You are here

Insatisfação de classe ficou patente nestas eleições

Vale a pena recordar que, há apenas 50 anos, era negado a afro-americanos o direito de votar em eleições presidenciais, quanto mais candidatar-se a esse lugar. Esses direitos apenas foram conquistados depois da luta de massas do movimento pelos direitos civis ter finalmente afastado o Partido Democrático do seu legado segregacionista.

Por Sharon Smith

A vitória de Obama marca um golpe no racismo, de proporções históricas similares. Apesar dos esforços continuados de McCain e de Palin para fomentar a animosidade racial contra Obama, a sua campanha de ódio não conseguiu arrebanhar uma maioria de votantes. Como pôde verificar-se, as alterações demográficas na composição do eleitorado nos EUA diminuíram a importância relativa do eleitorado branco, incrementando a dos negros, dos latinos e de outros imigrantes.

Contrariamente às previsões de analistas encartados, muitos trabalhadores brancos votaram entusiasticamente pelo candidato negro nas eleições de 2008. A vitória de Obama teria sido impossível sem eles.

O racismo - acumulado e reforçado desde cima - sufocou o movimento laboral nos EUA desde o seu surgimento, como demonstra o falhanço das associações sindicais em ganhar posições firmes no Sul. Enquanto os trabalhadores brancos acreditarem erradamente que têm mais em comum com os seus exploradores brancos do que com os seus companheiros negros ou imigrantes, o seu movimento tem tudo a perder. Finalmente, após décadas de declínio, o movimento laboral posiciona-se para avançar.

A eleição de Obama não significa que o racismo tenha desaparecido da noite para o dia. Pelo contrário, os comícios de McCain e Palin arregimentaram milhares de racistas, empolgados pelo vitríolo que emanava do palanque. A brutalidade policial, as disparidades sociais no emprego e na educação e a segregação nas áreas de habitação continuam a existir como antes, não importa quem esteja na Casa Branca, até que se retome explicitamente a luta contra o racismo.

Mas a vitória de Obama representa também um avanço na consciência de classe e uma decisiva rejeição das políticas neoliberais que rebaixaram o nível de vida dos trabalhadores do mundo inteiro durante mais de três décadas. As sondagens mostraram que a opinião pública se deslocou para a esquerda em praticamente todas as questões sociais, desde a guerra do Iraque aos casamentos do mesmo sexo, nos anos recentes.

A existir um paralelo histórico com a dinâmica de classes presente nas eleições de 2008, ele será com a vitória de Franklin Delano Roosevelt em 1932. O triunfo de Roosevelt, como o de Obama, resultou da generalizada insatisfação e revolta de classe, numa era em que a desenfreada ganância das grandes empresas lançou o descrédito sobre o livre-mercado.

Embora Roosevelt tivesse feito aos votantes promessas vagas de um "New Deal" ["Novo Contrato"], foi necessária a pressão desde a base para determinar o conteúdo da política presidencial durante a Grande Depressão. A escala da luta de classes foi tal que os trabalhadores não só alcançaram o direito legal aos sindicatos e a outras reformas em prol da classe trabalhadora, como deslocou o equilíbrio de forças a seu favor durante dezenas de anos.

Há mais de três décadas que não se verifica um recrudescimento da luta de classes nos EUA. Contudo, a insatisfação de classe patenteada nestas eleições pode bem ser o prelúdio desse recrudescimento nos próximos anos. Obama prometeu "mudança", mas a escala da mudança necessária requer a luta de massas a partir da base.

Sharon Smith é autora de "Subterranean Fire: A History of Working-Class Radicalism in the United States" e de "Women and Socialism".

Tradução de José Pedro Fernandes

(...)

Resto dossier

Obama depois da vitória

O jornal e site Socialist Worker, dos Estados Unidos, reuniu um painel de militantes e activistas de esquerda que escrevem sobre o que esperar do presidente eleito Barack Obama, e o que a esquerda deve fazer. Os depoimentos são de activistas de diversas áreas, da imigração, da saúde, do movimento anti-guerra.

Por que a América não fará uma viragem à esquerda

A eleição de Barack Obama como 44º Presidente dos EUA - e o seu primeiro líder negro - tem sido celebrada como uma revolução e uma transformação. A ala direita dos republicanos teme que o seu país esteja a aderir ao presidente mais radical desde Roosevelt. Mas a análise dos votos e da própria personalidade de Obama revela muito menos mudança do que se pensa.

Temos de readaptar-nos à nova realidade política

Numa administração Obama, a esquerda política americana terá de se readaptar à realidade política. Uma avaliação honesta da nossa situação revelará muito trabalho para fazer em termos de educação política, organização, activismo e alcance dos recentemente envolvidos na candidatura de Obama - o que pode ser extremamente difícil, dado o grau elevado de ilusões.

Vai ser preciso um movimento social renovado para empurrar Obama

Confesso que estou entusiasmado com a ideia de Obama ser presidente, mesmo tendo um doloroso conhecimento das suas limitações - a sua suave e articulada inteligência, que abrange uma abordagem tradicional à política externa e doméstica, ajudada por um grupo de conselheiros reciclado da administração Clinton e de outras partes do establishment.

"Parabéns Barack! Agora, fora de Cabul e do Iraque!"

A antiga chefe do serviços de informações britânico afirmou que, na sua opinião, todo o conceito de "guerra ao terrorismo" foi mal conduzido desde o início, que foi uma reacção exagerada a um ataque terrorista.

O novo governo tem de assegurar que vai parar as rusgas e as deportações de imigrantes

Penso que esta eleição é histórica; é um grande momento estar aqui em Chicago, pois pela primeira vez temos um presidente que está contra todas as políticas que a administração Bush promoveu nos últimos oito anos. Penso que há esperança, não apenas para o movimento pelos direitos dos imigrantes, mas também para as pessoas que são contra a guerra e para todos os movimentos progressistas.

Não deve haver lua-de-mel com Obama

A primeira coisa a dizer é que não devia haver lua-de-mel. Os democratas já detêm a maioria na Casa e no Senado há dois anos, e no entanto continuam a financiar a ocupação do Iraque, a permitir escutas telefónicas sem mandatos, a expandir o orçamento militar.

O movimento anti-guerra tem de continuar a luta pela paz

Durante o debate eleitoral final para a Presidência dos EUA, na Universidade de Hofstra, em Hempstead, Nova York, membros dos Veteranos do Iraque Contra a Guerra (IVAW) solicitaram ao moderador, Bob Schieffer, que lhes permitisse colocar uma questão a cada um dos candidatos.

Insatisfação de classe ficou patente nestas eleições

Vale a pena recordar que, há apenas 50 anos, era negado a afro-americanos o direito de votar em eleições presidenciais, quanto mais candidatar-se a esse lugar. Esses direitos apenas foram conquistados depois da luta de massas do movimento pelos direitos civis ter finalmente afastado o Partido Democrático do seu legado segregacionista.