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A sombra dos lobbies na saúde

A pressão dos lobbies deixa-se sentir a todos os níveis de decisão: no Parlamento Europeu e na Comissão Europeia, nos diferentes governos estatais, nos autonómicos e nos municipais.

Artigo de Miguel Jara, jornalista do Diagonal, publicado a 17/10/2007. Tradução de Adriana Lopera.  

Após quatro anos de investigação a conclusão do estudo Reflex, no qual participaram investigadores de 12 países europeus, é que as ondas electromagnéticas da telefonia móvel produzem alterações do ADN que transporta a informação genética nas células. Conclusões que se vêm juntar aos cerca de 3.000 estudos científicos sobre a contaminação electromagnética que emana dos telemóveis e das suas antenas emisoras-receptoras, das torres de alta tensão ou dos transformadores eléctricos. Mesmo assim, boa parte da população ainda acredita na inocuidade destas tecnologias.

Esta é se calhar uma das maiores vitórias protagonizadas por um sector industrial, o das telecomunicações, nos últimos anos: o desenvolvimento e popularização do telemóvel.
Mas, como conseguiu esta indústria tal ameaça para a saúde pública? O estudo Reflex foi financiado pela União Europeia mas a descoberta não deve ter agradado aos seus mentores, e após uma primeira publicação retiraram-se os fundos, mesmo tendo sido investidos 3,15 milhões de euros. Na verdade, pese a existência de muitas investigações que advertem sobre os perigosos efeitos das ondas electromagnéticas na nossa saúde, a maior parte são pagas pelas companhias eléctricas e das telecomunicações.

Estas investigações tentam explicar a inocuidade desta tecnologia ou minimizam os seus riscos. Tudo isso faz parte do trabalho dos lobbies ligados a estas companhias: criar confusão entre a população, uma confusão "documentada cientificamente". E enquanto os "peritos" decidem se os telemóveis são "bons" ou "maus" para o cidadão, as operadoras continuam a vendê-los, expandindo a sua rede de antenas telefónicas e criando novos serviços para seduzir os consumidores.

Cientistas perseguidos

Ao mesmo tempo em que isto acontece, os cientistas que fazem e publicam as suas fatais averiguações são sistematicamente perseguidos. O Centro de investigação Alonso de Santa Cruz, de Alcalá de Henares (Madrid), dirigido pelo Doutor José Luís Bardasano Rubio, tem realizado numerosos trabalhos e reuniões de grande nível sobre a contaminação eléctrica e magnética. Misteriosamente, foi encerrado em Novembro de 1999. Em janeiro de 2002 aconteceu algo parecido ao pioneiro na investigação sobre electromagnetismo, o francês Roger Santini, já falecido.

Em 2000, Cláudio Gómez Perretta, Chefe de Secção no centro de Investigação do Hospital Universitário La Fé de Valência e um dos investigadores mais prestigiados sobre os campos electromagnéticos, foi ameaçado, segundo o seu próprio testemunho, pela gerência do centro sanitário com uma falta grave se persistisse no seu empenho de continuar a investigar os campos electromagnéticos e as suas consequências sobre a saúde humana. O certo é que, finalmente, em 2002 foi retirado das suas investigações por ter difundido averiguações nada favoráveis para a indústria. Outro colega de Perretta, Manuel Portolés, explica em Conspirações Tóxicas que foi espiado através do seu computador pela empresa Telefónica, que o tem ameaçado com acções judiciais por realizar denúncias públicas sobre a atitude destas companhias.

Entretanto, o documentário Contracorrente, realizado há anos pela TVE, continua sem ser emitido. Nele, Javier Aguilera, ex-conselheiro delegado da Telefónica, reconhece publicamente: "Uma pessoa morre por 38.000 coisas. Que esta é mais uma delas? Olhe, indiscutível. Que é mais uma causa mesmo para os que não usam telemóveis? Indiscutível. E os que usam telemóvel não deviam conhecer este factor? Sem dúvida". Fica claro?

O silêncio contamina-se

A compra do silencio é outro trabalho habitual dos lobbies industriais contaminantes. Nos conselhos em que está instalada uma central nuclear os poucos estudo epidemiológicos existentes explicam-nos que nelas se produzem certos tipos de cancro que praticamente não existem nas zonas que não têm estes equipamentos. Isto não interessa que se saiba e é por isso que as empresas proprietárias, a Empresa Nacional de Resíduos Radiactivos (ENRESA) ou a Associação de Municipios em Áreas de Centrais Nucleares (AMAC), dispõem de fundos para o "desenvolvimento local" que utilizam em actividades culturais, desportivas ou festivas nas localidades que interessa manter caladas. Mais ainda, na zona envolvente de Almaraz, Zorita, Vandellòs, Trillo o Garoña grande parte dos presidentes de Câmara e deputados municipais das vilas trabalham ou já trabalharam na central que acolhem. Silêncio garantido.

Tudo isto precisa dum trabalho sistemático de relações públicas e contactos directos entre o pessoal das empresas e associações empresariais, os lobbistas, com os políticos e funcionários locais. As administrações regionais também não se libertam dos lobbies que atentam contra o meio ambiente e a saúde pública. Na Extremadura, num dos conselhos mais férteis de toda a União Europeia, Tierra de Barros (Badajoz), o empresário mais rico da Comunidade Autónoma, Alfonso Gallardo - que começou num ferro velho mas que graças às subvenções públicas da Junta de Extremadura construiu um império de fábricas de aço e betão - quer instalar uma refinaria petroquímica.

