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História: Os Jogos Olímpicos da Era Moderna

As escavações que começaram em 1875 em Olímpia excitaram a imaginação de muita gente na Europa. O ideal grego de perfeição física e espiritual andava esquecido e o conhecimento sobre os Jogos Olímpicos era quase nulo, a ponto de o assunto ser tratado como uma lenda.

Adaptado do site brasileiro Opinião e Notícia

Uma das pessoas que se entusiasmou ao ouvir o relato das descobertas na Grécia foi o barão francês Pierre de Coubertin (1863-1937). Ele achava que o povo francês andava com a moral muito baixa, passados mais de 50 anos de decadência após a derrota de Napoleão, e a volta do ideal olímpico seria uma maneira de levantar essa moral. Em 15 de Janeiro de 1894, Coubertin enviou uma carta aos principais órgãos desportivos de vários países, conclamando-os a colaborar na volta dos Jogos Olímpicos. Após longas negociações, o governo grego concordou em realizar os primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna.

As negociações foram longas porque a Grécia estava em má situação financeira e não queria assumir os custos dos Jogos. Além disso, houve forte pressão dos Estados Unidos e da Inglaterra no sentido de os Jogos se chamarem Pan-Britânicos e se realizarem nos EUA. Só depois de muito esforço, ajuda de outros países, e doações em dinheiro da população grega, é que o governo da Grécia aceitou a ideia. Um antigo estádio que fora construído em Atenas em 300 A.C. foi todo reconstruído em mármore, e os primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna aconteceram em 1896.

Compareceram 13 países, com um total de 195 atletas, todos homens. Foram realizadas 42 provas dentro de dez modalidades diferentes. Os Jogos duraram de 6 a 15 de Abril. A primeira medalha de ouro foi do americano James Conally, no salto-triplo. Caracterizando o espírito amador dos Jogos, ele tinha ido para lá por conta própria. Nesta primeira competição da Era Moderna, o número de provas já foi muito maior do que nos Jogos antigos.

Os Estados Unidos ficaram em primeiro lugar na contagem de medalhas de ouro, mas no número total de medalhas a Grécia ficou em primeiro. O fato de o país sede ganhar mais medalhas ia repetir-se algumas vezes no início dos Jogos, isso porque eles inscreviam muito mais atletas do que os outros países, que levavam equipes pequenas. França, Hungria, Áustria, Austrália, Dinamarca e Suíça também chegaram ao topo do pódio nesta edição do evento.
Um ano após Atenas, foi realizado um congresso para decidir sobre o futuro dos jogos. A maioria dos presentes preferia mantê-los permanentemente em Atenas, mas Coubertin fez prevalecer a sua ideia de variar o país-sede. A cidade de Paris, então, foi escolhida para sediar os Jogos de 1900. O número de países participantes aumentou para 21, e desta vez participaram 11 mulheres. O número de provas aumentou, e com o desenvolvimento dos Jogos, a cada ano eram acrescidas novas provas, às vezes algumas eram abandonadas.

Concomitante aos Jogos Olímpicos de Paris, em 1900, acontecia uma grande Exposição Universal e a Torre Eiffel estava a ser também inaugurada. Com isso, o evento desportivo não recebeu atenção da imprensa ou do governo, foi tudo improvisado. As provas de natação foram realizadas num trecho do rio Sena e as de atletismo num local pouco apropriado, no Bois de Boulogne, com o chão esburacado e com árvores a atrapalhar as provas de arremesso.

Houve discussões entre os franceses, que não queriam provas no dia 14 de Julho - data nacional - e os americanos, que não queriam provas aos domingos por razões religiosas. O vencedor da maratona foi o parisiense Michel Théato, que era um entregador de pão em Paris. Como a corrida foi disputada nas ruas da cidade, o facto de ele conhecer bem os trajectos ajudou-o a chegar quatro minutos e meio na frente do segundo colocado. Houve acusações de que ele tivesse cortado caminho, mas a vitória foi oficializada. Os Jogos acabaram com a França em primeiro lugar em número de medalhas, tanto de ouro como no total, e os Estados Unidos em segundo. A maioria dos outros países europeus conseguiu medalhas, assim como Canadá e Austrália (ambos de cultura inglesa) e, para surpresa geral, Cuba.

