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Palestina dividida

No dia 13 de Junho, o Hamas hasteou as bandeiras verdes do movimento num dos últimos bastiões da Fatah na Cidade de Gaza, o Quartel General de Segurança Preventiva, concluindo a operação militar que o levou a assumir o controlo total da Faixa de Gaza e a expulsar as forças fiéis ao presidente palestiniano Mahmud Abbas e à Fatah do território. Entretanto, a Fatah tentava assegurar o controlo da Cisjordânia, iniciando uma campanha de detenção de cerca de 1500 militantes do Hamas.

Consumou-se desta forma a divisão dos territórios palestinianos entre uma Gaza controlada pelo Hamas e uma Cisjordânia controlada pela Fatah. No dia seguinte, Mahmud Abbas demitiu o governo de unidade entre o Hamas e a Fatah, cujo primeiro-ministro era o líder do Hamas, Ismail Haniyeh, proclamando o "estado de emergência" nos territórios palestinianos.

Em 16 de Junho, Haniyeh, o vencedor das últimas eleições, afirmou que não reconhecia o novo executivo nomeado por Abbas e liderado por Salam Fayyad, um tecnocrata que no dissolvido Governo de unidade era o titular do Ministério das Finanças. Haniyeh esclareceu não querer um Estado separado na Faixa de Gaza.

Haniyeh afirmou que o seu governo era o único legítimo, porque emanava do Parlamento eleito democraticamente, e que, por isso, iria continuar o seu trabalho. Haniyeh recusou-se a equiparar o controlo de Gaza a um golpe de estado e rejeitou a criação de um Estado na Faixa de Gaza, separado da Cisjordânia, mostrando-se favorável a uma "amnistia geral" na sequência dos confrontos que fizeram 116 mortos e 550 feridos.

Ao mesmo tempo, a nomeação de Salam Fayyad era bem acolhida pelo Ocidente. Numa reunião de emergência, os dirigentes do Quarteto para o Médio Oriente (EUA, Rússia, União Europeia e ONU) enviaram uma "clara mensagem de apoio" a Abbas.

No mesmo dia, em Gaza, milhares de palestinianos saíram às ruas em diferentes pontos da Faixa de Gaza, para comemorar a "vitória" do Hamas.

No dia 17 de Junho, ao mesmo tempo em que apresentava o novo governo palestiniano, composto por 14 ministros, nenhum deles do Hamas, Abbas emitia dois importantes decretos: um que permitia ao novo executivo governar sem a aprovação do parlamento em que o Hamas tinha a maioria; outro que determinava a ilegalização do movimento islâmico, "por terem levado a cabo uma rebelião armada contra a legitimidade palestiniana e as suas instituições".

Israel entretanto apertava o embargo a Gaza. "Israel reforçará o isolamento da Faixa de Gaza e não vai deixar passar nada, excepto electricidade e água", afirmou à rádio militar Ben Eliezer, membro do gabinete de segurança.

No dia 18 de Junho, os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia e o governo dos EUA decidiram retomar a ajuda directa ao novo governo palestiniano, ao mesmo tempo que a Faixa de Gaza continuava com as fronteiras fechadas.

No mesmo dia, o Irão denunciava o novo governo como contrário à democracia e a Rússia pedia a Fayyad que dialogasse com todas as forças palestinianas, incluindo o Hamas.

Para o activista de direitos humanos e analista isrelense Uri Avnery, o momento escolhido pelo Hamas para ocupar Gaza não foi acidental. "Os líderes do Hamas decidiram que não tinham alternativa senão destruir as organizações que têm ligações à Fatah e que recebem ordens de Mahmoud Abbas. Os EUA ordenaram a Israel que fornecesse a estas organizações quantidades generosas de armas, para que pudessem combater o Hamas. Aos olhos desta organização, o ataque aos fortes da Fatah na Faixa de Gaza foi uma guerra preventiva. As organizações de Abbas e Dahlan derreteram como neve sob o sol palestiniano. O Hamas tomou, facilmente, a Faixa de Gaza."

