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Questões de Género, Globalização e Trabalho no contexto da China, por Huang Ping

Se realmente existe uma tendência para a globalização, temos de perguntar-nos se este processo será inclusivo ou exclusivo. Será que inclui mais alguém para além da pequena elite dos líderes a nível social, cultural e religioso, os quais se podem dar ao luxo de assistir a uma conferência em Tóquio de manhã, um banquete em Roma à tarde e uma saltada a Paris após o jantar para assistir a uma ópera?
Se o trabalho fosse globalizado, a "globalização" soaria tão atraente?

Artigo de Huang Ping, disponível no site de Sociologia Chinesa

Hoje em dia toda a gente fala de "globalização" (esquecendo-se dos anos anteriores a 1980, quando apenas as pessoas consideradas "radicais" ou hostis ao sistema existente de estados-nação mencionavam este termo). Será que o termo se refere à direcção iniciada há séculos atrás na Europa e na América do Norte, mais tarde generalizada como "processo histórico" de urbanização, industrialização; ou, mais tarde ainda, referindo-se a outros locais, como "ocidentalização", ou "americanização", e a seguir à Guerra-fria como "marketização" e privatização? Ou será que esta globalização é um acontecimento/fenómeno no qual o capital, a tecnologia, bem como a cultura do consumismo estão de facto a transnacionalizar-se?

Tenho desenvolvido, nos últimos anos, trabalho na China rural. A minha experiência diz-me que há questões importantes que têm de ser colocadas: será que o aumento líquido do salário significa um aumento dos benefícios, ou será que as pessoas apenas têm de trabalhar mais e durante mais tempo, pagar mais pelas suas actividades económicas e sociais, sacrificar o seu bem-estar ambiental, pagar cada vez mais pelos cuidados médicos (o que, em alguns casos, é superior ao aumento nos seus próprios salários)? Será que estas mudanças estão a colocar os agricultores e pastores contra os seus vizinhos? Será que as populações locais estão a aprender a tratar os trabalhadores migrantes como "potenciais criminosos", dadas as dezenas de milhares de pessoas em circulação de região para região, em busca de trabalho mais bem remunerado? Será que as famílias estão a utilizar factores de desigualdade de género quando calculam as estratégias de acumulação? Como é que a ratio da população no que se refere ao sexo, bem como ao factor RURAL/URBANO intra-nacional, afecta a escolha das jovens rurais ambiciosas quanto ao casamento? Se nos limitarmos às estatísticas que são fornecidas pelos governos, agências da ONU e outras organizações "internacionais" (em muitos casos transnacionais), podemos ficar com a impressão de que um aumento do PIB, ou do rendimento per capita, proporciona às pessoas uma vida muito melhor em muitos, senão mesmo em todos os países "globalizados". Esta impressão é consequência da crença de que o crédito e os empréstimos das organizações "internacionais" fizeram com que as pessoas dos países "em desenvolvimento" tivessem contacto com benefícios sob a forma de rendimento disponível, especialização profissional, desenvolvimento de capacidades, aumento da participação política e por aí fora. Tudo isto pode estar correcto. Mas se avançarmos um pouco mais, teremos de colocar questões como: será verdade que a qualidade de vida aumenta, quando as pessoas recebem mais dinheiro?

A elite que lidera a China - académicos, empresários e alguns altos funcionários - está fascinada com a globalização enquanto ideologia e realidade. Estão principalmente efervescentes acerca da realidade económica, i.e., fluxos transnacionais de capitais e de tecnologia. Muito pouca atenção é dada ao facto de, neste sistema mundial de globalização, apenas uma pequena brecha ficar aberta para o trabalho em geral. A ideologia da globalização dá muito pouca importância ao trabalho vindo dos "países em desenvolvimento" (e de uma perspectiva chinesa) e ainda menos atenção ao trabalho das áreas mais pobres entre os "países em desenvolvimento" (a não ser que se conte com os abjectos e inseguros abrigos para as chamadas "pessoas dos barcos" ["boat people"], indocumentados ou trabalhadores intra-nacionais e migrantes ilegais no estrangeiro).

Na China rural, devido, em parte às reformas administrativas, em parte ao rápido desenvolvimento económico, o nível da procura de trabalho nas áreas costeiras ou urbanas, desde os anos 80 ou 90, sofreu uma explosão em forma de cogumelo. Num estudo de campo que Elizabeth Croll, uma das minhas colegas chinesas, e eu, levámos a cabo nos meados dos anos 90, parece claro que as estratégias familiares favorecem a transmigração dos homens para realizar dinheiro e para trabalho não agrícola, verificando-se a retenção das mulheres de meia-idade, esposas com filhos e os idosos de ambos os sexos nas aldeias agrícolas. Mas a intersecção dos processos de "globalização" e as políticas de facto do governo, no sentido da feminização do sector agrícola, levam-me a sublinhar mais a questão geracional face à diferença de género, quando analiso casos de pobreza e trabalho. O facto de os jovens de ambos os sexos serem denominados como "excedentes laborais", estando impedidos de se estabelecer nas cidades, faz com que a "migração" de zonas rurais para urbanas (i.e., procura de trabalho móvel ou sazonal) se tivesse talvez tornado no cerne da actual transformação social na China. A atenção face a este assunto tem crescido, embora principalmente do ponto de vista dos governantes de áreas urbanas e de investigadores, que têm prestado aos perigos que a chamada população flutuante coloca à "ordem social" mais atenção do que aos benefícios que estas contribuem para as cidades. Foram precisamente estes excedentes, rapazes e até certo ponto também raparigas da China rural, que forneceram a maioria da força de trabalho que alimentou o desenvolvimento urbano (i.e., construção civil) de Beijing, Xangai, Guangzhou, Shenzhen e por aí fora. Além disso, o papel que rapariguinhas muito novas tiveram, num regime de trabalho intensivo e de curto prazo, nas fábricas das manufacturas de exportação em Shenzhen, bem como noutras zonas económicas especiais [SEZ] é bem conhecido.