Como veremos adiante, acusações de fraude continuaram a ocorrer enquanto a direcção de cada Olimpíada ficou por conta de cada país-sede. Mais tarde, quando o Comité Olímpico impôs regras uniformes e a adopção de juízes neutros em cada prova, o problema terminou.

A fase inicial

As Olimpíadas seguintes, em 1904, ocorreram na cidade de Saint Louis, no estado de Missouri, Estados Unidos. Mais uma vez cometeu-se o erro de fazer coincidir os Jogos com uma grande exposição mundial, o que levou a um fracasso. Além disso, os americanos cometeram o absurdo de criar competições em separado para "não brancos", em dias denominados "dias antropológicos". Foram os primeiros e únicos Jogos Olímpicos modernos racistas (as antigas Olimpíadas, na Grécia, eram racistas, mas naquele tempo isso era a norma).
Na maratona houve mais uma tentativa de fraude. No meio da prova, um corredor americano chamado Fred Lordz pediu boleia a um carro, dizendo que estava cansado e ia para casa. O carro deixou-o perto da chegada e ele disfarçou e entrou no estádio a correr, fingindo que era o vencedor. Alice Roosevelt, filha do presidente Theodore Roosevelt, já ia dar-lhe o prémio quando o motorista que dera a boleia chegou e desmascarou o malandro.
As Olimpíadas de Saint Louis foram pequenas e mal organizadas, com pouco mais de 500 participantes, dos quais oito mulheres.  

Os Jogos Olímpicos seguintes, em Londres, em 1908, mais uma vez desapontaram. Havia uma feira, a franco-britânica, que tirou o brilho dos jogos. Choveu quase o tempo todo, o que atrapalhou bastante. E pior: os ingleses impuseram as suas próprias regras às competições, ignorando as sugestões do Comité Olímpico. Todos os juízes eram ingleses. Essa atitude foi tão radical que a partir daí o Comité conseguiu impor a sua disciplina, que passou a ser aceita por todos nas Olimpíadas seguintes.
Na corrida de 400m houve um pequeno escândalo. O favorito era um inglês, e os juízes acharam que dois corredores americanos lhe haviam barrado a passagem, terminando a prova em primeiro e segundo lugares, com o inglês em terceiro. Os juízes ordenaram que a prova fosse disputada novamente. Os americanos se recusaram, o inglês correu sozinho e levou a medalha de ouro. A Inglaterra ganhou o primeiro lugar na contagem de medalhas, com os Estados Unidos em segundo.

Os jogos modernos atingem a maioridade

Os próximos Jogos Olímpicos, de 1912, foram em Estocolmo. O número de atletas ultrapassou a barreira dos dois mil, com mais de 50 mulheres. Pela primeira vez, todo o evento foi muito bem organizado, criando um exemplo para o futuro.

Vários acontecimentos insólitos marcaram estes Jogos: um índio americano chamado Jim Thorpe ou, na sua língua natal, Wa To Huck, ganhou duas medalhas de ouro, no pentatlo e no decatlo. Quando voltou para casa após o fim dos jogos teve que devolvê-las por ter sido acusado de profissionalismo já que uma vez, anos antes, recebera 20 dólares como ajuda de custo para participar de uma excursão de um time de beisebol. As medalhas de ouro passariam para um sueco e um norueguês, respectivamente. Os dois, numa belíssima demonstração de cavalheirismo e espírito desportivo, recusaram as medalhas.
Na maratona houve também um fato incomum: Francisco Lázaro, um carpinteiro português de 23 anos, porta-bandeira da primeira delegação portuguesa aos Jogos, disse antes da corrida: "ou ganho ou morro". Pois morreu mesmo, durante a corrida, de esgotamento e insolação. Nesses Jogos foi aberta a participação nas competições de natação às mulheres, que até então só podiam participar de patinagem, tiro-ao-alvo e ténis. Outra novidade que surgiu na natação foi um novo estilo chamado crawl, usado por um havaiano nos 100m nado livre.
Houve mais uma surpresa: competições de Belas Artes, um dos sonhos do Barão de Coubertin, com concursos de pintura, arquitectura, literatura, escultura e música. No concurso de literatura ganhou um poema sobre o desporto, escrito por um autor que se apresentou com pseudónimo. Mais tarde soube-se que o dono do pseudónimo era o próprio Barão de Coubertin.

