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A ressaca pró-guerra do escândalo Blackwater

O actual escândalo Blackwater deve ajudar-nos a perceber as dinâmicas que se instalam rotineiramente, quando os ocupantes - quer sejam mercenários privatizados ou soldados uniformizados - assentam a sua acção em violência massiva contra a população, que alegam estar a ajudar.

Por Norman Solomon, artigo publicado em Common Dreams em 16 de Outubro de 2007.


O escândalo Blackwater teve bastante cobertura mediática e merecia ainda mais. É anti-ético, do ponto de vista democrático, que sejam os contribuintes a subsidiar mercenários privados e as acções da Blackwater no Iraque foram frequentemente criminosas. Mas o escândalo é relatado no contexto dos meios de comunicação social dos EUA, que rotineiramente transformam críticas à guerra em exigências de uma melhor guerra.

Muitos políticos estão a ajudar esta alquimia. A retórica proveniente de uma comissão parlamentar do Congresso, no início deste mês, exigia alto e bom som uma melhor guerra numa audiência enormemente publicitada com Erik Prince, o odioso chefe executivo da Blackwater USA.

Um congressista de New Hampshire, Paul Hodes, insistiu na importância de saber "se os falhanços em responsabilizar o pessoal da Blackwater por condutas inapropriadas mina os nossos esforços no Iraque." Outra democrata no painel, Carolyn Maloney de Nova Iorque, disse ao executivo de topo da Blackwater que "as suas acções podem estar a minar a nossa missão no Iraque e realmente a ferir a relação e a confiança entre o povo iraquiano e os militares americanos."

Mas o problema com as actividades da Blackwater não é que estas "minem" os "esforços" militares dos EUA e a "missão" no Iraque. Os esforços e a missão não deviam existir.

Um perigo verdadeiro na preocupação com a Blackwater é que ela se torne um bode expiatório para o que está profunda e fundamentalmente errado com o esforço e missão dos EUA. A condenação da Blackwater, ainda que justificada, pode ser facilmente engolida num turbilhão que exige uma limpeza do esforço de guerra dos EUA - como se, apesar de tudo, uma incansável guerra de ocupação, baseada em mentiras, pudesse ser redimida por uma melhor gestão - como se as tropas ocupantes, que vestem uniformes do exército e da marinha, fossem incarnações da contenção e da responsabilização.

A meio deste mês, a Associated Press informava que "oficiais americanos e iraquianos estão a negociar a exigência de Bagdad de que a companhia de segurança Blackwater seja expulsa do país no prazo de seis meses e os diplomatas americanos parecem estar a trabalhar para preencher a falha de segurança, se a empresa for evacuada." Podemos esperar muitas mais destas histórias nos meses que se seguirão.

Entretanto, temos uma cobertura mediática extremamente selectiva das operações chave do Pentágono. Explodem bombas em áreas remotas, lançadas por armamento de alta tecnologia dos EUA e poucos dos que procuram nas páginas e emissões informativas americanas estarão mais conhecedores acerca dos custos humanos.

Com toda a atenção mediática concentrada na violência sectária no Iraque, o motivo favorito de cobertura é o bombismo suicida que sublinha o conflito como violência de iraquianos sobre iraquianos. Os repórteres e comentadores americanos raramente tratam a ocupação dos EUA como perpetradora e catalizadora da carnificina.

Um dos aspectos mais invulgares do corrente escândalo Blackwater é que coloca no centro da actualidade as matanças recentes de civis iraquianos, apesar dos assassinos terem sido americanos. Este ângulo está fora do enquadramento corriqueiro dos media, que se dirige ao que os iraquianos estão fazendo uns aos outros e apresenta os americanos - quer em uniforme militar quer na forma de prestadores de serviços - como heróis bem intencionados, que por vezes são vítimas de terríveis circunstâncias.

Muitos membros do Congresso, assim como bastantes jornalistas, saltaram para a carruagem anti-Blackwater com a retórica que lamenta o facto da empresa tornar mais difícil ao governo dos EUA ter sucesso no Iraque. Mas o esforço de guerra americano continuou a aprofundar os horrores no interior daquele país. E as prioridades de Washington colocaram claramente o preço do petróleo acima do valor da vida humana. Portanto, porque havemos de querer que o governo dos EUA tenha sucesso no Iraque?

A não ser que a arrogância assassina da Blackwater, e dos seus financiadores no governo dos EUA, seja colocada numa perspectiva mais abrangente sobre o esforço de guerra dos EUA como um todo, o aviltamento da empresa poderá distrair-nos de contestar a presença das forças americanas no Iraque e a guerra aérea, que continua a sua escalada fora do ecrã dos meios de comunicação social americanos.

O actual escândalo Blackwater deve ajudar-nos a perceber as dinâmicas que se instalam rotineiramente, quando os ocupantes - quer sejam mercenários privatizados ou soldados uniformizados - assentam a sua acção em violência massiva contra a população, que alegam estar a ajudar.

Por mais terrível que a Blackwater tenha sido e continue a ser, esta empresa lucrativa não deve ser transformada num pára-raios para a oposição à guerra. Uma nova legislação que exija a responsabilização das forças privadas de segurança não pode tornar melhor uma guerra que está errada. Encontrar melhores rapazes de poster que possam ser publicitados como humanitários em vez de mercenários não irá alterar as regras básicas do tiroteio num país que eles não têm o direito de ocupar.

Tradução de Carlos Carujo

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