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A segurança, a imagem e a Revolução Cultural Olímpica

O excesso de zelo com a imagem da China e as medidas de segurança extremas adoptadas em Pequim correm o risco de transformar estas Olimpíadas na mais sem graça, reprimida e tensa competição da História dos Jogos Olímpicos, ainda que o porta-voz do Comando de Segurança do Comité Organizador dos Jogos de Pequim (Bocog, da sigla em inglês), Liu Shaowu, garanta que o governo chinês está a dar o melhor de si para conciliar diversão e tranquilidade.

Por Gilberto Scofield Jr., correspodente do jornal O Globo , retirado do seu blog

Numa última tentativa de controlo social que muito lembra os tempos de delação da Revolução Cultural, o governo de Pequim convocou os moradores da cidade - além dos 100 mil voluntários registrados oficialmente pelo Bocog - para servir de informantes sobre tudo o que for suspeito em termos de segurança, bem como comportamentos considerados anti-sociais, como falar alto, vender o corpo, cuspir, usar drogas ou jogar lixo no chão. Segundo sítios na internet chinesa, seriam 400 mil informantes, número não confirmado por Liu.

- Toda a sociedade estará empenhada no trabalho - diz ele, que define a tarefa como "neighborhood watching" (fiscalização da vizinhança, em inglês).

A região de bares conhecida como Sanlitun vem recebendo buscas policiais anti-drogas frequentes. Até aí tudo bem. Mas o jornal de Hong Kong South China Morning Post afirmou que donos de bares do local foram instruídos pela política para "tomarem cuidado com negros e mongóis", considerados por muitos na capital como traficantes de drogas ou proxenetas. Aliás, algumas boites onde circulam prostitutas, como a "Maggie's", foram fechadas e mesmo a boite gay Destination, a única da cidade, teve de fechar a sua pista de dança por tempo indeterminado.

- Não é verdade que haja qualquer discriminação contra negros ou mongóis - disse Liu, para explicar novamente o trabalho dos "informantes voluntários":

- Os voluntários têm a função de denunciar comportamentos suspeitos ou abusivos e todos os que se sentirem ofendidos podem reclamar nas instâncias superiores.

Manifestações

Protestos, afirmou o porta-voz, serão permitidos desde que previamente autorizados pelo governo da China e, ainda assim, restritos a três parques públicos: Ritan, Shijie e Zizhu. Do ponto de vista da segurança, o medo de Pequim não é apenas da acção de grupos terroristas internacionais durante a realização de um evento desportivo tão grandioso. É também - e principalmente - da acção de grupos separatistas de etnias historicamente oprimidas (como os uígures muçulmanos ou tibetanos) ou simplesmente de chineses insatisfeitos que organizam protestos contra praticamente tudo: confisco de terras, abusos de autoridade, corrupção, desvio de dinheiro, pobreza e poluição.

Dias depois de três pessoas morrerem e 14 ficarem feridas na explosão de dois autocarros na cidade de Kunming, capital da província de Yunnan, no Sudoeste da Chi-na, o Ministério da Segurança Pública chinês anunciou a adopção de um verdadeiro esquema de defesa em tempo de guerra em Pequim. Os moradores da cidade estão a receber um manual sobre como se comportar em situações de terror, como "avistar alguém portando um pacote com explosivos":

"Fique calmo, não toque no pacote e mande uma mensagem de texto para a polícia, de preferência com uma fotografia do objecto suspeito", diz um dos trechos do manual.

No fim de semana, o Escritório de Segurança Pública de Pequim anunciou um plano de protecção que se compõe de três linhas de defesa ao redor da cidade. Centenas de postos de controlo e operações stop policiais foram espalhadas pelas principais estradas de entrada e saída de Pequim, bem como nos subúrbios e em ruas que ligam a capital a distritos vizinhos, num esquema de controle e supervisão muito parecido com o montado ao redor de Lhasa, capital do Tibete, na época dos protestos, em Março.