Ao final dos Jogos, a Suécia, país-sede, ficou em primeiro lugar e os Estados Unidos em segundo.

No ano de 1916 não houve Olimpíadas por causa da Primeira Guerra Mundial, que estava em pleno andamento. Em 1920 foi a vez de Antuérpia, na Bélgica. Inaugurou-se aí a bandeira com os cinco círculos interligados, que até hoje é o símbolo do acontecimento.

Uma curiosidade foi o imigrante irlandês radicado nos Estados Unidos, John Kelly, pai da actriz Grace Kelly, futura princesa de Mónaco, que venceu a prova individual de remo.

Os Jogos de 1924 foram realizados em Paris, agora com organização impecável. Uma das grandes estrelas da vez foi o finlandês Paavo Nurmi, o maior corredor da sua geração. Neste e em futuros Jogos ele ganharia um total de nove medalhas de ouro e três de prata, batendo 24 recordes mundiais. Na natação, um jovem americano de 17 anos, chamado Johnny Weissmuller, ganhou três medalhas de ouro. Depois tornar-se-ia actor, vivendo o papel de Tarzan em diversos filmes. O país vencedor destes Jogos foram os Estados Unidos, seguidos da França.

Em 1928 os Jogos aconteceram em Amsterdão, na Holanda. Foi a primeira vez em que se acendeu a chama olímpica, trazida da Grécia. Desta vez permitiram que as mulheres participassem do atletismo. Aos poucos o sexo feminino ia se aproximando do seu ideal de obter direitos iguais aos dos homens. Os finlandeses brilharam, com Paavo Nurmi e outros ganhando muitas medalhas, principalmente em corridas. O americano Johnny Weissmuller novamente ganhou três medalhas de ouro na natação, provando ser o melhor nadador do mundo da época. Acabados os Jogos, os Estados Unidos ficaram em primeiro lugar, a Alemanha em segundo e a Finlândia em terceiro. Foi a primeira vez que o país-sede não ficou num dos dois primeiros lugares.

Interessante notar que dez anos após o fim da Primeira Guerra Mundial, perdida pela Alemanha, esta recuperara a sua posição de grande desportista. Quanto à Rússia, que antes da guerra participara dos Jogos, passados agora onze anos da Revolução Comunista de 1917, ainda optava por não participar. Só viria a fazê-lo após a Segunda Guerra Mundial, quando teria uma grande equipe desportiva.

Los Angeles, 1932. Houve um erro dos juízes numa corrida de 3.000m, deixando que os corredores disputassem uma volta a mais: com isso o finlandês que estava em primeiro deixou de ganhar. Além disso, o grande finlandês Paavo Nurmi foi proibido de competir, sob acusação de profissionalismo.
Dois fatos pitorescos aconteceram: a equipe argentina rebelou-se contra o chefe de sua delegação, e promoveu desordens na Vila Olímpica. Ao chegar de volta ao seu país, foram todos parar à cadeia. A equipe brasileira, de 69 atletas, viajou sem apoio oficial. Foram num cargueiro de café, com a ideia de ir vendendo café em cada porto de escala do navio, conseguindo assim dinheiro para a viagem e demais despesas. Apenas 45 chegaram a Los Angeles, e nenhum ganhou medalha.
O primeiro lugar nesses Jogos, como era de se esperar, ficou com os Estados Unidos. A Alemanha caiu para nono lugar.

Berlin, 1936. Hitler estava no poder há três anos, e sem dúvida já pensava na sua Segunda Guerra Mundial, que iniciaria três anos depois. Era um mestre da propaganda política, e resolveu usar as Olimpíadas como instrumento de publicidade do seu regime e da raça branca, que afirmava ser superior às outras.
Essa foi a maior competição até então. O número de participantes masculinos foi a 3600, e femininos 328, representando 49 países.
No atletismo, a Finlândia confirmou a sua tradição, ganhando muitas provas, e ficando em quinto lugar no total dos Jogos - um óptimo resultado para um país pequeno. Até aí, tudo saiu bem para Hitler: os finlandeses eram de pura raça branca. Já a maratona foi vencida por um japonês, de raça amarela. A maior decepção para Hitler, porém, foi o desempenho do atleta negro americano Jesse Owens, que ganhou quatro medalhas de ouro em salto em distância e corridas. Eram justamente as provas em que a Alemanha esperava brilhar. À medida que Owens ganhava cada prova, Hitler ia ficando mais irritado, e mandava algum assessor entregar a medalha, em vez de fazê-lo ele mesmo. Quando o americano venceu a quarta prova, o ditador retirou-se do estádio, furioso. Jesse Owens passou para a história como símbolo da estupidez das teorias racistas de Hitler. O seu recorde mundial no salto em distância, de 8,06m só foi superado 24 anos depois, em 1960.
Terminados os jogos, os Estados Unidos ficaram em primeiro lugar nas medalhas de ouro, mas perderam para a Alemanha no total de medalhas.

