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Um inédito de Che Guevara

Che Guevara, aquando da entrevista com Laura Berquist, para a Revista Look, em 1963. Foto de René Burri/ Wikimedia.
Che Guevara, aquando da entrevista com Laura Berquist, para a Revista Look, em 1963. Foto de René Burri/ Wikimedia.

Neste excerto de uma entrevista de Celia Hart ao jornal Morning Star, dada a 26 de Junho de 2006, a escritora e física cubana chama a atenção para o recentemente publicado livro de Che Guevara Apontamentos Críticos ao Manual de Economia Política da URSS, inédito até então, onde o Che "afirma de forma total e evidente que as sociedades socialistas dos anos 60 estavam a regressar inevitavelmente ao capitalismo."

Escreveu bastante sobre Che Guevara, não só pela sua importância nos anos 60, mas também nos dias de hoje. Qual é a importância de Che Guevara para a América Latina de hoje?

Bem, penso que a imagem de Che Guevara está actualmente mais presente que nunca. Ao mesmo tempo, as tentativas, digamos - não sei como chamá-las - de censurar ou de não publicar parte da sua obra indicam que o Che ainda não regressou plenamente. Porque a grande maioria das pessoas ainda não conhece a maioria dos apontamentos de Che, e sobretudo o livro que acaba de sair, publicado na Feira de Havana em Fevereiro deste ano, que se chama Apontamentos Críticos ao Manual de Economia Política da URSS.

[Neste livro], o Che Guevara faz uma crítica demolidora aos instrumentos que a União Soviética pós-Estaline usou para desenvolver o socialismo, chamando-lhe de neo-NEP [Nova Política Económica]. Diferente da NEP de Lenine, que a considerava um passo atrás, eles consideravam que essa NEP, esse novo projecto económico, era um passo adiante. Penso que este livro é uma continuação, ou um segundo capítulo da luta contra as forças anti-socialistas. Eu até lhe chamei, talvez exageradamente, o segundo volume da Revolução Traída. Neste livro, Che afirma de forma total e evidente que as sociedades socialistas dos anos 60 estavam a regressar inevitavelmente ao capitalismo.

Um brilhante economista cubano, Osvaldo Martínez, fez uma apresentação marcante deste livro, a segunda apresentação da obra em Havana. Chamou-lhe "Um Grito do Subdesenvolvimento". Esse grito era porque nesta região do mundo estavam os meios de compreender a situação revolucionária. O socialismo tinha mudado de sítio.

O "mundo desenvolvido" de hoje pouco teria a dizer se não compreendesse que [o papel do movimento socialista na] Europa do início do século XX tinha passado para o Terceiro Mundo.

Ernest Mandel entendeu isto. Por isso, os seus melhores esforços foram dirigidos para compreender esta realidade e converteu-se em companheiro de ideias do Che. Poucos revolucionários entenderam que a periferia passava a ser protagonista das lutas revolucionárias. Os anos 60 foram uma época de ebulição, e é uma pena que, nessa época, quase todos os partidos comunistas fossem ligados à URSS que, paradoxalmente, constituía um elemento reaccionário.

Este livro cheio de angústias, dúvidas e raciocínios é uma verdadeira bíblia no sentido da revolução. O Che afirma, contradiz-se, procura referências (as que encontra) e tenta pô-las ao serviço das causas do socialismo. Chamou-lhe "a minha intentona", o "grãozinho de areia". Mas esse grão de areia era na realidade um iceberg que destroçava o Titanic do imperialismo, do estalinismo e do reformismo.

Não conhecíamos estas ideias até agora. Por isso, é como se o Che voltasse a estar vivo, porque fomos impedidos de ouvir essa parte. Assim, bem vindo Che ao século XXI.

[O que ele previu] foi o que vimos depois, nos anos 90... O Che usou a sua perícia revolucionária para entender como é impossível usar o capitalismo para construir a sociedade socialista... Como diz um bom amigo meu: "A tese não pode ser resolvida com a antíteses". Devemos publicar depressa esses apontamentos e tomá-los como manual de análise. É muito importante, porque o Che foi não apenas um guerrilheiro heróico e um revolucionário excepcional, mas também um teórico marxista imprescindível, porque foi um construtor da revolução socialista em Cuba, foi ministro da Indústria, foi presidente do Banco Nacional, e tudo o que o Che nos tem a dizer vem de um revolucionário que escreve de dentro deste processo e não de alguém que olha de fora.

Por favor, convido todos a comprarem este livro. Escrevi um artigo sobre ele, intitulado "A 'intentona' do Che" . Penso que este novo Che Guevara liberta-se da camisa de forças reformista, estalinista e até mercantil que lhe puseram e vem em nosso auxílio.

