You are here

Trabalho, Suor e Lágrimas

Orgulho-me deste trabalho, feito com muito esforço e dedicação...
Hoje não seria capaz de o iniciar e de o fazer. Não teria tempo.
E isso faz de mim uma professora indignada que participará, pela primeira vez, numa manifestação de rua, no próximo dia 8 de Março, em Lisboa.
Basta.

Publicada por Anabela Magalhães

Estou farta de pensar que pertenço a uma classe sui generis. Paciente, pacífica, empenhada, trabalhadora, que gosta daquilo que faz apesar de mal paga, que resiste a mudanças e mais mudanças nas regras e nos costumes, a mais das vezes para pior, que é quantas vezes amesquinhada pela tutela, e que permanece na profissão, num exercício próximo do masoquismo. Sim, eu sei, alguns de nós são uma balda. Não tenho estatísticas sobre o assunto, mas serão seguramente poucos, uma minoria muito minoritária. E sim, mesmo minoritários são demasiados. Não tenho estatísticas sobre o que afirmo, mas tenho a experiência de ter assistido todos estes anos que já levo de profissão, e que são já muitos, a muitas práticas e a muitas conversas entre professores de facto preocupados com a aprendizagem dos seus alunos, com o bem-estar dos seus alunos, com o apoio que dão aos seus alunos e quantas vezes aos pais dos seus alunos, e que se estende muito para além da sala de aula, agora também através do sms, desfazendo dúvidas antes dos testes ou durante a realização de um qualquer trabalho, "ouvindo-os" em desabafos, dando-lhes atenção, carinho e força para permanecerem na escola, para permanecerem por cá, aconselhando-os quando eles precisam, enfim, desempenhando um papel muitas vezes confessional e assistencial que nos leva a suspender o nosso trabalho de casa, seja ele de que tipo for, até para a escola, elaborando testes, fichas diversas, planificações, actas de reuniões, relatórios, justificações de negativas, na minha escola uma por cada negativa atribuída, etc, etc, etc, suspendendo até por vezes a própria família.

É neste grupo que eu me incluo e deve ser por isso que a minha filha desde pequenina, à costumeira pergunta "Que queres ser quando fores grande?" respondeu sempre "Professora nunca!" Também deve ser por pertencer a esta categoria de professores que por várias vezes ouvi a minha filha dizer-me em tom de desagrado "Não sei porque não levas o colchão para a escola!" tal a carga de reuniões que já tive de suportar.

Mas tudo isto se fez, de sorriso pronto para os nossos alunos. Até agora, em que não está a ser mais possível aguentar a revolta e o desagrado de me saber no topo da carreira aos 46 anos já que, por opção, nunca me candidatarei à carreira de Professor Titular. Não sou burocrata. Se fosse ter-me-ia filiado há muito num qualquer partido político e teria feito carreira à custa de um qualquer cartão, rosa ou laranja, ou mesmo de uma outra cor qualquer. Escolhi ser professora pelos meus alunos e não abdico deles. É por eles que trabalho e entro todos os dias na minha escola, no meu espaço sagrado que é a sala de aula. Foi por isso que, bem antes de toda esta macacada que me está a prejudicar o trabalho, iniciei um projecto pessoal, com o apoio da minha família e dos amigos que me aturam, e que pode ser visitado em

http://anabelapmatias.googlepages.com/home

Orgulho-me deste trabalho, feito com muito esforço e dedicação, à custa de horas e mais horas, e mais horas e mais horas, do meu tempo. Partilho-o. Porque ser professor também é isto. Sou uma entre muitos. Exausta. Exaustos.

Hoje não seria capaz de o iniciar e de o fazer. Não teria tempo.

E isso faz de mim uma professora indignada que participará, pela primeira vez, numa manifestação de rua, no próximo dia 8 de Março, em Lisboa.

Basta.

29 de Fevereiro de 2008

(...)

Resto dossier

Dossier Educação em polvorosa na blogosfera

Os professores fazem ouvir a sua revolta em todo o país. Na blogosfera a indignação transbordou: denúncia da política de educação do governo, defesa da escola pública, debate de ideias, mobilização de vontades. Neste dossier, o esquerda.net divulga posts e blogues da indignação.

O exemplo de um Instrumento de Registo lamentável

Repare-se... no item "atitudes": (Verbaliza a sua insatisfação / satisfação face a mudanças ocorridas no Sistema Educativo / na Escola através de críticas destrutivas potenciadoras de instabilidade no seio dos seus pares:
Incluir itens expressos desta maneira é estimular a caça às bruxas e impor, de forma autoritária, a censura pedagógica e o diktat oficial do politicamente correcto.