Devido à Segunda Guerra Mundial, não se realizaram as Olimpíadas em 1940 e 1944.

Pós-guerra: o crescimento do bloco soviético

Em 1948, os Jogos foram realizados em Londres. Alemanha e Japão não foram convidados, ainda por causa do ressentimento da guerra.
Um grande destaque dessas Olimpíadas foi o corredor checo Zatopek, que ganhou a medalha de ouro dos dez mil metros. Outro destaque foi Fanny Cohen, holandesa de 30 anos de idade, mãe de dois filhos, que surpreendeu todo o mundo ao ganhar quatro medalhas de ouro em atletismo.
No final, os Estados Unidos ficaram em primeiro lugar, a Suécia em segundo. A Inglaterra, país sede, ficou em décimo segundo, reflectindo ainda os efeitos da guerra, com o abandono dos desportos e a morte de milhares de jovens soldados.

Em 1952 foi a vez de Helsinquía, na Finlândia. Compareceu um número recorde de 69 países, com mais de 5.000 participantes masculinos e mais de 500 femininos.
O checo Zatopek venceu os 5.000m, os 10.000m e a maratona, e a sua mulher Dana o arremesso de dardo. A tocha olímpica entrou no estádio trazida pelo grande corredor finlandês Paavo Nurmi, aquele que tinha sido afastado dos Jogos de Los Angeles por ser acusado de profissionalismo.
Pela primeira vez a União Soviética compareceu - e veio com uma grande delegação. Acabados os jogos, ela estava em primeiro lugar no número total de medalhas. Em medalhas de ouro, entretanto, os Estados Unidos ganharam. Ficou claro que os russos estavam a preparar-se há décadas, e vieram para brilhar.
Em 1956 chegou a vez do Hemisfério Sul. Pela primeira vez as Olimpíadas atravessaram o Equador, e foram para Melbourne, na Austrália. A União Soviética teve uma vitória completa, ficando em primeiro em medalhas de ouro, de prata e bronze. Os Estados Unidos vieram logo atrás, e em terceiro ficou a Austrália. A Alemanha Oriental, que mais tarde se firmaria como grande potência desportiva ainda não aparecia, nessa época.

Em Roma, em 1960, estreou a cobertura ao vivo pela televisão. Destaque para o etíope Abebe Bikila, que venceu a Maratona correndo descalço. Quatro anos depois ele adoptaria o uso de sapatos, e venceria de novo. Num dos maiores erros cometidos na história dos Jogos Olímpicos, na prova de natação de 100m os juízes deram a vitória a um australiano, deixando em segundo lugar um americano. Mais tarde filmes de cinegrafistas amadores mostraram que eles erraram.
No total, a União Soviética ganhou novamente, os Estados Unidos ficaram em segundo, a Itália, país-sede, ficou em terceiro.

Tóquio foi a sede dos Jogos em 1964. Foi o ano de entrada do voleibol nas Olimpíadas. No boxe, o americano Joe Frazier ganhou a medalha de ouro no peso-pesado. Esse lutador esteve activo durante muito tempo, chegando a campeão mundial, e perdendo a supremacia para Cassius Clay (que depois mudou de nome para Mohamed Ali).
Os Estados Unidos retomaram a liderança, ficando em primeiro lugar, com a União Soviética em segundo, e o Japão em terceiro.  