A 25 de Junho, a organização Oxfam alertou para a crise humanitária em Gaza, condenando o bloqueio israelita e alertando para o risco de uma crise humanitária iminente, caso não fosse autorizada a distribuição de alimentos e medicamentos aos 1,3 milhões de habitantes do território. No dia 20 de Julho, os representantes dos EUA, ONU, União Europeia e Rússia disseram ser favoráveis à criação de um Estado Palestiniano estável, viável e que coexista com Israel, saudando a iniciativa de George W. Bush de promover no Outono conversações sobre a criação do Estado Palestiniano. O Hamas não foi sequer mencionado.

No dia 13 de Agosto, uma comissão parlamentar britânica avisou que o boicote ao Hamas é contraproducente. A comissão afirmou que a política baptizada de "Cisjordânia antes", que prioriza as relações com a Fatah e isola o Hamas, apenas terá como consequência piorar as perspectivas de paz. Na semana seguinte, um porta-voz do Hamas, Mousa Abu Marzook, afirmou no diário britânico The Guradian que o Hamas estava pronto para o diálogo: "O partido de Abbas não representa democraticamente os palestinianos, e o que está em curso neste momento é uma ditadura na Cisjordânia, saudada com agrado por Israel e pelos seus aliados ocidentais. A duplicidade da situação é vergonhosa. Israel e os seus aliados foram rápidos a dispensar o Hamas e os governos de unidade nacional, isolando ambos, e estão neste momento a ser igualmente rápidos a aplaudir um governo ilegalmente formado e auto-proclamado 'governo dos palestinianos'. Será isto a democracia?"

No dia 3 de Setembro, Mahmud Abbas publicou uma nova lei eleitoral que prejudica o Hamas e beneficia a Fatah. A lei prevê a anulação dos círculos distritais (onde o Hamas tem mais força), e que todos os candidatos presidenciais e parlamentares reconheçam a Organização de Libertação da Palestina - dominada pela Fatah - como o "único representante legítimo" do povo palestiniano.

Entretanto, o dirigente mais popular da Fatah, preso em Israel há já cinco anos, Marwan Barghouti, teceu duras críticas ao seu partido e à conferência internacional de paz convocada pelos Estados Unidos com o acordo do Presidente Abbas. Barghouti acusou a Fatah por não ter "aprendido a lição" com a tomada da Faixa de Gaza pelo Hamas, e apelou à Fatah para que convocasse uma assembleia extraordinária para renovar o Comitê Executivo e o Conselho Revolucionário, de modo a que o movimento estivesse preparado para qualquer nova "eleição legislativa ou presidencial".

O Hamas rejeitou a nova legislação eleitoral, considerando-a "ilegal". O presidente "não tem o direito de fazer modificações na lei palestiniana nem de organizar eleições sem o consentimento do Hamas", declarou um porta-voz do movimento.

A tão esperada conferência de Paz de Annapolis, realizada em 28 de Novembro, decidiu apenas o regresso à mesa de negociações, desenvolvendo esforços para que um acordo esteja concluído até o fim de 2008. Em Gaza, convocados pelo Hamas, dezenas de milhares de pessoas manifestaram-se no contra a conferência. O primeiro-ministro deposto, Ismail Haniyeh, disse que "a conferência de Annapolis vai ser um Outono sem frutos".

No dia 2 de Dezembro, o governo israelita libertou 429 prisioneiros palestinianos, como demonstração de "boa vontade" No entanto, Mustafa Barghouthi, secretário-geral da Iniciativa Nacional Palestiniana, denunciou que desde a última libertação de presos, em 1 de Outubro, Israel prendeu 808 palestinianos, incluindo 22 crianças. "Isto significa que a libertação de 429 presos sequer significa um regresso à situação de dois meses antes. O número total de prisioneiros palestinianos está, de facto, a aumentar."

