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"The final countdown", por José Manuel Pureza

Este foi o ano de um doloroso countdown na política norte-americana. Em perda crescente, o conservadorismo bushista exibe um estilo de fim-de-festa. A erosão política do grupo que rodeia George Bush foi de uma intensidade letal durante o ano que passou. O abandono do seu conselheiro político principal, Karl Rove, foi porventura o símbolo maior dessa desagregação do bushismo.

Artigo de José Manuel Pureza

O escândalo provocado pela decisão presidencial de comutação da pena a que havia sido condenado Lewis Libby, chefe de gabinete do vice-presidente Cheney por perjúrio, mais acentuou a débacle desta Administração aos olhos dos americanos.

Este foi também o ano do afundamento do atoleiro iraquiano. A prometida nova estratégia foi, como se sabia, coisa nenhuma. Bloqueados todos os canais de diálogo diplomático com interlocutores decisivos para a guerra (como a Síria ou o Irão), nada mais resta do que a contagem decrescente para a retirada e a sua execução sem grande aparato. Sintomaticamente, em Março passado, o Congresso adoptou uma decisão no sentido de que, a partir de Setembro de 2008, só os custos de retirada das tropas serão financiáveis... No terreno, o fracasso militar e político continua patente. E nem a momentânea acalmia das forças de Moqtada Al-Sadr disfarça o beco sem saída. Pelo meio, os planos de guerra contra o Irão ficaram seriamente hipotecados. O relatório das agências de espionagem norte-americanas foi um duche frio na espiral de dramatismo retórico que a Casa Branca vinha animando. Não será, pois, nem do Iraque nem do Irão que virá o prometido redesenho do puzzle do Médio Oriente. E daí também o sentido de Annapolis. Um presidente fraco e desacreditado na região junta dois presidentes fracos e desacreditados junto dos seus povos. A fraqueza não gerará força, certamente. Ficará somente o perfume do gesto, o alegado início de um "processo" - que, de trajectória para um fim se torna cada vez mais em fim em si mesmo. A divisão da Palestina e o apoio continuado à prepotência israelita são imagens de marca do posicionamento estratégico da administração Bush no Médio Oriente. Será esse o seu maior legado e não a cosmética benigna de Annapolis.

Este foi, enfim, o ano da evidenciação dos limites da alternativa democrática. A obsessão da moderação centrista aumenta à medida que se aproxima 4 de Novembro de 2008. Está fora de causa qualquer radicalização das diferenças de política externa relativamente aos republicanos. Na adopção da guerra como instrumento de afirmação hegemónica, na centralidade conferida aos cânones ideológicos da Organização Mundial do Comércio ou nas políticas concretas de relacionamento com a dissidência sul-americana, as vozes do Partido Democrático pautam-se por tons demasiadamente próximos dos da Casa Branca. E nem mesmo a dessintonia no domínio ambiental - de que a prestação de Gore na cimeira de Bali foi expressão - apaga essa noção de proximidade política.

2007 foi tudo isto. Mas foi também a continuação da falta de uma alternativa contra-hegemónica global, capaz de disputar o tom e o conteúdo das políticas de governação do mundo.

José Manuel Pureza

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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Resto dossier

Temas 2007

Neste dossier, oito textos sobre temas importantes em 2007: crise financeira, administração Bush, governo Sócrates, precariedade, política de saúde, ensino superior, evolução social em Portugal e referendo à despenalização do aborto.

Mais Desemprego, Precariedade e Flexigurança marcam o ano de 2007

A palavra «flexigurança» entrou-nos pela casa adentro no ano de 2007. Mas a flexibilidade e a precariedade já são muito elevadas: a população com emprego ou trabalho precário e os desempregados já representam no 2.º trimestre, 41,8% da população empregada. Com contratos precários temos 1,76 milhões de trabalhadores. Neste ano, o desemprego aumentou e a protecção social na situação de desemprego diminuiu.

Sócrates e o Ensino Superior: história de uma cruzada, por Teresa Alpuim

No ano de 2007 o governo Sócrates continuou a sua cruzada para retirar aos Portugueses o direito de ter acesso a um Ensino Superior com qualidade, como tão escrupulosa e valentemente já o tinha feito em 2006 com a campanha de Bolonha e outras aventuras, como a conquista do MIT (Massachussets Institute of Technology), essa mais ao estilo da "conquista" de Alcácer-Quibir, sempre capitaneado pelo valoroso Mariano Gago.

"The final countdown", por José Manuel Pureza

Este foi o ano de um doloroso countdown na política norte-americana. Em perda crescente, o conservadorismo bushista exibe um estilo de fim-de-festa. A erosão política do grupo que rodeia George Bush foi de uma intensidade letal durante o ano que passou. O abandono do seu conselheiro político principal, Karl Rove, foi porventura o símbolo maior dessa desagregação do bushismo.

2007: agravaram-se a pobreza e as desigualdades sociais, por José Casimiro

Portugal é o país da União Europeia onde a desigualdade entre ricos e pobres é maior.
Em Portugal, a pobreza continua a aumentar. Mais de 2,2 milhões de pobres, o que equivale a dizer que um em cada cinco portugueses vive em situação de pobreza. Este valor é significativamente superior ao da média europeia, 16%.

“Política de saúde em 2007, uma política sem remédio”, por João Semedo

O ano acaba como começou: com mais encerramentos de serviços de saúde. Fechou mais uma maternidade, mais uma urgência hospitalar e uma série de SAPs.
Fechar, fechar, fechar: é esta a imagem de marca deste governo. Onde há um problema, uma dificuldade, fecha-se. Foi assim o ano de 2007. Mais um passo no desmantelamento do SNS.

“É a pobreza, pá!” por Luís Fazenda

2007 parecia entrar bem com a despenalização do aborto, símbolo humanista e de género, arrancado em referendo, apesar do governo ter periclitado e do recém-eleito Cavaco ter ficado do lado da reacção, aonde pois?
Logo veio o cortejo de medidas do executivo, "reformas" para a ideologia dominante, perda de direitos sociais para a maioria dos cidadãos.

A “geração 500 euros” ganha nome, por Jorge Costa

2008 começa com uma precariedade recorde, mas começa depois de valiosas experiências feitas pelo precariado em 2007. Elas constituem sinais exemplares, mesmo se embrionários, de um movimento necessário em Portugal.
A luta contra a precariedade será uma corrida de fundo. Além de persistência, precisa de imaginação para inventar o seu percurso.

Nem o Pai Natal salva os mercados financeiros, por Francisco Louçã

É muito raro, mas os principais comentadores dos mercados financeiros internacionais parecem estar de acordo quanto a um prognóstico para 2008: está a chegar uma recessão nos Estados Unidos. Pior ainda, esta recessão irá ter como efeito a conjugação de recessões simultâneas nos Estados Unidos como na Europa, como no Japão e nos mercados asiáticos.

Referendo e Feminismos, por Manuela Tavares

Virou-se uma página na História das mulheres com a vitória do SIM no último dia 11 de Fevereiro. Fortes abraços, porque as palavras não chegavam, as lágrimas no canto dos olhos, a alegria estampada nos rostos. As mensagens a chegarem a cada minuto. Foi assim por todo o lado onde se festejou este tão bem merecido resultado.