You are here

Como o BCE se converteu no depósito de todo o lixo bancário europeu

O Banco Central Europeu encontra-se a viver a sua própria grande crise e a possível reestruturação da dívida grega põe-no à beira do colapso. Por Marco Antonio Moreno
O guardião da moeda única comprou em segredo milhares de milhões de euros de activos de risco - Foto de Jean-Claude Trichet, presidente do BCE

O guardião da moeda única comprou em segredo milhares de milhões de euros de activos de risco como ajuda colateral para escorar os bancos privados dos países que lutaram para manter à tona a precariedade das suas finanças. O ponto crucial é a queda abrupta e contínua dos activos imobiliários, que sofrem descidas que chegam até 60%. Uma descida que continuará, dado o estado crítico destas economias que não conseguem dar sinais de recuperação, devido aos erros gritantes cometidos no passado.

A crise imobiliária desencadeada pela privatização massiva do solo, tem convertido muitos lugares do mundo, da Califórnia a Dublin, em verdadeiras cidades fantasma, com construções por acabar que ficaram paralisadas após a eclosão da crise, com a deterioração de materiais e a desvalorização do solo. Estas cidades fantasma pesam nos balanços bancários e o seu volume é tão grande que não é possível assumir a perda e continuar em frente. Mais ainda quando a economia global se encontra num estado famélico, com um desemprego lacerante que impossibilita qualquer ideia de recuperação.

Ao contrário dos Estados Unidos, onde a crise imobiliária se liquefaz com um dólar que serve de divisa mundial ao resto do mundo para aceder ao comércio internacional, o caso europeu mostra toda a crueza da crise porque o euro nunca lutou para impor-se como divisa internacional. Desta forma todas as perdas ficam a nível europeu sem poder dissolvê-las no mercado mundial e todos os empréstimos incobráveis terminam no balanço do Banco Central Europeu. Este banco torna-se assim depositário de todos os números vermelhos, convertido no verdadeiro “banco mau” (ou depósito de lixo) que devia ter sido criado após a crise.

Recordemos que no início da crise se falou da criação de um “banco mau” depositário de todos os activos tóxicos, mas esta ideia naufragou pela arrogância de quem sustentava que a crise era um fenómeno transitório. Desta forma o Banco Central Europeu tornou-se depositário de todos os riscos e números vermelhos. Foi assim que os bancos privados descarregaram todos os seus riscos nos bancos centrais e estes distribuíram grandes somas de dinheiro às instituições financeiras para evitar o colapso da banca e repetições de casos como o Lehman Brothers. Desta forma, em troca de activos desvalorizados, ou hipotecas lixo, a banca recebeu dinheiro fresco para continuar a apostar no mercado e distribuir apetitosos dividendos aos seus accionistas. Finalmente, e através dos bancos centrais, todos estes riscos, que são de vários milhares de milhões de euros, foram transferidos ao Banco Central Europeu, que acumula na sua folha de balanço perdas que ameaçam afundar toda a Europa.

Os riscos não assumidos pela banca privada foram parar ao balanço do BCE e é por isso que uma reestruturação da dívida grega ou, pior, uma falta de pagamento, põem em alerta o BCE face a uma possível bancarrota. O BCE comprou títulos do Governo grego por 47 mil milhões de euros e desde Abril gastou cerca de 90.000 milhões de euros no refinanciamento dos bancos gregos. Para toda a Europa, o BCE acumulava no começo do ano mais de 480.000 milhões de euros nestes activos duvidosos e até ao momento nenhum perito é capaz de dizer como o BCE pode desfazer-se destes valores sem assestar um golpe fatal no sistema bancário europeu. O BCE está numa situação sem saída e agora converteu-se num gigantesco banco mau ou, por outras palavras, num depósito de todo o lixo bancário europeu.

O ex-presidente do Bundesbank, Axel Weber, criticou na altura o programa do BCE de comprar títulos de Estados e de bancos falidos e esse foi o motivo da sua renúncia que o deixou fora do caminho para suceder a Jean Claude Trichet. O tempo está a dar razão a Weber de que estes bancos deviam ser condenados à falência sem misericórdia e e eu acrescentaria que os seus executivos também deveriam ser condenados à cadeia. Enquanto não chegam ao cárcere os banqueiros culpados do grande descalabro financeiro que vive a Europa, os Estados Unidos e o mundo inteiro, continuaremos desgraçadamente a proteger e legitimar as fraudes das finanças modernas, plenamente permitidas.

Artigo do economista Marco Antonio Moreno, publicado em elblogsalmon.com. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Termos relacionados Internacional
(...)