You are here

Algumas verdades sobre a crise financeira

Nos Estados Unidos, a desresponsabilização do Estado nas instituições federais de crédito é em grande parte responsável pela recente crise financeira, explica o economista francês Gérard Duménil, em entrevista à revista Politis de 30 de Agosto de 2007.

A recente crise do crédito e da Bolsa sublinha, uma vez mais, a amplitude da desregulamentação financeira do neoliberalismo?

Gérard Duménil: A queda das bolsas, brutal mas rapidamente corrigida, é um efeito secundário de uma crise de crédito. Mais precisamente de uma crise de um tipo particular de crédito.

A criatividade das instituições financeiras neoliberais parece não ter limites. Assim que há novas possibilidades de lucro, novos procedimentos são postos em prática. E o mais extraordinário, é a capacidade destas instituições transferirem uma grande parte destes riscos para outros agentes económicos. Sabe-se que o crescimento da economia dos Estados Unidos é em grande parte conseguido pela despesa das famílias, por um consumo louco dos mais ricos e por uma extensão, sem precedente nem comparação, do crédito hipotecário às famílias, isto é um aumento crescente do crédito à habitação, de muito longo prazo (mas que, neste país, serve igualmente para outras aquisições). As taxas de juro sobre estes créditos permanecem relativamente baixas (são as taxas de juro a curto prazo que sobem).

Como podem os bancos sustentar esse endividamento crescente?

É preciso sublinhar a importância histórica de agências federais cuja função é "comprar", aos bancos que emprestam, os créditos sobre os clientes. Elas têm nomes atraentes: Fannie Mae e Freddy Mac 1. O seu papel foi crescendo até 2001, altura em que estas agências detinham 38% de todos os créditos hipotecários do país. Originariamente públicas, elas estão de facto privatizadas ou a caminho de estarem. Mas a sua imagem é ainda a de instituições "garantidas" pelo governo: numerosos agentes, especialmente estrangeiros, não notaram que estas agências são agora privadas (o Japão está longe). "Um grave erro", declarou Alan Greenspan, anterior presidente do Banco Central dos Estados Unidos, numa tonitruante declaração de 2004. Recomendando também a limitação e o controlo da actividade destas agências, que supostamente distorcem a "disciplina de mercado". Concentrado de ideologia neoliberal. Tudo vai mal para estes actores tradicionais da política de crédito dos Estados Unidos. No seguimento da desresponsabilização do Estado, estas agências são invejadas por novas empresas que entraram neste nicho lucrativo. A actividade deste novo sector expande-se há alguns anos, enquanto a das Fannie e Freddy se contrai. De 38% dos créditos hipotecários em 2001, as agências federais regressaram a 30%, tendo o terreno perdido sido ganho pelas novas empresas. A Fannie Mae acaba de perder um processo que lhe custou 400 milhões de dólares.

Em que é isso importante?

Porque são precisamente as empresas que se lançaram no espaço aberto pela desresponsabilização do Estado que estão na origem da crise! Um bom exemplo de privatização e de abertura de um sector à iniciativa privada com consequências desastrosas. Mas faltam-nos ainda dois elementos para compreender os motivos desta crise. É preciso em primeiro lugar saber que estas agências e empresas se financiam emitindo títulos (comprados por particulares ou por instituições financeiras, nacionais ou estrangeiras). Estes títulos são, por sua vez, "encostados" aos créditos originais, o que significa que quem os adquire, compra, de facto, um "cabaz" de tais créditos. Os particulares ignoram frequentemente o conteúdo do cabaz (é o mesmo procedimento pelo qual os bancos dos Estados Unidos revenderam a dívida do "terceiro-mundo", como mostrou o escândalo provocado em Itália pela venda da dívida argentina a famílias, que só descobriram quando aquele país deixou de pagar). Mas, quem quiser, pode comprar assim todas as espécies de crédito, por exemplo dívidas das famílias americanas em cartões de crédito. Este negócio da "titularização", como se costuma chamar, é florescente. Os seus agentes encontram-se em conferências gigantescas, em hotéis de cinco estrelas 2. Eles apresentam-se como os benfeitores da humanidade: "A vossa indústria é a chave que desperta os sonhos da nossa nação", declarava o presidente da circunspecta US Securities and Exchange Comission numa assembleia de representantes deste sector.

