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A representação das minorias sexuais nos media

A homossexualidade é representada de forma variada. É definida por laços de afectividade, valorizando a esfera amorosa, e caracterizando os homossexuais por uma vulgaridade não distintiva, produzindo um efeito normalizador e não estigmatizante. Mas também é representada pelo lado folclórico, exibicionista da sexualidade, do corpo e da indiferenciação de género- assimilando as questões de género à homossexualidade, sem as tratar na sua especificidade.

Artigo de Clara Pinto Caldeira, autora de A representação das minorias sexuais na informação televisiva portuguesa, Lisboa: Livros Horizonte (2006).
 

Os meios de comunicação social são, como lhes é amplamente reconhecido, agentes sociais poderosos, com efeitos sobre a representação que temos da sociedade e do mundo. No caso da população LGBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgéneros), a sua força representacional é maior, por vários motivos. Por um lado, tornam visível uma minoria estigmatizada pela sua diferença em relação a um padrão de «normalidade» sexual, e por isso muitas vezes auto-ocultada. Por outro, na medida em que a visibilização de uma população em luta pelo reconhecimento dos seus direitos e historicamente discriminada, pode ser integradora ou reforçadora dos preconceitos enraizados.

No âmbito desta problemática, o discurso jornalístico é particularmente relevante, por ser este que assume um compromisso de representação com o real, e nos fornece um mosaico daquilo que é, supostamente, o todo social. Naturalmente, o jornalismo constitui apenas um olhar, de que resulta um recorte sobre esse todo, e é nele que interessa compreender o lugar dado aos LGBT. Um estudo realizado no âmbito de uma tese de mestrado analisa a representação das minorias sexuais nas notícias da Sic, entre 1995 e 2000. (1)

Considerando o fluxo total das notícias (2), as minorias sexuais representam uma parcela muito pequena enquanto tema noticioso, mas é inegável que passam a ter uma presença no espectro dos espaços informativos, verificando-se uma crescente integração dos assuntos LGBT na agenda da estação estudada, a que não serão alheias as alterações sociais vividas na sociedade portuguesa, nomeadamente o crescimento e a afirmação de um cenário associativo em torno da defesa dos direitos LGBT. Apesar de se observar um decréscimo de notícias nos últimos anos do período contemplado, nunca volta a atingir uma situação de quase invisibilidade que caracteriza o período inicial deste estudo.

Os temas mais frequentes (3) no agendamento noticioso deste grupo revelam que a sua representação é enquadrada em âmbitos temáticos que afectam directamente a vida quotidiana das minorias sexuais ou que têm a ver com iniciativas das próprias, conferindo-lhes legitimidade no plano político, e no plano cívico, respectivamente, pelas categorias temáticas "Questões Legislativas" e "Manifestações". Há assim um eixo de representação das minorias sexuais que tende a constituí-las como grupo reconhecido na luta pelo direito de igualitarização e expressão identitária pública, sobretudo a propósito da discussão do diploma das uniões de facto.
Verifica-se também, em várias notícias analisadas, uma assimilação da diversidade identitária abrangida pela sigla LGBT à homossexualidade, sobretudo masculina, o que evidencia uma tendência para tratar estas temáticas no âmbito do binómio hetero/homo. Em relação ao modelo da heterossexualidade, emerge o seu contrário. A bissexualidade é absolutamente inexistente e a transexualidade é um tema pouco frequente.

A homossexualidade é representada de forma variada. É definida por laços de afectividade, valorizando a esfera amorosa, e caracterizando os homossexuais por uma vulgaridade não distintiva, produzindo um efeito normalizador e não estigmatizante. Mas também é representada pelo lado folclórico, exibicionista da sexualidade, do corpo e da indiferenciação de género- assimilando as questões de género à homossexualidade, sem as tratar na sua especificidade.

No que diz respeito às notícias sobre criminalidade, emergem dois padrões de representação associados aos homossexuais: vítimas e vilões. No primeiro caso, os crimes de ódio por discriminação são retratados de forma negativa, alertando para a existência de homofobia. No segundo caso, a homossexualidade é associada à pedofilia, e merece tratamento geralmente mais aprofundado.

