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Grécia: das catástofres naturais à Greve Geral

Manifestações massivas de estudantes, incêndios, eleições, cheias, greve geral. Sem dúvida que a Grécia viveu um ano conturbado. A direita, no poder desde 200 - depois de 11 anos de governos "socialistas" - resisitiu ao desgaste provocado pelos incêndios que vitimaram 66 pessoas e a 16 de Setembro voltou a vencer as eleições legislativas com maioria absoluta. Mas os protestos sociais continuam fortes, e exemplo disso é a greve geral que a 12 de Dezembro paralisou todos os sectores vitais do país.

O governo de direita tem enfrentado vários protestos sociais contra as suas medidas privatizadoras e neoliberais. O protesto dos estudantes foi um importante teste ao Primeiro Ministro, Costas Caramanlis. A luta dos estudantes começou ainda em 2006, contra o projecto de reforma universitária do Governo conservador. A nova lei, aprovada a 7 de Março de 2007, impõe um prazo para a conclusão dos cursos, acaba com a gestão democrática das universidades, permite à polícia entrar nas instituições de ensino superior e abre as portas à criação de universidades privadas, antes inexistentes na Grécia.

Depois de dois meses de greves e protestos variados tanto de estudantes como de professores, a lei acabou por ser aprovada com 164 votos a favor e 117 contra. Nesse dia, cerca de 10 mil estudantes manifestaram-se nas ruas das duas principais cidades gregas: Atenas e Salónica. Durante as manifestações ocorreram violentos confrontos com a polícia, tendo resultado em 10 feridos e 40 detidos.

Da agitação social à catástrofe natural. Em Agosto, a Grécia sofreu os piores incêndios dos últimos 30 anos, tendo o Governo declarado o estado de emergência. Morreram 66 pessoas, arderam 275 mil hectares, três mil pessoas ficaram sem casa e as autoridades estimaram os prejuízos em 1.200 milhões de euros. "A destruição é de proporções bíblicas", afirmou na altura um bombeiro, na região do Peloponeso.

Rapidamente a catástofre teve ecos no plano político, já que tanto a oposição como uma parte significativa da população acusou o Governo de falta de inércia, ineficácia, desleixo na prevenção e falta de coordenação dos serviços de socorro e de combate aos incêndios. Bastou um apelo por sms e pela internet para que mais de 10 mil pessoas comparecessem, em Atenas, numa manifestação que culpabilizava o Governo pelo país em chamas, a apenas duas semanas das eleições legislativas.

Apesar da descida nas sondagens, principalmente devido ao impacto negativo dos incêndios, a Nova Democracia (partido do Primeiro Ministro Costas Caramanlis) venceu de novo as eleições legislativas a 16 de Setembro, mantendo a maioria absoluta, apenas por um deputado. Os dois grandes partidos do sistema baixaram e os pequenos partidos aumentaram a sua representação parlamentar.

A Nova Democracia elegeu 152 deputados e obteve 41,85%, perdeu 13 deputados, pois tinha eleito 165, com 45,4% em 2004. O PASOK (Movimento socialista Pan-Helénico) perdeu 15 deputados, passando de 117 para 102, e de 40,5% para 38,11%. Ao contrário, o Partido Comunista elegeu 22 deputados (mais 10), passando de 5,9% para 8,15%. A Syrisa (Coligação de Esquerda Radical que pertence ao Partido da Esquerda Europeia) elegeu 14 deputados (mais 8), passando de 3,3% para 5,03%. O Alerta Popular Ortodoxo (extrema-direita) pela primeira vez ultrapassou o limite mínimo de 3% (obrigatório para eleger deputados na Grécia), elegendo 10 deputados, com 3,79%.

Foram precisos apenas mais dois meses para que o país voltasse a viver momentos difíceis. A Água que faltou para apagar milhares de incêndios no Verão, veio em força em Novembro para provocar das maiores cheias registadas no país. Muitas estradas foram cortadas, muitas aldeias foram evacuadas e muitas áreas foram completamente destruídas.

Quase um mês depois, a 12 de Dezembro, uma greve geral de trabalhadores paralisou o país durante 24 horas. Em causa estão os planos do Governo para avançar com a reforma da segurança social.

A mobilização foi lançada pela poderosa Confederação Geral dos Trabalhadores gregos (GSEE, 600 mil membros) e a Federação dos Funcionários (Adedy, 200 mil membros) que conseguiram paralisar os serviços públicos (tribunais, escolas, hospitais, etc.), os bancos, e os transportes urbanos, marítimos, ferroviários e aéreos.
O país ficou também totalmente privado de cobertura noticiosa, dado que os sindicatos dos jornalistas aderiram à paralisação. As três elevisões estatais apenas transmitiram um texto de apoio à greve.

