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Entrevista: “Um dos governos mais representativos do mundo”

Nesta entrevista concedida à Der Spiegel Online, o Ministro da Informação palestiniano Mustafa Barghouti defende o governo de unidade palestiniana, que considera o mais democrático e representativo do mundo, e adverte que não se pode separar o presidente do governo, não se pode separar um ministro de outro, pelo facto de serem de facções diferentes. "Creio que alguns países continuam a ser demasiado influenciados por Israel e pela abordagem irracional do governo israelita", diz. Para Barghouti, os palestinianos apoiarão a Iniciativa Árabe, que fala de reconhecimento mútuo, se Israel estiver preparado para a reciprocidade e para aceitar um Estado palestiniano. "Que querem para além disso? Mas se alguém espera que os palestinianos desistam dos seus direitos e que fiquem satisfeitos com isso, comete um erro."

 
"Um dos governos democraticamente mais representativos do mundo"

Entrevista com o Ministro da Informação palestiniano, Mustafa Barghouthi

Der Spiegel, 30/4/2007

No sábado, a Chanceler alemã Angela Merkel vai viajar a Israel e aos territórios palestinianos, onde o Hamas e a Fatah criaram recentemente um governo de unidade. Numa entrevista ao Spiegel Online, o Ministro da Informação palestiniano Mustafa Barghouti fala acerca das suas expectativas quanto à Alemanha e à União Europeia.

SPIEGEL ONLINE: A chanceler alemã Angela Merkel vai deslocar-se ao Médio Oriente este fim-de-semana. Que espera desta visita?

Barghouti: Esperamos que aceite a composição do novo governo, que é um dos governos democraticamente mais representativos do mundo, representando 96% dos votos do eleitorado. Esperemos que a chanceler reinicie os contactos directos com este governo. Esperamos ainda que apoie os nossos esforços para a implementação da Iniciativa Árabe, a qual é dirigida a todos os palestinianos e árabes, e representa uma boa oportunidade para mudar a situação. Agora precisamos de pressionar Israel para que volte ao princípio das negociações.

SPIEGEL ONLINE: Decorre neste momento em Riade a cimeira árabe e a Iniciativa Árabe para a Paz está a ser relançada, através da Liga Árabe. Acabou de mencionar que o Hamas apoia esta iniciativa. Está a dizer que o Hamas está efectivamente a ponderar a normalização das relações com Israel, sob a forma de um acordo de paz?

Barghouti: Desde que Israel termine a ocupação e esteja de acordo com o estabelecimento de um Estado palestiniano independente nos territórios ocupados. É isto que refere a Iniciativa Árabe. Khaled Maashal, líder do Hamas, disse que a sua organização aceitaria um consenso árabe. Neste momento existe um consenso árabe. Israel é que está a recusar a Iniciativa e está também a recusar conversações sobre um acordo quanto a um status final.

SPIEGEL ONLINE: Existe um debate interno no seio da União Europeia quanto a saber se devem ser mantidas conversações oficiais com o novo governo palestiniano. Alguns representantes dizem que só se sentarão com ministros que não pertençam ao Hamas. Parece-lhe um compromisso aceitável para o seu Governo?

Barghouti: Não. Não é uma posição normal e é antidemocrática. Pensamos que este governo é um só, é uma equipa, é o governo do presidente Mahmoud Abbas. Não podem separar o presidente do governo, não podem separar um ministro de outro. Creio que alguns países continuam a ser demasiado influenciados por Israel e pela abordagem irracional do governo israelita. Mas isto não pode continuar.

SPIEGEL ONLINE: Inclui a Alemanha entre os países "demasiado influenciados por Israel"?

Barghouti: Não, espero que não. Mas espero que a Alemanha adopte a posição certa. Creio que a ideia de diferenciação entre um ministro e outro, dependendo se se gosta desse ministro ou não, destruirá toda a construção do direito internacional e das relações internacionais.

SPIEGEL ONLINE: A chanceler Merkel representa, neste momento, toda a UE. Parece-lhe que existe também um papel especial a desempenhar pela Alemanha?

Barghouti: Completamente. A Alemanha tem sido bastante construtiva, apoiando bastante o povo palestiniano. A Alemanha desempenhou um papel vital no apoio à democracia palestiniana. Temos tido excelentes relações com diferentes representantes alemães, ministros dos negócios estrangeiros e chanceleres. Esperemos que esta visita consolide estas boas relações.

SPIEGEL ONLINE: Parece-lhe um objectivo realista o de que o primeiro-ministro do Hamas Ismail Haniyeh e os membros do Hamas do seu gabinete aceitem em breve as condições que a UE, Israel e os EUA estabeleceram? De acordo com estas condições, o Hamas deve reconhecer integralmente Israel, pôr fim à violência e observar os acordos anteriores. Ou estas condições são inaceitáveis para o Hamas?