É, pois, complexa, a representação produzida pelas notícias, e apresenta vectores negativos e positivos. De uma forma geral, no caso estudado há uma integração de temáticas LGBT no agendamento noticioso televisivo, de uma forma integradora da existência de um grupo em busca de um lugar público reconhecido. É muitas vezes a análise conjugada de texto/imagem que revela a prevalência de alguns preconceitos e reduções identitárias. No entanto, as mudanças vividas nos últimos anos no cenário associativo, com consequências na visibilidade deste grupo, têm efeito sobre o discurso jornalístico, permeável às dinâmicas sociais.

Notas:

1) Caldeira, Clara (2006) A representação das minorias sexuais na informação televisiva portuguesa, Lisboa: Livros Horizonte

2) Apresentam-se aqui os resultados relativos ao corpus restrito, ou seja, notícias de origem nacional, por se considerar mais relevante no contexto da sociedade portuguesa.

3) Foram identificadas as seguintes categorias temáticas e respectivas sub-categorias: Questões Legislativas (união de facto, casamento, adopção, descriminação e regulamentos profissionais), Manifestações (gay pride, protesto, homenagens); Casos de Tribunal/Polícia (crimes de pedofilia, crimes contra minorias e luta por direitos), Pessoas (come out, vida, opinião); Repressão (política e policial); Debates/Polémicas; Eventos Culturais; Media; Fait Divers; Vida Associativa e Apoios; Transexualidade; Histórias de Vida; Religião; Sida

Clara Pinto Caldeira

Junho de 2007

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Resto dossier

Dossier LGBT: acabar com a homofobia

No mês em que por todo o mundo ocorrem manifestações da comunidade LGBT contra a homofobia, o Esquerda.net compilou vários textos sobre a temática.

Marcha do Orgulho LGBT anima Lisboa

No dia 23 de Junho realizou-se em Lisboa a oitava Marcha do Orgulho LGBT. Largas centenas de pessoas juntaram-se à Marcha, numa mancha arco-íris que encheu as ruas do Príncipe Real e, depois, da Baixa, até ao Terreiro do Paço.
A discriminação contra lésbicas, gays, bissexuais e transgender continua a fazer-se sentir na sociedade portuguesa e na lei, apesar de Portugal ser o único país europeu cuja Constituição proíbe a discriminação com base na orientação sexual.

Marcha do orgulho gay: igualdade para todos

A oitava edição da Marcha do Orgulho Lésbico, Bissexual, Gay e Transgénero juntou no sábado centenas de pessoas em Lisboa, reivindicando a igualdade de direitos para os que têm diferentes orientações sexuais. Depois da leitura de um manifesto do movimento, feito pelas associações organizadoras, a marcha foi do Príncipe Real ao Rossio, ao som de palavras de ordem pela igualdade de direitos e do lema "igualdade para todos aqui e agora".
"Esta marcha é uma forma de intervir na sociedade, de fazer ouvir a voz das pessoas que se sentem discriminadas em função da sua orientação sexual, disse ao Esquerda.net Eduarda Ferreira, da associação Clube Safo.

Gisberta: chocados com o quê?

Este crime chocou o país? Parte dele. Mas só surpreende os ingénuos. Quem não tenha consciência do que é o sistema de (des)protecção de menores em Portugal; quem tenha su­bestimado e desvalorizado o grau de preconceito e violência quotidiana - incluindo física - a que estão sujeit@s milhares de gays, lésbicas e trans; quem não conheça a brutal realidade portuguesa das exclusões que a vítima acumulava: imigrante, sem-abrigo, transexual, toxicodependente, trabalhadora do sexo, seropositiva e tuberculosa.

