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Nuno Sena (3): "Um festival de cinema independente tem de reflectir sobre o mundo em que é feito

Na conclusão da entrevista, Nuno Sena chama a atenção para dois filmes que abordam questões como a precariedade de emprego, os fluxos migratórios entre países com níveis de desenvolvimento muito diferenciados, a exploração da mão de obra ilegal: "Import Export", de Ulrich Seidl, e "It´s A Free World", de Ken Loach.

Entrevista de Olímpio Alves

O cinema influencia a política ou a política influencia o cinema?

Eu diria que as duas vão a par e essa é evidentemente uma das razões de ser do festival, é que a produção contemporânea tem de reflectir algo sobre o tempo que vivemos, tem de reflectir as questões, as dificuldades, questionar o meio circundante.

Penso que um festival de cinema que se pretende independente tem de ser capaz de reflectir sobre o mundo em que é feito, e portanto as escolhas de programação também reflectem isso. Este é um festival que programa muitos filmes de carácter político por uma razão muito simples: a produção independente de cinema é uma produção de carácter militante, se calhar não no sentido tradicional, mas numa militância com questões de cidadania ou uma participação activa nas questões de cada sociedade e no tempo em que ela vive. Neste Festival fazemos escolhas políticas nos filmes que mostramos, queremos que sejam filmes interpolantes e podem sê-lo enquanto retrato de uma sociedade.

Este ano, dentro deste âmbito, temos dois filmes que são quase o espelho um do outro, do Ulrich Seidl, "Import Export" e o filme "It´s A Free World" do Ken Loach. Ambos falam de questões que são sobretudo das cidades europeias desde o princípio do século XXI, precariedade de emprego, fluxos migratórios entre países com níveis de desenvolvimento muito diferenciados, exploração do trabalho precário, exploração da mão de obra ilegal.

São duas visões muito desencantadas daquilo que podia ser só visto pelo lado positivo, a facilidade de circulação de pessoas e bens dentro do território europeu, a liberdade ilusória que esconde os constrangimentos de uma real menor liberdade. Ambos os filmes reflectem isso, essencialmente os novos pobres na sociedade europeia são os imigrantes.

O filme do Ken Loach é sobretudo sobre uma imigração vinda da Ásia e dos países da antiga europa do Leste, o filme do Ulrich Seidl centra-se nos fluxos migratórios entre a Aústria e a Ucránia e é uma visão muito, muito cruel, daquilo que são supostamente as grandes conquistas europeias do alargamento do espaço Europeu, onde nestes dois filmes é demonstrado o reverso, retratando estas realidades sem qualquer complacência. São filmes fortes em termos cinematográficos e tematicamente relevantes.

O Indie é uma "janela" para o mundo?

Essa visão tem estado sempre presente, a ideia de que um festival de cinema é cada vez mais também isso, uma experiência de mergulho em realidades culturais diferentes da nossa.

Este é um Festival com uma clara vocação universal e em que as questões, não por acaso estamos no Ano Europeu do Diálogo Intercultural, se põem de forma particularmente viva e aguda. O festival acaba por ser também uma experiência de viagem por outras geografias, outras experiências de vida, e acaba por funcionar como um mediador entre culturas, entre experiências e entre realidades bastante diferentes daqueles que em Lisboa o português do século XXI estará habituado. É importante olhar o outro, pensar também pela cabeça do outro ajuda-nos a situar-nos melhor como pessoas, como cidadãos.

(...)

Resto dossier

IndieLisboa, festival do cinema independente

Começa esta semana (de 24/4 a 3/5) a quinta edição do festival de cinema independente IndieLisboa. Com uma programação muito completa e variada, procurando sempre fugir do óbvio, o IndieLisboa é uma oportunidade de ouro para tomar contacto com filmes que muitas vezes estão afastados dos circuitos comerciais que monopolizam as salas de cinema. Para este dossier sobre o IndieLisboa ouvimos um dos seus programadores, Nuno Sena.

Destaque: "Import Export", filme de Ulrich Seidl

"Import Export" (Importação Exportação) mostra uma das facetas da transformação da Europa, revelando muito sobre o lado mais negro de uma nova realidade social e económica marcada pelos fluxos migratórios entre a Europa Ocidental e a de Leste.

Destaque: It´s A Free World, filme de Ken Loach

O filme de encerramento do IndieLisboa é "It´s A Free World" (É Um Mundo Livre), de Ken Loach, que retrata a degradação do sistema social europeu, não apenas para os que chegam ao continente como imigrantes, mas também para os que já cá vivem.

Conheça a programação do IndieLisboa

Para conhecer a programação completa do IndieLisboa, faça aqui o download do jornal em PDF, ou siga estes links para o site oficial do festival para conhecer a programação das suas diferentes secções: Competição Internacional, Competição Nacional , Observatório, Laboratório, Herói Independente, Director´s Cut, IndieMusic, IndieJúnior, Sessões especiais.

Nuno Sena (3): "Um festival de cinema independente tem de reflectir sobre o mundo em que é feito

Na conclusão da entrevista, Nuno Sena chama a atenção para dois filmes que abordam questões como a precariedade de emprego, os fluxos migratórios entre países com níveis de desenvolvimento muito diferenciados, a exploração da mão de obra ilegal: "Import Export", de Ulrich Seidl, e "It´s A Free World", de Ken Loach.

Nuno Sena (2): "O Indie tenta sempre fugir do óbvio"

Nesta segunda parte da entrevista, Nuno Sena fala sobre a forma como o IndieLisboa está estruturado, de forma a facilitar a consulta dos rpogramadores e o acesso do público. Mas insiste: o Indie tem como critério fugir do óbvio. "Não apanham o IndieLisboa a fazer uma retrospectiva de um autor, mesmo que gostemos muito dele, que esteja muito divulgado no mercado português."

Nuno Sena (1): "O cinema independente é mais livre de constrangimentos comerciais"

O Esquerda.net entrevistou Nuno Sena, um dos programadores do IndieLisboa sobre a história deste festival que já vai na sua quinta edição, os seus objectivos e a razão do seu sucesso. Nuno Sena foi assistente da direcção do Instituto Português da Arte Cinematográfica e Audiovisual/IPACA (depois ICAM) entre Abril de 1996 e Junho de 1998; dirigiu o Departamento de Exposição Permanente da Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema entre Agosto de 1998 e Junho de 2003 e integrou a direcção e o comité de programação do doclisboa entre 2004 e 2006.