E é este novo negócio que provocou uma crise?

A última peça do puzzle é que, face à queda das taxas de juro sobre os créditos hipotecários, estas empresas lançaram-se no financiamento dos "sonhos" de quem quer ter uma casa sua mas não tem os meios para os realizar, tendo em conta a estagnação do poder de compra que o neoliberalismo impõe. Uma actividade tanto mais atraente quanto as taxas de juro sobre estes créditos de risco (subprime) são mais elevados. Juntemos os dois elementos. Primeiro ponto: os riscos de conceder crédito a estas famílias frágeis eram tais que as cessações de pagamento tomaram proporções inesperadas. Segundo ponto: instituições e famílias imprudentes tornaram-se donos dos títulos que corporizavam estes créditos duvidosos. E eis que estes compradores, tocados pela desvalorização destes títulos, já não dão prova do seu habitual optimismo nos mercados bolsistas! A crise do crédito transforma-se em crise bolsista: os cursos caiem. Conhece-se o desfecho. Deus ex machina, os bancos centrais põem a flutuar as tesourarias com uma criação monetária ex nihilo.

Pode-se sair sempre bem dessas reflutuações de curto prazo?

Esta crise é interessante pelo que ela revela indirectamente. Sem entrar na análise do conjunto dos desequilíbrios da economia dos Estados Unidos 3, pode-se dizer que ela mostra que as potencialidades de crescimento da dívida das famílias deste país atingem certos limites Para que a festa neoliberal sob hegemonia dos Estados Unidos continue, será preciso arriscarem-se a chamar para ela uma fracção das famílias que provavelmente é incapaz de suportar o seu ritmo? É preciso procurar taxas de juro mais elevadas do que as fronteiras do razoável? Diz-se que a despesa das famílias é um factor crucial do crescimento dos Estados Unidos. Bloquear a corrente de créditos que lhe são destinados, seria, a curto prazo, precipitar a recessão que se anuncia em lugar de a remediar, mas sobretudo, a mais longo prazo, comprometeria as taxas de crescimento relativamente elevadas da economia dos Estados Unidos. Que outras alavancas para sustentar então a actividade? As ferramentas das políticas macroeconómicas estão já em acção. O défice público já existe, o dólar fraco também. As taxas de curto prazo vão muito provavelmente ser diminuídas. Mas os remédios esgotam-se. Na mundialização neoliberal, o crescimento concentra-se nas duas extremidades do leque da riqueza, entre os Estados Unidos e países cuja mão-de-obra é vendida a baixo preço, como a China. É um elemento central da propaganda neoliberal. Imaginem uma taxa de crescimento "francesa" nos Estados Unidos! Uma perspectiva insuportável para o senhor do mundo. Alguma coisa devia então mudar. Mas o quê ao certo? Para melhor ou para pior?

Entrevista feita por Thierry Brun

1 Um pouco diferentes são os Federal Home Loan Banks

2 Última Conferência "Subprime ABS", 18 e 19 de Setembro de 2006, Hotel Four Seasons, Las Vegas

3 Consultar o site que eu partilho com Dominique Lévy: www.jourdan.ens.fr/levy

(...)

Resto dossier

Dossier Crise Financeira

Numa medida inédita nos últimos 30 anos o Banco central da Inglaterra teve de conceder um empréstimo de emergência ao Northern Rock, o oitavo banco da Grã-Bretanha, na passada Sexta-feira. A crise de liquidez do banco britânico veio alertar para a grave crise financeira actual, que teve origem no mercado hipotecário dos Estados Unidos. As filas de pessoas tentando levantar as suas poupanças trazem à lembrança cenas de outras crises.

A crise?