Em Atenas, de acordo com a polícia, manifestaram-se 80 mil pessoas. Um dos prinicpais sindicatos que convocou a greve afirmou que esta foi a maior mobilização social da história da Grécia.

O Governo pretende unificar os 170 fundos de pensões estatais (reduzindo-os a oito) e os sindicatos afirmam que essa medida vai originar a diminuição drástica das pensões, o aumento da idade da reforma e mais despedimentos no sector público.

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Resto dossier

Mundo em 2007

Da França à Venezuela, da Palestina ao Irão, passando pela questão ambiental, por Timor ou pela Polónia, aqui fica uma possível memória do Mundo em 2007.

Palestina dividida

No dia 13 de Junho, o Hamas hasteou as bandeiras verdes do movimento num dos últimos bastiões da Fatah na Cidade de Gaza, o Quartel General de Segurança Preventiva, concluindo a operação militar que o levou a assumir o controlo total da Faixa de Gaza e a expulsar as forças fiéis ao presidente palestiniano Mahmud Abbas e à Fatah do território. Entretanto, a Fatah tentava assegurar o controlo da Cisjordânia, iniciando uma campanha de detenção de cerca de 1500 militantes do Hamas.

Dois passos cruciais contra o vírus da SIDA

Em Fevereiro e Abril de 2007 foram publicados dois estudos que trazem novas esperanças no combate ao vírus da SIDA. Ambas as descobertas, uma publicada na revista Nature e a outra na revista Cell, centram-se na identificação de proteínas, presentes no sangue humano, capazes de bloquear a ligação do HIV às células do sistema imunitário, em vez das investigações mais clássicas que apenas incidiam na inibição da replicação do vírus, e a partir de substâncias não originárias do sangue humano. Artigo no dossier Balanço Internacional 2007

Líbano: crise sem fim à vista

Beirute amanheceu no dia 23 de Janeiro completamente paralisada por barricadas de pneus em chamas e confrontos entre apoiantes e opositores do primeiro-ministro Fouad Siniora, do Líbano. Uma greve geral foi convocada pelos líderes da oposição, entre eles Hassan Nasrallah, do Hezbollah, com o apoio dos sindicatos, para pedir um novo governo de unidade nacional que tivesse um terço mais um do número de pastas para a oposição, o que lhe daria o poder de veto sobre as decisões governamentais.

Venezuela: Chávez derrotado pela primeira vez nas urnas

O "não" venceu o referendo à reforma constitucional realizado no dia 2 de Dezembro na Venezuela com 51%, contra 49% do "sim" defendido pelo presidente Hugo Chávez. O resultado apanhou muitos desprevenidos, como os jornais Estado de S. Paulo, do Brasil, ou o Público, de Portugal, que optaram por acreditar nas pesquisas à boca da urna e antecipar uma vitória do "sim" que não ocorreu.

Howard, o grande aliado de Bush, é derrotado na Austrália

A derrota do primeiro-ministro John Howard nas eleições da Austrália de 24 de Novembro foi também uma derrota do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e uma demonstração do seu isolamento internacional. Com efeito, Howard era um dos últimos aliados ferrenhos de Bush na guerra do Iraque, e acompanhava até o presidente norte-americano na recusa a assinar o Protocolo de Quioto.

A ameaça das alterações climáticas

O ano de 2006 fez soar o alarme, com o Relatório Stern, mas foi em 2007 que o mundo começou a conviver plenamente com a ameaça das alterações climáticas. Lentamente, a população planetária foi tomando consciência de que a situação é muito grave. Os dados alarmantes foram-se acumulando e as medidas para tentar evitar a catástrofe parecem lentas, demasiado lentas, e ineficazes, demasiado ineficazes.

Paquistão: a sublevação dos advogados

A 9 de Março, o presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, suspendeu o chefe do Supremo Tribunal, Iftikhar Chaudhry. O magistrado não era conhecido por activismo judicial, mas tornara-se muito incómodo pelas sentenças contra o governo num grande número de questões importantes, incluindo a apressada privatização da Karachi Steel Mills, a aceitação de que fosse levada a tribunal a questão dos activistas políticos "desaparecidos" e a atitude de levar a sério as vítimas de violação.