Lista de Blogues

Apresentamos aqui uma listagem de 41 blogues, onde pulsa a indignação.

Paradoxo

Nunca aqui neste blog se afirmou que todos os professores eram excelentes ou muito bons. Pelo contrário, já afirmei muitas vezes que há professores incompetentes, como em qualquer profissão há incompetentes.
Cartelado por brit em O Cartel

Professores de luto na escola

António Duarte Morais, do Agrupamento de Escolas de Eixo, escreveu numa carta a todos os professores: «todos os dias irei para a escola vestindo uma T-Shirt preta com a seguinte inscrição em letras brancas na parte da frente: "Estou de luto pela Educação" e na parte detrás da mesma "Estou em luta pela Educação".

Trabalho, Suor e Lágrimas

Orgulho-me deste trabalho, feito com muito esforço e dedicação...
Hoje não seria capaz de o iniciar e de o fazer. Não teria tempo.
E isso faz de mim uma professora indignada que participará, pela primeira vez, numa manifestação de rua, no próximo dia 8 de Março, em Lisboa.
Basta.

Assim como que uma espécie de diarreia legislativa

A Ministra da Educação divide os professores, toma medidas que lançam uns professores contra outros e dá a entender à opinião pública que os professores não querem ser avaliados, faltam muito, estão agarrados à escola de antigamente, etc.
Publicada por Ramiro Marques

Ensino especial... puxei por um fiozinho e pronto, não consegui conter a teia

Parece-me também leviano achar que com umas horas de formação (que nunca podem ser muitas... está onde o tempo?) ficamos preparados para acompanhar qualquer tipo de diferença (e de diferença dentro de cada diferença), à medida que for sendo necessário lidar com elas. É não ter a noção da realidade. É não conhecer, ignorar, desrespeitar o direito a uma educação de qualidade para todas as crianças. TODAS. É disso que trata a inclusão.

Pela defesa do ensino artístico

Há exactamente um ano atrás o MovArte é constituído para denunciar e travar as iniciativas da presente ministra da educação de "reformar" e "democratizar" o ensino artístico. Depois de um ano de mobilização e apresentação de propostas alternativas por parte do MovArte a ministra da educação, sem consultar professores, pais e alunos, apresentou esta semana a sua vontade de extinguir unilateralmente o ensino supletivo.

Os “recados” de Sócrates aos professores

Apoiei Sócrates para Secretário Geral, sou militante e autarca do PS e quero que o partido ganhe as eleições em 2009. Mas também sou professor e técnico de educação (...)
Nestas duas qualidades tenho obrigação de levantar a voz quando os professores são ofendidos e de chamar a atenção para o que, em minha opinião e na opinião de muitos mais, está a ser feito de errado em matéria de reformas educativas (...)

Manifesto Escola Pública pela Igualdade e Democracia

A Escola Pública é uma conquista de que a esquerda só se pode orgulhar. Mas esta conquista está hoje esvaziada de quaisquer valores emancipadores. Atacada por todos os lados pela Direita e pela agenda neoliberal, a escola pública está em crise.

Dos factos e das evidências para compreender o tempo que passa

Para compreender o facto evidente de um grande número de professores (ninguém sabe ao certo quantos, que percentagem....) estar desalentado, esgotado, descrente e descontente, é preciso lembrar um conjunto de decisões que intensificaram, desautorizaram, retiraram direitos e limitaram severamente as expectativas profissionais.

Dúvidas

Gostaria de saber, Senhora Ministra, quando é que eu vou ter tempo e sanidade mental para poder preparar convenientemente as minhas aulas, quando é que eu vou ter tempo para corrigir os testes e fichas de trabalho e trabalhos dos meus alunos...

A Legislação Como Truque Político: O Novo Modelo de Gestão

É sempre emocionante observar a forma de legislar do ME quando tenta fazer aquilo que não quer que se perceba que está a fazer. É sempre interessantes analisar, preto no branco, a fórmula que o ME imaginou para transformar 50% em menos de 50%, enquanto dá a sensação de ser mesmo 50%. Isso e outros detalhes.

O Não Professor do Ano

Faço projectos, planos, planificações;
Sou membro de assembleias, conselhos, reuniões;
Escrevo actas, relatórios e relações...

Defende a profissão

Cerca de 500 professores juntaram-se nas Caldas da Rainha no passado dia 23 de Fevereiro e decidiram criar uma associação; que se virá a chamar Associação em Defesa do Ensino ou Associação em Defesa da Educação.
O movimento foi lançado inicialmente por professores de Mafra, Sintra e Cascais.
O seu blogue Defende a profissão foi decisivo na criação deste movimento, de que publicamos aqui o manifesto.