México, 1968. Esses Jogos foram marcados pela tragédia causada pela polícia, que matou 70 estudantes durante uma manifestação. Esse foi o ano dos grandes protestos mundiais. Foi quando os estudantes franceses se levantaram e levaram à queda do governo do General de Gaule, foi o ano de grandes protestos estudantis no Brasil, e era época dos grandes conflitos raciais nos Estados Unidos. Foi também o ano dos assassinatos de Robert Kennedy e do líder negro Martin Luther King. Reflectindo esse clima, diversos atletas negros americanos, ao receberem as suas medalhas, fizeram a saudação característica do movimento "Black Power", erguendo os braços com os punhos fechados.

Nessas Olimpíadas foram inaugurados grandes progressos técnicos: laboratórios para exame de doping e determinação de sexo, células foto-eléctricas para definir o vencedor nas corridas, cronómetros modernos, etc.
Os Estados Unidos acabaram em primeiro lugar, seguidos da União Soviética. A Alemanha Oriental, que até agora não tinha participado, desta vez veio e ficou em quinto lugar.

Munique, 1972. Nesse ano houve grande crescimento das Olimpíadas. Vieram 123 países, com 8.500 participantes masculinos e 1.600 femininos. Foram disputadas 205 diferentes provas.
Estes Jogos foram marcados por uma grande tragédia. O grupo palestiniano Setembro Negro invadiu o edifício onde estava hospedada a delegação de Israel e prendeu como reféns os atletas israelitas, pedindo a libertação de 200 palestinianos presos, em troca da vida dos reféns. A polícia fingiu concordar com a exigência, e os guerrilheiros partiram para o aeroporto levando os reféns. Lá foram atacados pela polícia, e no tiroteio morreram 5 palestinianos e 11 atletas israelenses.
A ginasta russa Olga Korbut encantou o mundo com sua graça, e ganhou 3 medalhas de ouro. Desde então, as ginastas da Europa Oriental têm fascinado o mundo nas Olimpíadas.
O nadador americano Mark Spitz ganhou sete medalhas de ouro, façanha inédita. Ao final, União Soviética em primeiro, Estados Unidos em segundo, Alemanha Oriental em terceiro e o país-sede, Alemanha Ocidental, em quarto.

Montreal, 1976. Inaugurando uma era de utilização dos Jogos Olímpicos para finalidades políticas, houve uma série de protestos, inicialmente contra Taiwan e, em seguida, contra a Nova Zelândia acusada de racismo por ter boas relações com a África do Sul. Vinte e três países retiraram-se.
Destaques para: Edwin Moses no atletismo, atleta esse que continuou uma carreira brilhante durante longo período; a ginasta romena Nádia Comaneci, com três medalhas de ouro; no box, no peso super-ligeiro, medalha de ouro para "Sugar" Ray Leonard, que nos quinze anos seguintes foi talvez o maior boxeador do mundo, e nos meio-pesados ganhou Leon Spinks, que também fez carreira profissional brilhante. Resultado final: União Soviética em primeiro, Alemanha Oriental em segundo, para surpresa mundial, já que era a primeira vez que os Estados Unidos não estavam entre os dois primeiros, mas sim em terceiro.

Moscovo, 1980. Devido à invasão do Afeganistão pela União Soviética, o presidente Carter, dos EUA, não permitiu que o seu país participasse das Olimpíadas. A Alemanha, o Canadá e o Japão acompanharam a sua decisão. A festa de abertura foi muito bonita, com um trecho da plateia ocupado por jovens que formavam quadros coloridos através do jogo de cores que faziam ao movimentar painéis coloridos que seguravam. Na festa de despedida repetiram-se esses quadros, com a figura do ursinho que era o símbolo dos Jogos de Moscou, o qual deixava correr do seu olho uma lágrima.

A romena Nádia Comaneci brilhou de novo na ginástica. No primeiro lugar acabou a União Soviética, depois a Alemanha Oriental, em terceiro a Bulgária e em quarto Cuba, dando assim uma vitória retumbante para o chamado bloco socialista, tornada possível pela ausência de Estados Unidos e seus aliados.

Los Angeles, 1984. Em clara represália ao boicote a Moscovo, a Rússia e os seus principais aliados não compareceram aos Jogos, usando um pretexto ligado a acusações de racismo. Carl Lewis, um grande atleta negro americano, ganhou quatro medalhas de ouro no atletismo, repetindo a façanha de Jesse Owens quase 50 anos antes. O português Carlos Lopes venceu a Maratona, conquistando pela primeira fez uma medalha de ouro para Portugal.
No resultado geral os Estados Unidos, como era inevitável, ficaram em primeiro, a Roménia - um dos poucos países do bloco comunista a comparecer - em segundo, e a Alemanha Ocidental em terceiro.