Em pleno século XXI, o da preocupação pela crise ecológica mundial, sócios como o BBVA, Iberdrola, Caja Madrid ou Caja de Extremadura acompanham-no. O Grupo Afonso Gallardo tem em Francisco Fuentes Gallardo, sobrinho do chefe e senador do PSOE pela Extremadura a sua aliança com o Governo da Extremadura. A companheira sentimental do segundo é a delegada do Governo, Carmen Pereira, na terra do porco ibérico, e tem-se destacado por reprimir qualquer crítica ao projecto contaminante.

Para que a população da Extremadura lhe dê o seu beneplácito, os questionários favoráveis aos interesses de Gallardo e da Junta de Extremadura são realizados pelo Instituto Opina, que trabalha, entre outros partidos, para o PSOE. As perguntas incómodas são evitadas eas conclusões são depois reproduzidas pelos órgãos comunicação em que o empresário inserta publicidade ou que pertencem a accionistas que também são do projecto de refinaria.

A "mordaça informativa"

Para que todos estes planos e tecnologias cheguem a bom porto, é necessária a participação da imprensa. É o que se chamou "A mordaça corporativa": as grandes companhias e os seus lobbies têm departamentos encarregados de chamar os média antes, durante ou depois da publicação duma reportagem, seja para "oferecer a sua versão" dos factos, para ameaçar com acções judiciais se publicarem o trabalho em curso ou simplesmente para se queixar pela difusão dos mesmos e tratar para que se conte com eles para futuros assuntos. De tal modo que pressionar a imprensa inserindo publicidade, subvencionando espaços concretos, oferecendo prémios aos jornalistas, bombardeando-os com "informação", é um trabalho indispensável para qualquer lobby.

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Resto dossier

Muito Alta Tensão

Por todo o país, vão aumentando os protestos contra as linhas de muito alta tensão, cujos riscos para a saúde não podem ser desprezados. A Rede Eléctrica Nacional (REN) continua a ignorar os apelos da população e as decisões desfavoráveis dos tribunais, recusando-se a enterrar as linhas, algumas das quais passam a poucas dezenas de metros das casas. O Esquerda.net dedica o dossier desta semana aos perigos, protestos e negócios em torno das linhas de muito alta tensão.

Alta Tensão em zonas habitadas

Sabemos que esta foi, nos últimos anos a lógica predadora dos governos ao serviço da concentração neo-liberal - pagar com o nosso dinheiro, as infra-estruturas caras e vendê-las ao preço "da chuva" aos privados. Esta será a razão para tanta pressa na construção da linha de muito alta tensão entre Fanhões e Trajouce, como em muitos outros locais por este país fora.

A sombra dos lobbies na saúde

A pressão dos lobbies deixa-se sentir a todos os níveis de decisão: no Parlamento Europeu e na Comissão Europeia, nos diferentes governos estatais, nos autonómicos e nos municipais.

Imagens e sons de protesto

O Esquerda.net compilou alguns vídeos e reportagens de rádio, de protesto e análise sobre as linhas de muito alta tensão. As imagens mostram lâmpadas acesas só devido à proximidade dos cabos, crianças que brincam em postes de alta tensão, e protestos dos moradores do Vale de Fuzeiros (Silves) contra o atentado ambiental e de saúde que a REN insiste em promover. Oiça também a crónica de José Manuel Pureza na Antena 1, um debate no Rádio Clube de Portugal, e a reportagem do Esquerda.rádio.

Mobilizações na Catalunha contra Alta Tensão já duram há três anos

A polémica construção duma linha de Muito Alta Tensão (MAT) entre o sul de França e a localidade de Bascanó (Girona) tem gerado um dos movimentos de oposição social mais importante dos últimos anos na Catalunha. Desde que se anunciou a construção, milhares de pessoas foram para a rua, dezenas de vezes, para contestar este projecto, que conta com o apoio da classe política e do empresariado catalão. Três anos depois do início dos protestos, a Plataforma "Não à MAT" confia em parar um infra-estrutura de alto impacto ambiental e para a qual, asseguram, existem alternativas mais sustentáveis.

REN: Se privatizar é a resposta, qual foi a pergunta?

Nada de mal acontecerá se, amanhã, após uma patriótica privatização para resolver a emergência financeira de hoje, os planos de expansão da REN forem anunciados num hotel londrino e os lucros das redes energéticas nacionais forem distribuidos pelas viúvas da Escócia, pelos reformados da Califórnia ou pelos oligarcas russos. Mas os consumidores portugueses de energia não retirarão daí qualquer benefício.

As nossas vidas valem mais do que os lucros da REN

A pergunta impõe-se: serão os postes e as linhas de alta tensão assim tão prejudiciais, ao ponto de motivarem esta onda de contestação popular sem precedentes no nosso país, feita de protestos regulares, petições, buzinões, acções judiciais ou a greve de fome de 48h, levada a cabo por 9 cidadãos e cidadãs à porta do Parlamento?

Bloco de Esquerda está do lado das populações

"Sendo os interesses em confronto, por um lado o custo de enterramento dos cabos de muito alta tensão, e por outro, os eventuais riscos para a saúde das populações, pensamos que se deve optar claramente pelos segundos. De facto, os custos de saúde pública são neste momento inquantificáveis, podendo mesmo vir a ser irreversíveis, com grave prejuízo para a população."

Estudos internacionais confirmam riscos para a saúde

O relatório do Bioinitiative Working Group, um grupo internacional que reúne cientistas, investigadores e profissionais de saúde pública, datado de finais de Agosto, manifesta "sérias preocupações científicas" sobre os limites que actualmente regulam os campos electromagnéticos admissíveis de linhas eléctricas, telemóveis e muitas outras fontes de radiação presentes na vida quotidiana, que considera inadequados para proteger a saúde humana.