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A crise?

A liberalização dos mercados financeiros, realizada a partir dos anos oitenta, aumentou a fragilidade financeira do capitalismo. Isto até é hoje aceite por um número crescente de economistas devido à multiplicação de crises bancárias, cambiais ou nos mercados accionistas, com impactos profundos nas economias de muitos países. Os EUA, ao contrário de tantos países, têm conseguido mitigar os efeitos destas crises devido à disponibilidade e possibilidade que a Reserva Federal tem para injectar liquidez no sistema de forma a evitar danos mais graves. Foi o que fez mais uma vez (e agora também o BCE), esquecendo temporariamente e como convém as suas fidelidades liberais, agora que uma crise financeira se desenha no horizonte (desta vez no mercado de crédito imobiliário).

Artigo de João Rodrigues, publicado no blogue ladroesdebicicletas.blogspot.com a 10 de Agosto de 2007.

Acho que é consensual dizer que a redução das taxas de juro no princípio do século, engendrada para fazer face ao rebentamento da bolha especulativa das empresas dot.com que poderia ter tido consequências ainda mais desastrosas, solucionou um problema ajudando a criar outro uma vez que alimentou a especulação imobiliária que está na base dos actuais problemas. No entanto, e isto é fundamental, a crise é o resultado das dinâmicas dos mercados financeiros liberalizados onde a especulação mais desenfreada alterna com os pânicos mais abruptos. A profusão de produtos financeiros cada vez mais sofisticados e complexos, que permitem teoricamente «diversificar o risco» para cada um dos agentes envolvidos, aumenta os incentivos para se desenvolverem relações de crédito cada vez mais perigosas e com menos garantias. «Frankenstein-finance» é a expressão certeira da liberal The Economist. Cresce assim a opacidade dos mercados e torna-se cada vez mais difícil para cada agente avaliar a sustentabilidade das suas posições. Até ser tarde de mais. O chamado «risco sistémico» é o resultado não intencional do somatório de decisões privadas de investimento. A permissividade liberal e a sua fé sem fim nos mercados é o pano de fundo que permite a emergência desta situação.

Nota: mais uma vez, a teoria da instabilidade financeira, intrínseca ao capitalismo com mercados financeiros liberalizados, desenvolvida por Hyman Minsky, pode ajudar a entender o que se está a passar.
 

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Resto dossier

Dossier Crise Financeira

Numa medida inédita nos últimos 30 anos o Banco central da Inglaterra teve de conceder um empréstimo de emergência ao Northern Rock, o oitavo banco da Grã-Bretanha, na passada Sexta-feira. A crise de liquidez do banco britânico veio alertar para a grave crise financeira actual, que teve origem no mercado hipotecário dos Estados Unidos. As filas de pessoas tentando levantar as suas poupanças trazem à lembrança cenas de outras crises.

A crise?

A liberalização dos mercados financeiros, realizada a partir dos anos oitenta, aumentou a fragilidade financeira do capitalismo. Isto até é hoje aceite por um número crescente de economistas devido à multiplicação de crises bancárias, cambiais ou nos mercados accionistas, com impactos profundos nas economias de muitos países. Os EUA, ao contrário de tantos países, têm conseguido mitigar os efeitos destas crises devido à disponibilidade e possibilidade que a Reserva Federal tem para injectar liquidez no sistema de forma a evitar danos mais graves. Foi o que fez mais uma vez (e agora também o BCE), esquecendo temporariamente e como convém as suas fidelidades liberais, agora que uma crise financeira se desenha no horizonte (desta vez no mercado de crédito imobiliário).

Vídeo: Michael Moore e Rage Against The Machine

Michael Moore filma um vídeo dos "Rage Against The Machine" e impõe um horário de funcionamento mais curto a "Wall Street" (retirado do blogue ladroesdebicicletas.blogspot.com)

"Dividatonação": como morre a globalização

Um simples dia, 9 de Agosto de 2007, vai ficar na história como o "dia da dividatonação 1" - o princípio do fim da desregulação e privatização das finanças que eram as marcas da globalização.
Este é um momento que eu (juntamente com muitos outros) previa desde há muito, nomeadamente num artigo escrito em 2003 para a openDemocracy 2. O problema, tal como com Cassandra noutras áreas da vida, era determinar o momento preciso em que se desencadearia a crise financeira global que sabíamos que se estava a aproximar.

Esmagar o Capitalismo, por Barbara Ehrenreich

Algures nos Hamptons um membro da alta sociedade insulta a empregada de limpeza e ergue os punhos para os jardineiros. Os americanos pobres, geralmente cautelosos o suficiente para se manterem invisíveis para a classe multimilionária, saltaram de repente para o centro da acção e começaram a esmagar o sistema financeiro global. Por incrível que pareça, este pode ser o primeiro caso na história em que os explorados conseguem deitar abaixo um sistema económico injusto, sem passarem pela trabalheira de uma revolução.

Dez ideias para entender a crise financeira

Tenho a impressão de que a maioria dos cidadãos se sente confusa, perante a crise que se desencadeou nas últimas semanas. Face ao esforço financeiro desenvolvido pelos bancos centrais, devem intuir que se trata de uma crise muito séria. E tendo em conta que sentem nos bolsos a subida das taxas de juro, podem perceber que ela vai atingi-los, mais do que as autoridades querem reconhecer.
Em qualquer caso, apesar de toda a gente falar da crise, há muito poucas ideias claras que permitam ao cidadão comum saber, com toda a certeza, o que se está a passar.

A recente perturbação dos mercados: uma incerteza impossível de calcular

Os economistas distinguem "risco" de "incerteza". Ao primeiro pode ser dado um preço pelos mercados financeiros enquanto à segunda não. A distinção entre estes dois conceitos foi feita pelo famoso economista Frank H. Knight na sua obra crucial: "Risco, Incerteza, e Lucro". Resumindo, "existe Risco quando os acontecimentos futuros ocorrem com uma probabilidade mensurável", enquanto "a Incerteza existe quando a probabilidade dos eventos futuros é indefinida ou incalculável".

Algumas verdades sobre a crise financeira

Nos Estados Unidos, a desresponsabilização do Estado nas instituições federais de crédito é em grande parte responsável pela recente crise financeira, explica o economista francês Gérard Duménil, em entrevista à revista Politis de 30 de Agosto de 2007.

Da "Private Equity" ao racionamento do crédito

Já tinha referido [no blogue ladroesdebicicletas] o negócio que envolve a compra da Chrysler por um fundo "Private Equity", o Cerebus. Este tipo de negócios são feitos, na sua quase integralidade, com recurso ao crédito. Normalmente, titularizados pelos bancos envolvidos. Ou seja, eu, enquanto pequeno investidor, posso comprar títulos do crédito que a Cerebus irá utilizar na compra da Chrysler. Os bancos conseguem, assim, financiar a operação sem inscrever o crédito no seu balanço.