Os trabalhadores migrantes, como estes, usufruem muito pouco em termos de bem-estar e de segurança social, benefícios que os residentes urbanos tomam como adquiridos. Quando, nos anos recentes, a economia abrandou, os jovens trabalhadores tiveram de regressar às suas origens (embora não necessariamente à produção agrícola) ou voltaram-se para trabalhos ainda mais inseguros, mal pagos e de curto prazo. Algumas raparigas mudaram ainda da produção fabril para o "sector dos serviços", onde foram absorvidas pela indústria do "entretenimento". Face à ausência de jovens trabalhadores, e sendo a terra arável muito limitada em termos de unidades per capita, os aldeões dispõem apenas de trabalhadores mais velhos, menos capazes e menos energéticos, e estes braços restantes têm de carregar o duplo fardo do trabalho rural e doméstico, facto que está acelerar o declínio socio-económico nas áreas rurais. Esta situação leva a uma outra consequência: actualmente, há muito mais gente do que se pensava serem os genuínos excedentes a começar a procurar trabalho não agrícola nas vilas e pequenas cidades.

A quimera do processo de "globalização" tem envolvido muito mais do que estas consequências, amplamente por examinar. Deixem-me dar um exemplo hipotético. Em algumas comunidades nas quais trabalhei, peritos externos e funcionários do governo estão a estabelecer arbitrariamente a linha de pobreza (digamos que é essa a sua opinião) num dólar por dia. Estes estranhos, que trabalham muito e são muito responsáveis, não têm ainda qualquer ideia de que para atingir esta meta "mínima", os trabalhadores que fiquem nas aldeias (muitos deles mulheres com crianças) teriam de trabalhar ainda mais, para depois ainda terem de se confrontar com ar e água seriamente poluídos, massiva erosão dos solos e degradação ambiental em geral. Custa-lhes mais serem saudáveis num ambiente físico e social cada vez mais ameaçador. Noutro bom exemplo de danos causados pelo processo de "globalização", as pessoas que vivem nas áreas que agora se tornaram perigosas para a habitação humana pedem não só que o governo do estado-nação chinês lhes dê permissão para se estabelecerem noutro local, mas esta permissão tem também de ser obtida das mesmas organizações internacionais e investidores que estabeleceram os níveis artificiais de desenvolvimento. Não é irónico que, no centro da tão chamada "globalização", os pobres não sejam legalmente autorizados sequer a procurar trabalho temporário, ou mesmo como migrantes sazonais para as colheitas, já para não falar da mudança para quintas seguras e não poluídas?

Nem todas as peças deste puzzle são resultado directo dos processos de globalização. Ainda assim, nos últimos anos, muitos observadores estão a começar a verificar que as autoridades estatais e os investidores empresariais são de facto responsáveis por este enorme problema social e laboral. Por sua vez, estes atribuem este problema ao "normal", necessário e clássico processo capitalista, e por isso preferem empregar formas "normais" de lidar com o capital e com o trabalho. Os críticos deste processo ainda não reconheceram que a "globalização" do capital e da tecnologia, ao memso tempo que proporciona um maior capital cultural (língua, electrónica, media, competências sociais, etc.) a uma minoria, vai, pura e simplesmente, eliminar tanto trabalho quanto consiga. A questão do bem-estar social e da segurança social, afigura-se, não é uma questão exclusivamente para sociais-democratas em "Estados-providência". Ao fim e ao cabo, homens e mulheres, empregados e desempregados, idosos, com formação e sem formação, todos seremos confrontados com este problema. Por isso, deixem-me recolocar a minha questão: se a globalização fosse suposta funcionar realmente a nível laboral, ainda soaria tão atractiva?

Tradução do inglês de Carla Luís

[1] Huang Ping nasceu em 1958, é professor e investigador na área de Sociologia na Universidade do Sul da China e na Universidade Sichuan. Foi editor, em conjunto com Wang Hui, da revista Dushu (Leituras) entre Maio de 1996 e Julho de 2007. Membro do Painel Académico da Organização Internacional para a Migração e do Conselho Consultivo Internacional do "British Journal of Sociology".

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