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Dor antes das dez semanas é invenção do Não

No último programa Prós e Contras o país foi surpreendido por uma novidade absoluta: afinal, «o feto sente dor antes das dez semanas». Na manhã seguinte os Médicos Pela Escolha desmentiram essa afirmação, que vai contra todas as evidência da ciência. Jorge Sequeiros, Presidente do Colégio de Genética Médica e Membro do Conselho Nacional de Ética e Ciências da Vida, explica neste artigo a falácia (mais uma) dos defensores do Não.  

Ciência, convicções, fraude e a dor fetal

Em artigos publicados em revistas científicas (e não meras opiniões não fundamentadas, em debates televisivos), alguns têm defendido que o feto nunca sente dor. Nunca, até ao fim da gravidez. Muito provavelmente, isto não é verdade. Não é crível que assim seja. Às 24 semanas estão já estabelecidas as ligações entre o tálamo e o córtex que permitirão ao feto estabelecer contacto com o mundo exterior e sentir. Todas as mães (e muitos pais) sabem que o seu feto (bebé, criança é só quando nasce!) reage a estímulos nos últimos 3 meses da gravidez. Reage com movimentos ("pontapés") a carícias dos pais, tranquiliza-se com a voz de ambos, com música agradável.

Os receptores nervosos começam a formar-se logo entre as 8 e as 15 semanas, mas são como tomadas sem corrente num edifício em construção; a electricidade só é ligada quando passa ser habitado. Ou seja, depois das 24 semanas. Muito provavelmente só às 30, quando a EEG mostra que o feto já consegue estar "acordado".

A evidência científica actual é a de que a dor implica percepção e consciência do estímulo doloroso. A dor é uma experiência emocional e psicológica, resultado de activação cortical. A reacção a estímulos externos, às 8 semanas, é um reflexo primitivo, que pode existir com estímulos não dolorosos. Como a nossa perna salta quando o martelo bate no joelho. É resultado de um curto-circuito entre receptores e músculos, através da medula espinal, sem passar pelo cérebro. Sem vontade e sem consciência. Sem dor.

O feto de 10 semanas não tem dor, não tem vontade, não tem vigília, não tem consciência. As primeiras ligações ao córtex cerebral em formação, acontecem entre as 23 e as 30 semanas. Mas anatomia é diferente de função. A evidência mais precoce de actividade cortical é entre as 29 e as 30 semanas.

Numa área cientificamente controversa, em pleno calor de uma campanha, afirmações não comprovadas (pseudo-científicas) são tudo menos honestas e responsáveis. Não há argumentos científicos neutrais. O que há são dados científicas, que passam o rigor da comprovação, da revisão por pares antes da aceitação por revistas internacionais. E mesmo estes estão sujeitos a um escrutínio permanente por parte de novos estudos.

A Organização Mundial de Saúde aconselha mesmo que se não deve dar anestesia ao feto antes do 3º trimestre para cirurgia ou abortamento. Por não estar provado que o feto sinta dor nos seis primeiros meses (muito pelo contrário) e pelos riscos aumentados para a grávida. As afirmações em sentido contrário ao estado actual dos conhecimentos, são apenas poeira lançada aos olhos de quem já não quer ver. São convicções e crenças de quem toma partido.

Provada, essa sim, está a dor das mulheres que sofrem as complicações de saúde e as consequências legais dos abortamentos clandestinos. E há que tentar acabar com ela, como tem vindo a suceder em tantos outros países.

Aos dogmas o "não" acrescentou a fraude e a argumentação pseudo-científica. O papel da ciência é fazer perguntas e pôr dogmas em causa, desconstruir mitos e crenças e fortalecer as nossas convicções.

Pela minha parte, estou cada vez mais convicto. Por isso só poderei votar SIM.

Jorge Sequeiros
Médico Geneticista, Presidente do Colégio de Genética Médica e Membro do Conselho Nacional de Ética e ciências da Vida.

(...)