A liberalização dos mercados financeiros, realizada a partir dos anos oitenta, aumentou a fragilidade financeira do capitalismo. Isto até é hoje aceite por um número crescente de economistas devido à multiplicação de crises bancárias, cambiais ou nos mercados accionistas, com impactos profundos nas economias de muitos países. Os EUA, ao contrário de tantos países, têm conseguido mitigar os efeitos destas crises devido à disponibilidade e possibilidade que a Reserva Federal tem para injectar liquidez no sistema de forma a evitar danos mais graves. Foi o que fez mais uma vez (e agora também o BCE), esquecendo temporariamente e como convém as suas fidelidades liberais, agora que uma crise financeira se desenha no horizonte (desta vez no mercado de crédito imobiliário).

Vídeo: Michael Moore e Rage Against The Machine

Michael Moore filma um vídeo dos "Rage Against The Machine" e impõe um horário de funcionamento mais curto a "Wall Street" (retirado do blogue ladroesdebicicletas.blogspot.com)

"Dividatonação": como morre a globalização

Um simples dia, 9 de Agosto de 2007, vai ficar na história como o "dia da dividatonação 1" - o princípio do fim da desregulação e privatização das finanças que eram as marcas da globalização.
Este é um momento que eu (juntamente com muitos outros) previa desde há muito, nomeadamente num artigo escrito em 2003 para a openDemocracy 2. O problema, tal como com Cassandra noutras áreas da vida, era determinar o momento preciso em que se desencadearia a crise financeira global que sabíamos que se estava a aproximar.

Esmagar o Capitalismo, por Barbara Ehrenreich

Algures nos Hamptons um membro da alta sociedade insulta a empregada de limpeza e ergue os punhos para os jardineiros. Os americanos pobres, geralmente cautelosos o suficiente para se manterem invisíveis para a classe multimilionária, saltaram de repente para o centro da acção e começaram a esmagar o sistema financeiro global. Por incrível que pareça, este pode ser o primeiro caso na história em que os explorados conseguem deitar abaixo um sistema económico injusto, sem passarem pela trabalheira de uma revolução.

Dez ideias para entender a crise financeira

Tenho a impressão de que a maioria dos cidadãos se sente confusa, perante a crise que se desencadeou nas últimas semanas. Face ao esforço financeiro desenvolvido pelos bancos centrais, devem intuir que se trata de uma crise muito séria. E tendo em conta que sentem nos bolsos a subida das taxas de juro, podem perceber que ela vai atingi-los, mais do que as autoridades querem reconhecer.
Em qualquer caso, apesar de toda a gente falar da crise, há muito poucas ideias claras que permitam ao cidadão comum saber, com toda a certeza, o que se está a passar.

A recente perturbação dos mercados: uma incerteza impossível de calcular

Os economistas distinguem "risco" de "incerteza". Ao primeiro pode ser dado um preço pelos mercados financeiros enquanto à segunda não. A distinção entre estes dois conceitos foi feita pelo famoso economista Frank H. Knight na sua obra crucial: "Risco, Incerteza, e Lucro". Resumindo, "existe Risco quando os acontecimentos futuros ocorrem com uma probabilidade mensurável", enquanto "a Incerteza existe quando a probabilidade dos eventos futuros é indefinida ou incalculável".

Algumas verdades sobre a crise financeira

Nos Estados Unidos, a desresponsabilização do Estado nas instituições federais de crédito é em grande parte responsável pela recente crise financeira, explica o economista francês Gérard Duménil, em entrevista à revista Politis de 30 de Agosto de 2007.

Da "Private Equity" ao racionamento do crédito

Já tinha referido [no blogue ladroesdebicicletas] o negócio que envolve a compra da Chrysler por um fundo "Private Equity", o Cerebus. Este tipo de negócios são feitos, na sua quase integralidade, com recurso ao crédito. Normalmente, titularizados pelos bancos envolvidos. Ou seja, eu, enquanto pequeno investidor, posso comprar títulos do crédito que a Cerebus irá utilizar na compra da Chrysler. Os bancos conseguem, assim, financiar a operação sem inscrever o crédito no seu balanço.