França: greve nos transportes enfrenta Sarkozy

No dia 12 de Novembro, os transportes paralisaram em França, numa greve convocada pelos sindicatos do sector contra a intenção do governo Sarkozy de aumentar o período de descontos necessário para a reforma dos trabalhadores abrangidos por regimes especiais, cerca 1,6 milhão de pessoas. A 18 de Outubro já ocorrera uma primeira greve de 24 horas. A greve, que duraria 10 dias, foi o primeiro confronto social com que se defrontou Sarkozy desde que foi eleito Presidente da República. 

França: Sarkozy eleito presidente

Nicolas Sarkozy, o candidato da União por um Movimento Popular (UMP), de direita, foi eleito Presidente da República francesa com 53,06% dos votos no dia 6 de Maio, data do segundo turno das eleições presidenciais. Ségolène Royal, a candidata do PS que disputava com ele, obteve 46,94%. A participação nas eleições rondou os 85%.

O passeio interminável de Putin

A 2 de Dezembro, o partido de Vladimir Putin voltou a vencer de forma categórica as eleições legislativas russas. Dada a popularidade deste ex-chefe do KGB, nem sequer teriam sido necessárias as inúmeras irregularidades que marcaram o processo eleitoral para conquistar a vitória. O ano na Rússia ficou também marcado pelos ataques à liberdade de expressão, a prisão de membros da oposição, e a proibição de manifestações. Nada que tenha afectado Putin, que se prepara para continuar no poder, deixando a Presidência - já cumpriu dois mandatos, o máximo permitido - e assumindo o cargo de Primeiro Ministro. 

A Austrália vence em Timor

Em Timor, 2007 foi o ano da "consolidação democrática" do golpe de Estado iniciado em 2006 com a conivência da Austrália e contra o "nacionalismo económico" de Mário Alkatiri. Ramos Horta e Xanana Gusmão, os principais aliados da política australiana, conquistaram os lugares de Presidente da República e Primeiro-Ministro. Horta venceu as eleições claramente impondo a primeira derrota nas urnas à Fretilin. A 30 de Junho, Xanana não precisou de ganhar as legislativas para mesmo assim se sentar na cadeira do poder. Entretanto, o criminoso Alfredo Reinado continua a monte, recebendo salário do Estado. 

Polónia: do obscurantismo ao neoliberalismo feroz

Há muitos anos que a Polónia não tinha tanto destaque internacional. Pena que tenha sido pelos piores motivos: as medidas ultra conservadoras e moralistas dos gémeos Kaczynski povoaram com frequência os jornais no ano de 2007. Frenesim que parece ter terminado com a vitória do partido de centro-direita Plataforma Cívica, a 21 de Outubro. O novo primeiro-ministro, que sucede a Jaroslaw Kaczynski, anunciou a boa nova da retirada das tropas polacas do Iraque, embora a nível económico e social se prepare para uma campanha de privatizações. 

Grécia: das catástofres naturais à Greve Geral

Manifestações massivas de estudantes, incêndios, eleições, cheias, greve geral. Sem dúvida que a Grécia viveu um ano conturbado. A direita, no poder desde 200 - depois de 11 anos de governos "socialistas" - resisitiu ao desgaste provocado pelos incêndios que vitimaram 66 pessoas e a 16 de Setembro voltou a vencer as eleições legislativas com maioria absoluta. Mas os protestos sociais continuam fortes, e exemplo disso é a greve geral que a 12 de Dezembro paralisou todos os sectores vitais do país. 

Birmânia: nas ruas contra a ditadura

Já foi chamada de Revolução de Açafrão, da cor das roupas dos monges budistas que estiveram no centro de muitas das mobilizações deste Verão. Infelizmente, os protestos contra o regime que governa a Birmânia (também chamada Myanmar), duramente reprimidos, não tiveram sucesso: apesar de abalada, a ditadura militar que reina no país desde 1962 aguentou-se de pé. Iniciados em Agosto, os protestos contra a decisão do governo, de 15 de Agosto, de extinguir os subsídios aos combustíveis - provocando uma disparada dos preços dos artigos de primeira necessidade - ganharam grande dimensão mas foram esmagados por uma reacção repressiva do regime, que começou a 26 de Setembro.

O Irão e o nuclear

No dia 23 de Março, as forças iranianas capturaram 15 fuzileiros navais britânicos no canal do Shatt al-Arab, na entrada do Golfo Pérsico, provocando uma crise diplomática num momento em que o Conselho de Segurança da ONU se preparava para avaliar novas sanções contra o Irão, devido à sua decisão de manter o programa de enriquecimento de urânio. Teerão afirmou que os fuzileiros confessaram ter violado as suas águas territoriais, mas o governo britânico afirmava que os seus marines estavam em águas territoriais do Iraque.