Seul, 1988. A capital da Coreia do Sul foi o local escolhido para as Olimpíadas desta vez. Cuba e Coreia do Norte boicotaram os Jogos. Ainda assim, o número de países participantes foi a 160, caracterizando o maior acontecimento desportivo da história.
Havia medo de a Coreia do Norte tentar atrapalhar os Jogos com alguma acção hostil. A perspectiva de protestos estudantis também preocupava. Em consequência a presença policial nas ruas era muito grande, e a TV mostrou cenas violentas de confrontos entre estudantes e polícia. Mas nada de sério ocorreu, e os Jogos decorreram normalmente.
Um dos factos que mais chamou a atenção desta vez foi a bela vitória do canadiano Ben Jonhson sobre Carl Lewis nos cem metros, e a posterior desclassificação do vencedor por ter usado drogas que melhoravam sua performance. Foi o primeiro escândalo de doping na história das Olimpíadas.
Na classificação geral, a União Soviética ficou em primeiro, a Alemanha Oriental em segundo, e os Estados Unidos em terceiro.

Em 1992, foi a vez de Barcelona, na Espanha, sediar as Olimpíadas e o evento foi marcado por grandes transformações. Desde os Jogos de Seul em 1988, a geopolítica do mundo tinha mudado. A Alemanha reunificou-se com a queda do muro de Berlim em 1989 e levou uma única equipe para Barcelona. Em 1991, a União Soviética foi dividida em 15 nações independentes e no ano seguinte, três delas - Estónia, Letónia e Lituânia - levaram equipes próprias para os Jogos. As outras 12 repúblicas da ex-URSS participaram unidas sob o nome de "Comunidade dos Estados Independentes" (CEI), ficando em primeiro lugar no quadro de medalhas, seguida por Estados Unidos e Alemanha.

Com o desmembramento da Jugoslávia em quatro partes, Bósnia-Herzegovina, Croácia e Eslovénia participaram da competição pela primeira vez. Devido às agressões militares contra bósnios e croatas, a Jugoslávia foi sancionada pela ONU e proibida de enviar uma equipe nacional, mas os atletas jugoslavos puderam inscrever-se como "participantes olímpicos independentes". A África do Sul tinha decretado o fim do apartheid e pôde voltar a participar das Olimpíadas. Cuba e Coreia do Norte também retornaram aos Jogos.

Pela primeira vez desde os Jogos de Munique em 1972, os Jogos Olímpicos aconteceram sem nenhum boicote. Participaram 169 nações, totalizando 9.356 atletas. O Comité Olímpico Internacional (COI) autorizou a participação de atletas profissionais a partir desta Olimpíada. Com isso, a equipe norte-americana de basket formado pelos astros da NBA foi o grande destaque em Barcelona. Outro fato marcante foi a vitória da etíope Derartu Tulo na prova dos 10.000m femininos, tornando-se a primeira africana negra a conquistar a medalha de ouro nas Olimpíadas.

Atlanta, 1996. A data marcava a comemoração de 100 anos dos Jogos Modernos, desde Atenas-1896. Era de se esperar que o evento fosse na cidade grega, mas por pressão dos patrocinadores, Atlanta (EUA) foi escolhida como sede. Foram as primeiras Olimpíadas totalmente financiadas por empresas privadas.
A competição contou com a participação de todos os 197 países membros do COI e com um número recorde de 10.318 atletas. Mas uma tragédia deixou o centenário dos Jogos marcado pela violência: um atentado a bomba no Parque Centenário, no centro da cidade, matou duas pessoas e deixou mais de 100 feridos. As competições desportivas não foram suspensas e no dia seguinte a Olimpíada continuou. O responsável pela explosão, o norte-americano Eric Rudolh, só foi preso em 2003.
Na classificação geral, Estados Unidos em primeiro, Rússia em segundo e Alemanha em terceiro.

Sydney, 2000. Os australianos foram excelentes anfitriões e fizeram os Jogos mais organizados da história, com grande preocupação com o meio ambiente. Pela primeira vez, a organização do evento foi acompanhada por grupos ecológicos.