Pequim já opera a sua força anti-terror desde 1 de Julho, composta de 110 mil policiais e soldados, além de 188 especialistas em ataques biológicos, químicos, nucleares ou através de bombas tradicionais, que trabalham em turnos de 24 horas. Mais de 300 mil câmaras de vigilância foram espalhadas pela cidade, mísseis de superfície foram instalados ao redor dos principais estádios e quadras e equipamentos de raio-X ajudam a monitorizar as entradas dos estádios e até as estações do metro. Desde o fim de semana, o espaço aéreo sobre a capital passou a ser monitorizado com lupa e o voo de "objectos estranhos", como balões, aviões e até helicópteros, foram banidos até Setembro.

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Resto dossier

Jogos Olímpicos

Com os Jogos Olímpicos de Pequim, o governo chinês quer mostrar ao mundo que o país entrou definitivamente na categoria das superpotências. Mas não está a conseguir livrar-se das acusações de violações de direitos humanos e de aplicar o capitalismo mais selvagem, que já criou 250 mil milionários, mas onde 700 milhões vivem com menos de dois euros por dia. No dossier, além dos artigos sobre os Jogos de 2008, passamos em revista a história das Olimpíadas da Era Antiga e da Era Moderna, e lembramos dois episódios em especial: a manipulação fracassada de Hitler em 1936, e o protesto dos negros dos EUA em 1968.

1968: A luta contra o racismo irrompe nas Olimpíadas

Os Jogos Olímpicos de 1968, na Cidade do México, ficaram famosos pelos protestos inéditos contra o racismo protagonizados por atletas afro-americanos. Nesta entrevista, Lee Evans, medalha de ouro nos 400 metros em 68 e membro do Projecto Olímpico Pelos Direitos Humanos, esclarece ao pormenor como tudo se passou, desde as estratégias para lidar com os media até à forma como conseguiram contornar os imprevistos de última hora.

Jogos em Pequim

Jogos em Pequim Com o lema "Um Mundo, Um Sonho", os Jogos Olímpicos de Pequim deveriam oferecer aos dirigentes chineses, de 8 a 24 de Agosto, a oportunidade para uma reabilitação internacional depois da condenação mundial que sofreram após a matança na Praça de Tiananmen em 1989. Por isso o êxito das Olimpíadas é tão primordial para eles e o primeiro-ministro Wen Jiabao insiste nas consignas de "harmonia" e de "estabilidade".

1936: Quando Hitler usou os Jogos para a propaganda do Reich

No dia 1 de Agosto de 1936, ditador nazi Adolf Hitler abria oficialmente os Jogos Olímpicos de Berlim. Com a economia recuperada depois da derrota na Primeira Guerra Mundial, Hitler convencera os membros do Comité Olímpico Internacional (COI) de que Berlim seria ideal para a realização da Olimpíada daquele ano.

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História: Os Jogos Olímpicos da Era Moderna

As escavações que começaram em 1875 em Olímpia excitaram a imaginação de muita gente na Europa. O ideal grego de perfeição física e espiritual andava esquecido e o conhecimento sobre os Jogos Olímpicos era quase nulo, a ponto de o assunto ser tratado como uma lenda.

Durante os Jogos, os peticionários não são benvindos

É uma das raras tradições que Pequim não deseja apresentar ao mundo durante os Jogos Olímpicos: os rios de peticionários que afluem à capital para obter justiça. Este sistema, herdado da época imperial, permite que os habitantes das províncias se dirijam ao "centro" se se considerarem vítimas de injustiça, desvendando assim a face sombria da China.

História: Os Jogos Olímpicos da Antiguidade

Os Jogos Olímpicos originais duraram mais de mil anos, de 776 antes de Cristo a 395 depois de Cristo. Mesmo antes disso já existiam competições parecidas, mas só a partir de 776 a.C. há registo oficial dos jogos. Assim como a imitação moderna, as Olimpíadas, os jogos eram realizados de quatro em quatro anos. Uma diferença com os jogos de hoje é que antigamente o local era sempre o mesmo: a cidade de Olímpia, na Grécia.

As muitas faces de uma Olimpíada chinesa

Interior do estádio olímpico de Pequim, o Apesar dos apelos feitos na semana passada pelo presidente da China, Hu Jintao, para que o mundo encare as Olimpíadas de Pequim como um espectáculo meramente desportivo - no que faz coro com o presidente do Comité Olímpico Internacional, Jacques Rogge - estes Jogos começam como uma das mais politizadas Olimpíadas da História. E a culpa, diga-se de passagem, é da própria China.