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Resto dossier

Mundo em 2007

Da França à Venezuela, da Palestina ao Irão, passando pela questão ambiental, por Timor ou pela Polónia, aqui fica uma possível memória do Mundo em 2007.

Líbano: crise sem fim à vista

Beirute amanheceu no dia 23 de Janeiro completamente paralisada por barricadas de pneus em chamas e confrontos entre apoiantes e opositores do primeiro-ministro Fouad Siniora, do Líbano. Uma greve geral foi convocada pelos líderes da oposição, entre eles Hassan Nasrallah, do Hezbollah, com o apoio dos sindicatos, para pedir um novo governo de unidade nacional que tivesse um terço mais um do número de pastas para a oposição, o que lhe daria o poder de veto sobre as decisões governamentais.

Venezuela: Chávez derrotado pela primeira vez nas urnas

O "não" venceu o referendo à reforma constitucional realizado no dia 2 de Dezembro na Venezuela com 51%, contra 49% do "sim" defendido pelo presidente Hugo Chávez. O resultado apanhou muitos desprevenidos, como os jornais Estado de S. Paulo, do Brasil, ou o Público, de Portugal, que optaram por acreditar nas pesquisas à boca da urna e antecipar uma vitória do "sim" que não ocorreu.

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Dois passos cruciais contra o vírus da SIDA

Em Fevereiro e Abril de 2007 foram publicados dois estudos que trazem novas esperanças no combate ao vírus da SIDA. Ambas as descobertas, uma publicada na revista Nature e a outra na revista Cell, centram-se na identificação de proteínas, presentes no sangue humano, capazes de bloquear a ligação do HIV às células do sistema imunitário, em vez das investigações mais clássicas que apenas incidiam na inibição da replicação do vírus, e a partir de substâncias não originárias do sangue humano. Artigo no dossier Balanço Internacional 2007

A ameaça das alterações climáticas

O ano de 2006 fez soar o alarme, com o Relatório Stern, mas foi em 2007 que o mundo começou a conviver plenamente com a ameaça das alterações climáticas. Lentamente, a população planetária foi tomando consciência de que a situação é muito grave. Os dados alarmantes foram-se acumulando e as medidas para tentar evitar a catástrofe parecem lentas, demasiado lentas, e ineficazes, demasiado ineficazes.

Howard, o grande aliado de Bush, é derrotado na Austrália

A derrota do primeiro-ministro John Howard nas eleições da Austrália de 24 de Novembro foi também uma derrota do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e uma demonstração do seu isolamento internacional. Com efeito, Howard era um dos últimos aliados ferrenhos de Bush na guerra do Iraque, e acompanhava até o presidente norte-americano na recusa a assinar o Protocolo de Quioto.

França: greve nos transportes enfrenta Sarkozy

No dia 12 de Novembro, os transportes paralisaram em França, numa greve convocada pelos sindicatos do sector contra a intenção do governo Sarkozy de aumentar o período de descontos necessário para a reforma dos trabalhadores abrangidos por regimes especiais, cerca 1,6 milhão de pessoas. A 18 de Outubro já ocorrera uma primeira greve de 24 horas. A greve, que duraria 10 dias, foi o primeiro confronto social com que se defrontou Sarkozy desde que foi eleito Presidente da República. 

França: Sarkozy eleito presidente

Nicolas Sarkozy, o candidato da União por um Movimento Popular (UMP), de direita, foi eleito Presidente da República francesa com 53,06% dos votos no dia 6 de Maio, data do segundo turno das eleições presidenciais. Ségolène Royal, a candidata do PS que disputava com ele, obteve 46,94%. A participação nas eleições rondou os 85%.

Paquistão: a sublevação dos advogados

A 9 de Março, o presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, suspendeu o chefe do Supremo Tribunal, Iftikhar Chaudhry. O magistrado não era conhecido por activismo judicial, mas tornara-se muito incómodo pelas sentenças contra o governo num grande número de questões importantes, incluindo a apressada privatização da Karachi Steel Mills, a aceitação de que fosse levada a tribunal a questão dos activistas políticos "desaparecidos" e a atitude de levar a sério as vítimas de violação.