As Olimpíadas de Sydney representaram também um novo recorde: 199 países participaram, com um total de 10.651 mil atletas. Dos 200 membros do COI, só o Afeganistão ficou de fora, proibido de participar por uma retaliação ao regime dos Taliban. Num episódio memorável, as duas Coreias, embora com equipes distintas, desfilaram na cerimónia de abertura sob uma mesma bandeira. E os atletas de Timor Leste, nação que acabara de se separar da Indonésia, ainda sem hino nem bandeira, desfilaram como participantes independentes.

O grande campeão das Olimpíadas foi novamente os EUA. Rússia ficou em segundo e China em terceiro. A Austrália, anfitriã do evento, ficou apenas em quarto.

Atenas, 2004. Os Jogos Olímpicos finalmente voltaram ao seu local de origem. Temia-se que a capital grega não fosse dar conta da organização do evento, mas tudo correu bem. Na cerimónia de abertura, os gregos deram um espectáculo que remetia à Antiguidade e à criação das Olimpíadas.

Foram os maiores Jogos da história até então, com 201 países participantes e 10.625 atletas. Infelizmente, a quantidade de casos de doping confirmados também marcou Atenas-2004. Como resultado de uma rígida política de controle, foram registrados 24 casos positivos.

O grande destaque dos Jogos foi o nadador norte-americano Michael Phelps, que conquistou seis medalhas de ouro e duas de bronze.

O fato mais marcante -- e lamentável -- veio da maratona, quando o brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima liderava a prova e foi agarrado por um manifestante religioso, o padre irlandês Cornélius Horan, que furou o esquema de segurança. Vanderlei só conseguiu voltar à corrida com a ajuda de outro espectador, mas perdeu o ritmo e acabou em terceiro. Junto com o bronze, ganhou a medalha Barão de Cobertin, honraria entregue somente a atletas que demonstram elevado grau de desportivismo e espírito olímpico.

No quadro de medalhas final, a China ficou em segundo, com apenas três medalhas de ouro a menos que os EUA, primeiros colocados. Rússia veio em terceiro e a Grécia em 15º.

(...)

Resto dossier

Jogos Olímpicos

Com os Jogos Olímpicos de Pequim, o governo chinês quer mostrar ao mundo que o país entrou definitivamente na categoria das superpotências. Mas não está a conseguir livrar-se das acusações de violações de direitos humanos e de aplicar o capitalismo mais selvagem, que já criou 250 mil milionários, mas onde 700 milhões vivem com menos de dois euros por dia. No dossier, além dos artigos sobre os Jogos de 2008, passamos em revista a história das Olimpíadas da Era Antiga e da Era Moderna, e lembramos dois episódios em especial: a manipulação fracassada de Hitler em 1936, e o protesto dos negros dos EUA em 1968.

A segurança, a imagem e a Revolução Cultural Olímpica

O excesso de zelo com a imagem da China e as medidas de segurança extremas adoptadas em Pequim correm o risco de transformar estas Olimpíadas na mais sem graça, reprimida e tensa competição da História dos Jogos Olímpicos, ainda que o porta-voz do Comando de Segurança do Comité Organizador dos Jogos de Pequim (Bocog, da sigla em inglês), Liu Shaowu, garanta que o governo chinês está a dar o melhor de si para conciliar diversão e tranquilidade.

História: Os Jogos Olímpicos da Era Moderna

As escavações que começaram em 1875 em Olímpia excitaram a imaginação de muita gente na Europa. O ideal grego de perfeição física e espiritual andava esquecido e o conhecimento sobre os Jogos Olímpicos era quase nulo, a ponto de o assunto ser tratado como uma lenda.

Durante os Jogos, os peticionários não são benvindos

É uma das raras tradições que Pequim não deseja apresentar ao mundo durante os Jogos Olímpicos: os rios de peticionários que afluem à capital para obter justiça. Este sistema, herdado da época imperial, permite que os habitantes das províncias se dirijam ao "centro" se se considerarem vítimas de injustiça, desvendando assim a face sombria da China.

História: Os Jogos Olímpicos da Antiguidade

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1936: Quando Hitler usou os Jogos para a propaganda do Reich

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