Resto dossier

OTA em debate

"Ota em debate" é o dossier desta semana, que está aberto à participação dos nossos leitores e leitoras. Assim, apelamos a que nos enviem opiniões, apresentações, comentários (para o e-mail: otaemdebate@esquerda.net) que publicaremos (1), numa área específica do portal esquerda.net, a partir de terça-feira desta semana.

Novo aeroporto e TGV

Uma questão importante sobre o novo aeroporto, diz respeito à articulação que deve ter com a linha de Alta Velocidade (AV) prevista para a ligação Lisboa-Madrid.  A "solução OTA" é, deste ponto de vista, a que menos vantagem colhe numa perspectiva de ligação ao futuro hinterland do NAIL.

Novo Aeroporto Internacional de Lisboa

No momento actual de debate público sobre a "solução" que está no terreno, levantam-se algumas questões a cuja resposta se admite que possam servir de orientação para as escolhas a fazer.
A primeira, porventura básica, é a de saber se é justificável um Novo Aeroporto Internacional de Lisboa (NAIL) e para um prazo de dez anos, que se anuncia como absolutamente necessário.

OTA a perder velocidade

O entusiasmo em defesa da solução OTA para o Novo Aeroporto Internacional de Lisboa está em perda acentuada de velocidade. Enquanto que o ministro Mário Lino se fez ouvir no actual debate afirmando que "só um milagre" o faria mudar de posição, o Secretário de Estado das Obras Públicas, Paulo Campos, já veio dizer que o Governo "não é autista" em relação às vozes que têm argumentado contra a solução-OTA. O "unanimismo" de outrora, que uniu PSD e PS na solução OTA, e que o actual governo PS adoptou como sua, parece começar a ceder face aos argumentos que têm surgido em favor da necessidade de se estudar a sério todas as soluções para um Novo Aeroporto Internacional de Lisboa (NAIL), antes de se tomar a decisão definitiva.

Links

Existem muitos sites e blogues com informação e comentários sobre o novo aeroporto, nomeadamente os seguintes:
O site oficial do novo aeroporto (naer.pt), que tem uma área de estudos do NAER
O site da organização ambiental de Alenquer, Alambi
O site maquinistas.org
A secção transportes do site da Sociedade de geografia de Lisboa

Ota: PS rejeita estudo de alternativas

O Partido Socialista recusou as propostas do Bloco de Esquerda e do PSD, que visavam a constituição de uma comissão para avaliar alternativas à localização e financiamento do novo aeroporto de Lisboa. Helena Pinto referiu-se às alternativas na margem sul, criticou a intenção de privatizar a ANA e questionou directamente o governo e o Partido Socialista: "Qual é o medo de debater esta questão abertamente? Qual é o medo que a Assembleia da República acompanhe o desenvolvimento daquela que será a maior obra pública dos próximos anos?"

OTA, um Aeroporto para quê?

Comunicado conjunto das associações ambientalistas Quercus e Alambi, divulgado a 12 de Março de 2004.
Desde o início que os movimentos ligados à defesa do ambiente se têm mostrado bastante reticentes em relação à construção de um Novo Aeroporto Internacional de Lisboa na Ota. Os estudos de incidência ambiental determinam claramente a impossibilidade de uma decisão ponderada sem estudos complementares e sem que se houvesse realizado um Estudo de Impacte Ambiental. E que a limitação de conhecimento do projecto impeditiva de qualquer tomada de posição definitiva, indicava que nada seria assumido sem a intervenção séria e abalizada dos agentes interessados.

Dor antes das dez semanas é invenção do Não

No último programa Prós e Contras o país foi surpreendido por uma novidade absoluta: afinal, «o feto sente dor antes das dez semanas». Na manhã seguinte os Médicos Pela Escolha desmentiram essa afirmação, que vai contra todas as evidência da ciência. Jorge Sequeiros, Presidente do Colégio de Genética Médica e Membro do Conselho Nacional de Ética e Ciências da Vida, explica neste artigo a falácia (mais uma) dos defensores do Não.