Barghouti: É injusto continuar a impor condições aos palestinianos. Além do mais, o Hamas estava na delegação do grupo palestiniano na Cimeira Árabe, o primeiro-ministro estava com o presidente Abbas quando a delegação palestiniana aprovou por unanimidade a Iniciativa Árabe. A Iniciativa Árabe fala de reconhecimento mútuo, se Israel estiver preparado para a reciprocidade e para aceitar um Estado palestiniano. Que querem para além disso? Mas se alguém espera que os palestinianos desistam dos seus direitos e que fiquem satisfeitos com isso, comete um erro. O que é necessário é pressionar Israel, que é uma potência ocupante, para que termine a ocupação. Gostaria que todas as condições internacionais de que ouvimos falar fossem acompanhadas por exigências a Israel para que pare os colonatos.

SPIEGEL ONLINE: O governo israelita reagiu de forma fria ao novo governo palestiniano. O primeiro ministro Ehud Olmert está preparado para se encontrar com o presidentre Abbas numa base bissemanal, mas referiu que não haveria lugar para quaisquer discussões importantes. Estas reuniões serão úteis ou não?

Barghouti: São inúteis. E se estas reuniões continuarem a ser inúteis, não creio que Abbas continuará a participar. Neste momento, Israel rejeita negociações com os palestinianos, está a rejeitar a Iniciativa Árabe e não está preparado para lidar com o governo democrático palestiniano unido. Desta forma, Israel está a adoptar uma atitude bastante negativa. Recorda-nos a atitude do regime de apartheid na África do Sul. É necessário relembrar os israelitas de que estão a ser contraprodutivos - não só em relação aos palestinianos, mas em relação ao seu próprio povo.

SPIEGEL ONLINE: Ajudou a criar este governo, muito embora não seja membro da Fatah nem do Hamas. De uma perspectiva independente: acha que este governo pode ser eficiente?

Barghouti: É o governo mais eficiente que alguma vez tivemos. É a plataforma mais democrática e progressiva em relação a direitos das mulheres, saúde e bem-estar, direitos sociais e justiça social. Espero que também quanto à questão da educação venha a ser neutral. Não deve haver qualquer influência de qualquer ideologia no sistema de educação. É de facto um dos programas mais progressistas em toda a região. É também o governo mais representativo. Espero que este facto seja visto como uma oportunidade de ouro para promover a democracia, a paz e a estabilidade no Médio Oriente.

Entrevista conduzida por Yassin Musharbash. Traduzido do inglês, da versão publicada pelo site Al Mubadara

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Resto dossier

Palestina, 40 anos depois da Guerra dos Seis Dias

O dossier do Esquerda.net desta semana é dedicado à Palestina, 40 anos depois da Guerra dos Seis Dias, que terminou com a ocupação dos territórios palestinianos de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental.

Da guerra ao apartheid

Israel obteve uma grande vitória militar na Guerra dos Seis Dias. Hoje, 40 anos depois, essa vitória aparece cada vez mais como uma vitória de Pirro. A opressão criada pela persistente ocupação; o sistema de colonatos dirigido a espoliar mais terras palestinianas e a encerrar o seu povo em verdadeiras prisões; os muros e os checkpoints criaram um sistema pior que o apartheid sul-africano. Um sistema totalmente injustificável aos olhos do Mundo.

Memorando secreto mostra que Israel sabia que colonatos são ilegais

Um importante conselheiro que advertiu secretamente o governo de Israel, depois da Guerra dos Seis Dias de 1967, que seria ilegal construir colónias judaicas nos territórios palestinianos ocupados disse, pela primeira vez, que continua a achar que tinha razão. A declaração de Theodor Meron, conselheiro jurídico do Ministro dos Negócios Estrangeiros israelita na época e um dos principais juristas internacionais do mundo, é um sério golpe no persistente argumento israelita de que os colonatos não violam a lei internacional, particularmente no momento em que Israel comemora o 40º aniversário da guerra de Junho de 1967.

Israel 2007: pior que o apartheid

Ronnie Kasrils, ministro de Segurança da África do Sul, esteve recentemente nos territórios ocupados e voltou com um veredicto claro: o que se vive hoje na Palestina é muito pior do que o pior pesadelo do apartheid sul-africano. De descendência lituana-judaica, Ronald Kasrils é membro do Comité Executivo Nacional do Congresso Nacional Africano (CNA) desde 1987, bem como do comité central do Partido Comunista da África do Sul desde Dezembro de 1986.

Israelitas e palestinianos, 40 anos depois da Guerra dos 6 dias

Tenho 83 anos. No decurso da minha vida vi o ascenso dos nazis, e a sua queda. Pude observar a União Soviética nos seus momentos culminantes, e segui o seu desmantelamento. Um dia antes da queda do muro de Berlim, nenhum alemão acreditava que chegaria a ver esse instante. Os peritos mais astutos não o previram, porque na história há correntes subterrâneas que ninguém percebe no seu fluir real.

"A nossa libertação também libertará Israel dos males da ocupação"

O dia 4 de Junho de 1967 é um dia sombrio na história do povo palestiniano. É uma data que permanece gravada na memória colectiva tal como a Nakba - a catástrofe, o episódio que há 59 anos converteu o povo palestiniano num povo de refugiados, num povo sem pátria.

Entrevista: “Um dos governos mais representativos do mundo”

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