu país.

Assim como ocorre no norte iraquiano, a maioria dos habitantes do norte sírio são curdos. Muitos deles acreditam que Assad não tem nenhuma intenção de manter a sua promessa de garantir-lhes a cidadania. Além disso, as forças turcas nas montanhas do sudeste continuam a travar a sua própria guerra de guerrilha com os curdos e não querem que eles cruzem as fronteiras.

Aparentemente, Assad prometeu à Turquia que falaria publicamente para convencer as suas forças a abandonar a luta nas ruas. Ele não cumpriu a promessa, o que enfureceu o ministro de Relações Exteriores turco.

(*) Do The Independent, da Grã-Bretanha. Especial para o Página/12.

Tradução de Katarina Peixoto.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista inglês, correspondente do jornal “The Independent” no Médio Oriente. Vive em Beirute, há mais de 30 anos
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