A Batalha de StoneWall: marco do movimento LGBT

Em Nova York, no dia 28 de Junho de 1969 o bar Stonewall-Inn foi local de mais uma rusga policial - mais uma vez sob a alegação de falta de licença para a venda de bebidas - e todos os travestis que se encontravam no bar foram presos. Mas, ao contrário das outras vezes, as pessoas resolveram resistir, em solidariedade com os presos. O clima foi ficando cada vez mais tenso. Gays e lésbicas de um lado, os polícias do outro e os travestis presos. Depois de dois dias de confrontos intensos, a polícia desistiu. Esta data fica na história do movimento LGBT como o dia do Orgulho Gay, motivando, em todos os inícios de Verão, paradas e marchas pelo mundo inteiro. 

Iniciativas e propostas do Bloco de Esquerda

O Bloco de Esquerda tem vindo a demarcar-se dos restantes partidos como um movimento moder­no e defensor de uma democracia aprofundada. O seu programa resulta da aliança entre a luta pelo fim das desigualdades sociais e económicas - agravadas pelas políticas neo-liberais - e as lutas pelo fim das desigualdades identitárias - agravadas pelo neo-conservadorismo e pelo novo moralismo reinante. Em suma, o Bloco é um movimento que luta pela igualdade ao mesmo tempo que luta pela diversidade.

LGBT em Portugal: a maioria continua no armário

Uma distância gigantesca separa uma minoria sobretudo gay, urbana, informada, consumista e hedonista, relativamente integrada e emancipada - nem sempre mais assumida - com um nível e contexto de vida que permite viver "homossexualmente", mas que é em grande medida conservadora, indiferente ao movimento, pouco solidária e preconceituosa. E temos no reverso da medalha uma maioria obscura de LGBT's sem condições para uma emancipação ou para qualquer tipo de visibilidade, em que continuam a misturar-se gays e lésbicas que ocultam a sua orientação sexual por trás de uma aparência hetero, homens casados que engatam no IP5 ou nos jardins das cidades, jovens torturados entre o preconceito e uma identidade que não querem reconhecer em si mesmos.

Uma agenda LGBT para a esquerda

Ao contrário de propostas de igualdade formal, como a do alargamento do direito ao casamento, que embora enfrentando resistências sérias na sociedade, são na verdade facilmente integráveis pelo sistema e, de alguma forma, até modeladoras das relações homossexuais a um modelo heterossexual, logo, aceitável, a emancipação real da comunidade LGBT, em todas as suas frentes, não é integrável quer pelo poder, quer pelas forças conservadoras.

O movimento LGBT em Portugal: datas e factos

Neste artigo, preparado por Bruno Maia e João Carlos Louçã, é possível aceder às datas mais importantes para o movimento LGBT em Portugal nos últimos 100 anos. Só em 1982 se dá a descriminalização da homossexualidade e é em 1999 que Lei das Uniões de Facto passa a aplicar-se também aos casais homossexuais, apesar de ainda carecer de regulamentação. Pelo meio, ficam inúmeras episódios de homofobia e discriminação, mas também a criação de movimentos que vieram dar visibilidade à luta LGBT. 

Uma agenda LGBT para Lisboa

É sobretudo fundamental que a Câmara Municipal de Lisboa assuma como sua a luta pela igualdade que tem vindo a ser feita sobretudo pelas Associações. A homofobia é um problema social que exige uma resposta da sociedade como um todo - e dos poderes públicos em particular.
Embora se estime que cerca de 10% da população seja LGBT, é comum que nas grandes cidades esta percentagem seja mais elevada pelo que é uma responsabilidade acrescida da CML fazer grande parte das suas cidadãs e dos seus cidadãos sentirem-se parte integrante da cidade.
Esta visão deverá pois reflectir-se em todos os campos de actuação da CML, desde a formação de funcionárias/os e professoras/es das escolas primárias, até ao atendimento em todos os serviços, passando pelo investimento nas actividades de promoção da comunidade e da cultura LGBT, sempre com o objectivo de garantir a coesão e integração sociais.

