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Durante os Jogos, os peticionários não são benvindos

É uma das raras tradições que Pequim não deseja apresentar ao mundo durante os Jogos Olímpicos: os rios de peticionários que afluem à capital para obter justiça. Este sistema, herdado da época imperial, permite que os habitantes das províncias se dirijam ao "centro" se se considerarem vítimas de injustiça, desvendando assim a face sombria da China.

Da agência AFP

Desde há cerca de cinco anos, a senhora Feng Yaquin, originária da cidade de Hailun (72 mil habitantes), na província de Heilongjiang (nordeste), usa este método para apresentar dossiers e requerimentos nas administrações respectivas.

A sua actividade começou com o assassinato do seu irmão, um motorista de táxi, em Dezembro de 2003: ela acusa as autoridades e a polícia de Hailun de ter destruído as provas e de não ter detido os verdadeiros culpados, para proteger pessoas importantes.

Está persuadida de que as autoridades centrais permitir-lhe-ão obter satisfação contra os responsáveis locais, que ela acusa de serem corruptos.

"O nosso governo dá uma grande importância à luta contra a corrupção, a acção do presidente Hu Jintao e do primeiro-ministro Wen Jiabao neste sentido é bastante eficaz", afirma.

Aos 46 anos, ela não tem grandes meios, quase nenhuma poupança, uma mãe que ficou com o filho do irmão assassinado, uma filha de 24 anos que estuda em Pequim e a sustenta financeiramente, e um marido que se cansou do seu combate.

"Ele tem muitas razões de queixa de mim, porque há muito tempo que não paro em casa", explica à AFP.

Durante os Jogos, a China, desejosa de mostrar os seus lados melhores, não quer que os peticionários venham perturbar a festa. Desde há vários meses, as organizações de defesa dos direitos do homem, como a Amnistia Internacional, acusam Pequim de os expulsar da capital antes do grande evento desportivo.

A sra. Feng mantém segredo sobre o seu endereço, temendo sobretudo os representantes das autoridades locais despachados para a capital para trazer de volta ao rebanho as ovelhas tresmalhadas.

"Não quero revelar-vos, não posso nem fazer ligações telefónicas", afirma.

Durante os Jogos, ela vai manter um perfil baixo, por patriotismo.

"Não podemos fazer de outra forma, os Jogos Olímpicos são muito importantes para o nosso país, há muito tempo que se espera por eles", diz. "Os nossos pequenos problemas não podem perturbar este grande assunto do país", prossegue. "Durante os Jogos, alguns peticionários, que não foram atendidos, vão ter comportamentos radicais, mas não eu", defende-se a sra. Feng, persuadida de que um dia vai acabar por ganhar.

"Não vou desistir nunca, porque as minhas provas são evidentes", lança, antes de desaparecer para um destino incomum, levando uma massa de documentos, entre os quais fotocópias de actos de de processos.

Para explicar a sua tenacidade, ela utilizou uma expressão chinesa: "As nuvens negras não podem sempre encobrir o sol".

29/7/2008

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Resto dossier

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