Para voltar ao que estava a dizer... quando desapareça fisicamente o meu Comandante em Chefe a situação será semelhante... Com a sua maneira audaz e polémica, continuará a acompanhar-nos nos difíceis momentos da sua ausência.

Com dois revolucionários como esses envolvidos na revolução mundial, é quase como se a batalha pelo futuro do mundo estivesse ganha.

Este exemplo da presença do Che mostra-nos que essas ideias, esses impulsos, essa paixão são as únicas coisas que não teremos de herdar de Fidel - porque, tal como o Che, ele estará vivo na alma da revolução.

Leia também (em espanhol) de Celia Hart:

La intentona del Che  

Un libro salvado del mar  

Sobre os Apontamentos Críticos ao Manual de Economia Política da URSS:

Ernesto Guevara vaticinó el derrumbe del llamado "socialismo real"

(...)

Resto dossier

Foto de autor anónimo, Museo Che Guevara (Centro de Estudios Che Guevara en La Habana, Cuba).

Dossier Che Guevara

Ernesto Che Guevara faria 85 anos neste dia 14 de junho de 2013, se fosse vivo. Republicamos aqui o dossier que fizemos em 2007, quando se assinalaram os 40 anos da sua morte, na selva da Bolívia, em 9 de Outubro de 1967.

Ernesto Guevara, com 22 anos, numa viagem de motocicleta pelas províncias rurais do norte da Argentina, 1 de janeiro de 1950. Foto de Museo Che Guevara (Centro de Estudios Che Guevara), Habana, Cuba.

Links para saber mais sobre Ernesto Guevara

Preparámos uma selecção de links para quem queira aprofundar os seus conhecimentos sobre Ernesto "Che" Guevara. Seleção necessariamente incompleta, poderá ser ampliada com a ajuda de todos e todas. Envie-nos o seu link do Che.

Praça da Revolução, em Havana, Cuba. Foto de Mark Scott Johnson, Australia/ Wikimedia.

Médicos cubanos ajudaram assassino de Che a recuperar a visão

A notícia foi divulgada pelo jornal oficial cubano Granma: o soldado que, há 40 anos, matou Che Guevara recuperou a visão graças a uma equipa de médicos cubanos. A "Operação Milagre", como é chamado o programa promovido pelos médicos cubanos que percorrem a América Latina atendendo gratuitamente pessoas com cataratas, fez a cirurgia do ex-sargento Mario Terán, em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, a algumas centenas de quilômetros do local onde o militar matou Che.

Che Guevara, aquando da entrevista com Laura Berquist, para a Revista Look, em 1963. Foto de René Burri/ Wikimedia.

Um inédito de Che Guevara

Neste excerto de uma entrevista de Celia Hart ao jornal Morning Star, dada a 26 de Junho de 2006, a escritora e física cubana chama a atenção para o recentemente publicado livro de Che Guevara Apontamentos Críticos ao Manual de Economia Política da URSS, inédito até então, onde o Che "afirma de forma total e evidente que as sociedades socialistas dos anos 60 estavam a regressar inevitavelmente ao capitalismo."

Che Guevara, na Bolívia, pouco antes da sua morte, em 1967. Foto de autor anónimo, Museo Che Guevara (Centro de Estudios Che Guevara en La Habana, Cuba)

O legado de Guevara

Em 9 de Outubro cumpre-se o quadragésimo aniversário do assassinato de Che Guevara pelo exército boliviano. Após a sua prisão, em 8 de Outubro de 1967, foi executado friamente, por ordens da CIA. Seria ''muito perigoso'' mantê-lo vivo, pois poderia gerar ainda mais revoltas populares em todo o continente.

Che Guevara e Fidel Castro, fotografados por Alberto Korda, em 1961.

A memória e a tradição dos oprimidos

Che Guevara não foi apenas um guerrilheiro heróico, um combatente que deu a vida pela libertação dos povos da América Latina, um dirigente revolucionário que - feito sem precedentes na história - deixou todos os seus cargos para voltar a pegar na espingarda contra o imperialismo. Foi também um pensador, um homem de reflexão, que nunca deixou de ler e de escrever, aproveitando qualquer pausa entre duas batalhas para pegar na caneta e no papel. O seu pensamento torna-o um dos mais importantes renovadores do marxismo na América Latina, talvez o mais importante depois de José Carlos Mariátegui.

Imagem do filme Diários de Motocicleta, de  Walter Salles (2004).

Montando a motocicleta do meu pai

Quando li Diários de Motocicleta pela primeira vez, a obra consistia apenas num maço de folhas dactilografadas. Mesmo assim, identifiquei-me imediatamente com esse homem que narrava as suas aventuras de forma tão espontânea. À medida que fui lendo, comecei a perceber que o escritor era o meu pai.