Relatório denuncia homofobia da polícia nos EUA

O relatório "Stonewall, continuar a exigir respeito" revela os abusos policiais contra lésbicas, gays, bissexuais e transgenders nos Estados Unidos. Apresentado no México pela Amnistia Internacional, o documento é o produto de um trabalho de investigação realizado, entre 2003 e 2005, em quatro cidades muito distintas e geograficamente diversas nos Estados Unidos: Chicago (Ilinois), Los Angeles (Califórnia), Nova York (Nova York) e San Antonio (Texas).
Uma proporção significativa das denúncias de abusos contra lésbicas, gays, bissexuais e pessoas transgenders tinham como protagonistas indivíduos pertencentes a grupos raciais ou étnicos minoritários. A idade, o nível socio-económico e a condição de imigrante também contribuem para aumentar o risco de sofrer abusos por parte dos funcionários encarregados de fazer cumprir a lei.

A representação das minorias sexuais nos media

A homossexualidade é representada de forma variada. É definida por laços de afectividade, valorizando a esfera amorosa, e caracterizando os homossexuais por uma vulgaridade não distintiva, produzindo um efeito normalizador e não estigmatizante. Mas também é representada pelo lado folclórico, exibicionista da sexualidade, do corpo e da indiferenciação de género- assimilando as questões de género à homossexualidade, sem as tratar na sua especificidade.

Homossexualidade é crime em 75 países

A homossexualidade é ainda punida por lei em cerca de 75 Estados. Em muitos países, a condenação pode ir além de dez anos de prisão; por vezes, a lei prevê a prisão perpétua e, nalgumas nações, a pena de morte tem sido efectivamente aplicada.

Links úteis pela defesa dos direitos LGBT

Aceda aqui aos links para várias organizações, a nível nacional e internacional, que lutam contra a discriminação de que é alvo a comunidade LGBT. Em Portugal, destaque para a Associação Ilga Portugal, as Panteras Rosa, o Clube Safo e a Associação Não te Prives. A nível internacional, não deixe de aceder ao site da Campanha contra a homofobia na Polónia, um país cujo actual Governo tem atacado intensamente todos os LGBT.
Leia mais para aceder aos respectivos links.

Imprensa, capitalismo ou a subtil contra-ofensiva conservadora

Comentando a presença de 3 milhões de pessoas na Marcha do Orgulho em S. Paulo, a generalidade da imprensa portuguesa referia a festa por oposição à presença de uma agenda reivindicativa. Nos breves espaços informativos que a notícia conquistou a imagem era o seu elemento mais nobre e o discurso em directo dos participantes (mas não organizadores do evento) justificava com naturalidade essa ausência da política. A notícia tornou-se relevante, não pela enorme massa humana que a concretizou nem nas condições específicas em que o fez, mas pelo facto de ter sido interpretada exclusivamente pelo seu lado comemorativo.

A homofobia no Iraque ocupado

A ocupação do Iraque pelos Estados Unidos é vista pelos sectores gays ocidentais como algo positivo para as liberdades sexuais naquele país. Os homossexuais de Bagdad riem-se desta percepção e, embora o regime "baazista" tivesse muitos defeitos em matéria de direitos LGBT, eles asseguram que agora a sua situação é pior.
Foi a publicação das fotografias das torturas e das humilhações da prisão de Abu Ghraib que provocou uma verdadeira crise para a população LGBT iraquiana.

Homossexuais na Palestina: No meio do fogo cruzado

Alguns gays palestinianos, na sua vontade de obter permissões de residência em Israel para fugir de uma sociedade fortemente homofóbica, passaram a prestar serviços à potência ocupante; em muitos outros casos, no entanto, a iniciativa partiu dos serviços secretos israelitas que, quando descobriam a homossexualidade de algum palestiniano, lhe faziam uma cruel chantagem: em troca de não o "tirar do armário", o que levaria a uma pressão social insuportável, a vítima deveria prestar serviços de espionagem para Israel. Por toda esta rede de factores, a equação "um gay é um traidor à Palestina" ficou lema: no início da segunda Intifada houve alguns espancamentos de gays palestinianos pelos seus conterrâneos.