A Austrália vence em Timor

Em Timor, 2007 foi o ano da "consolidação democrática" do golpe de Estado iniciado em 2006 com a conivência da Austrália e contra o "nacionalismo económico" de Mário Alkatiri. Ramos Horta e Xanana Gusmão, os principais aliados da política australiana, conquistaram os lugares de Presidente da República e Primeiro-Ministro. Horta venceu as eleições claramente impondo a primeira derrota nas urnas à Fretilin. A 30 de Junho, Xanana não precisou de ganhar as legislativas para mesmo assim se sentar na cadeira do poder. Entretanto, o criminoso Alfredo Reinado continua a monte, recebendo salário do Estado. 

O passeio interminável de Putin

A 2 de Dezembro, o partido de Vladimir Putin voltou a vencer de forma categórica as eleições legislativas russas. Dada a popularidade deste ex-chefe do KGB, nem sequer teriam sido necessárias as inúmeras irregularidades que marcaram o processo eleitoral para conquistar a vitória. O ano na Rússia ficou também marcado pelos ataques à liberdade de expressão, a prisão de membros da oposição, e a proibição de manifestações. Nada que tenha afectado Putin, que se prepara para continuar no poder, deixando a Presidência - já cumpriu dois mandatos, o máximo permitido - e assumindo o cargo de Primeiro Ministro. 

Grécia: das catástofres naturais à Greve Geral

Manifestações massivas de estudantes, incêndios, eleições, cheias, greve geral. Sem dúvida que a Grécia viveu um ano conturbado. A direita, no poder desde 200 - depois de 11 anos de governos "socialistas" - resisitiu ao desgaste provocado pelos incêndios que vitimaram 66 pessoas e a 16 de Setembro voltou a vencer as eleições legislativas com maioria absoluta. Mas os protestos sociais continuam fortes, e exemplo disso é a greve geral que a 12 de Dezembro paralisou todos os sectores vitais do país. 

Polónia: do obscurantismo ao neoliberalismo feroz

Há muitos anos que a Polónia não tinha tanto destaque internacional. Pena que tenha sido pelos piores motivos: as medidas ultra conservadoras e moralistas dos gémeos Kaczynski povoaram com frequência os jornais no ano de 2007. Frenesim que parece ter terminado com a vitória do partido de centro-direita Plataforma Cívica, a 21 de Outubro. O novo primeiro-ministro, que sucede a Jaroslaw Kaczynski, anunciou a boa nova da retirada das tropas polacas do Iraque, embora a nível económico e social se prepare para uma campanha de privatizações. 

Birmânia: nas ruas contra a ditadura

Já foi chamada de Revolução de Açafrão, da cor das roupas dos monges budistas que estiveram no centro de muitas das mobilizações deste Verão. Infelizmente, os protestos contra o regime que governa a Birmânia (também chamada Myanmar), duramente reprimidos, não tiveram sucesso: apesar de abalada, a ditadura militar que reina no país desde 1962 aguentou-se de pé. Iniciados em Agosto, os protestos contra a decisão do governo, de 15 de Agosto, de extinguir os subsídios aos combustíveis - provocando uma disparada dos preços dos artigos de primeira necessidade - ganharam grande dimensão mas foram esmagados por uma reacção repressiva do regime, que começou a 26 de Setembro.

O Irão e o nuclear

No dia 23 de Março, as forças iranianas capturaram 15 fuzileiros navais britânicos no canal do Shatt al-Arab, na entrada do Golfo Pérsico, provocando uma crise diplomática num momento em que o Conselho de Segurança da ONU se preparava para avaliar novas sanções contra o Irão, devido à sua decisão de manter o programa de enriquecimento de urânio. Teerão afirmou que os fuzileiros confessaram ter violado as suas águas territoriais, mas o governo britânico afirmava que os seus marines estavam em águas territoriais do Iraque.