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A ameaça transgénica na Ásia

Sendo a Ásia o continente que mais produz arroz, alimento básico para cerca de três biliões de pessoas, a recente introdução de variedades transgénicas deste cereal motivou a preocupação de muitos activistas, que participaram, no final do mês de Março deste ano, na Semana de Acção pelo Arroz. Os organizadores da iniciativa pretenderam alertar para o perigo que representam as variedades de arroz geneticamente modificado para a agricultura tradicional, sustentando que "através da chamada Revolução Verde, a agricultura corporativa envenenou as pessoas e os campos de arroz com pesticidas e fertilizantes sintéticos, degradou terras de plantio de arroz, destruiu ecossistemas desse grão e debilitou severamente a segurança do cereal como alimento". Os activistas destacam o caso de Bangladesh. Após a introdução de arroz híbrido, as variedades nativas diminuíram de aproximadamente 50 mil para cerca de 1.500.
 

Os 13 países onde foi celebrada a Semana da Acção pelo Arroz, que terminou a 4 de Abril, foram o Bangladesh, Camboja, China, Coreia do Sul, Filipinas, Índia, Indonésia, Japão, Malásia, Nepal, Paquistão, Sri Lanka e Tailândia. "Esta é uma luta pelas pessoas comuns", disse Anne Haslam, porta-voz da ONG Rede de Acção contra os Pesticidas da Ásia e do Pacífico, com sede em Penang, na Malásia, que lidera esta campanha. "Queremos arrecadar um milhão de assinaturas durante a Semana para apoiar o trabalho de agricultores locais", acrescentou.

Estas jornadas são a resposta ao crescente temor de que a agricultura tradicional esteja sob ameaça das variedades de arroz geneticamente modificado, explicou Haslam à IPS. "Em alguns países asiáticos foi detectado arroz transgénico", acrescentou. "Os agronegócios abriram caminho para o arroz híbrido e agora para variedades transgénicas como o Golden, o Bt e o Liberty, que causaram não apenas perdas de variedades fortes, únicas e tradicionais de arroz, mas também a sua contaminação", diz o documento para o qual estão a ser recolhidas assinaturas de adesão. "Os transgénicos somente vão piorar o problema da fome mundial", acrescenta o texto.

A petição também acusa o Instituto Internacional de Pesquisa sobre o Arroz, com sede nas Filipinas, de juntar esforços com empresas do agronegócio para garantir um "controlo corporativo das sementes e da agricultura", o que - afirma - deveria "pertencer por legítimo direito aos que cultivam a terra". O Instituto foi líder na produção de arroz híbrido de alto rendimento na Ásia durante quatro décadas. Nos últimos 10 anos, por exemplo, desenvolveu cerca de 20 variedades híbridas e distribuiu-as por noves países asiáticos, desde a Índia e Bangladesh na Ásia meridional até à Indonésia e ao Vietname no sudeste da Ásia.

Também foi pioneiro da Revolução Verde, entre 1968 e 1981, período em que foram distribuídas sementes de variedades de arroz de alto rendimento para aumentar em 42% a produção. Porém, os activistas pouco se impressionaram com esses êxitos, como assinala a "Declaração do povo para salvar o arroz da Ásia". O documento afirma que, "através da chamada Revolução Verde, a agricultura corporativa envenenou as pessoas e os campos de arroz com pesticidas e fertilizantes sintéticos, degradou terras de plantio de arroz, destruiu ecossistemas desse grão e debilitou severamente a segurança do cereal como alimento".

Os activistas destacam o caso de Bangladesh. Após a introdução de arroz híbrido, as variedades nativas diminuíram de aproximadamente 50 mil para cerca de 1.500. Os participantes do movimento acusam a Revolução Verde de destruir a cultura agrícola tradicional que deu lugar a uma diversidade tão abundante do cereal. A Ásia é o maior produtor deste grão, alimento básico para cerca de três biliões de pessoas. Bangladesh, China, Filipinas, Índia, Indonésia, Tailândia e Vietname lideram a lista das nações produtoras de arroz. A região colhe anualmente perto de 500 milhões de toneladas desse grão, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).

A Tailândia é o principal exportador de arroz do mundo: nos últimos anos embarcou para o exterior aproximadamente sete milhões de toneladas anuais, em média, acrescentou a FAO. O Vietname figura em segundo lugar de uma lista que também inclui China, Índia e Paquistão. Porém, a organização ambientalista Greenpeace alertou no início deste ano para as ameaças ao arroz nativo pelo surgimento de variedades transgénicas, desenvolvidas nos Estados Unidos e detectadas em mercados do sudeste deste continente.

A advertência era dirigida ao governo filipino, que decidiu permitir "a importação e venda continuada de arroz geneticamente modificado que, por lei, não pode ser distribuído e comercializado para consumo humano no país". Entre as variedades de arroz assinaladas pelo escritório do sudeste asiático do Greenpeace figuravam as marcas Uncle Sam Texas Long Grain, que "contaminava" os grãos locais "com o organismo geneticamente modificado Bayer LL601". O LL601 é arroz "geneticamente alterado para resistir ao poderoso herbicida glufosinato", e a sua distribuição e consumo humano são "ilegais em todo o mundo, menos nos Estados Unidos", acrescentou.

"Isto é uma ameaça à biodiversidade na região. Mostra que não existe um esforço adequado para revisar e controlar o arroz contaminado dos Estados Unidos que chega aqui", disse Neth Dano, da Rede do Terceiro Mundo. "Os governos ainda não se consciencializaram do perigo que representa o arroz transgénico", afirmou. A campanha de consciencialização de uma semana divulgará a preocupação de agricultores e comunidades da região, que pretendem fechar os campos de arroz dessa área à produção transgénica, acrescentou. "Se as coisas mudam, será muito trágico", ressaltou.

Por Marwaan Macan-Markar, da International Press Service  (Envolverde/ IPS)
29/03/2007

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Resto dossier

Dossier Transgénicos

Numa altura em que o debate sobre o ambiente se torna cada vez mais central, o Esquerda.net dedica o dossiê desta semana aos Organismos Geneticamente Modificados.

Gualter Baptista: o objectivo é uma moratória do cultivo de transgénicos

Nesta entrevista à Esquerda.Rádio, o coordenador da campanha contra os transgénicos e activista do Gaia Gualter Baptista fala dos estudos recentes que dão conta de alterações renais e hepáticas em ratinhos de laboratório provocados por uma variante de milho transgénico, estudos esses que vinham a ser ocultados pela multinacional Monsanto.

Vídeo: estudos científicos comprovam riscos dos OGM

Especialistas afirmam: comer OGM é perigoso para a saúde. Mas todos os anos, novos OGM chegam aos nossos pratos. Esta reportagem do Canal + francês revela os estudos científicos que mostram os riscos tóxicos dos OGM.

Transgénicos pela multinacional Monsanto

A Monsanto é uma empresa multinacional, especializada em biotecnologia vegetal. É actualmente uma das maiores empresas mundiais do comércio de transgénicos e teve, em 2005, negócios no valor de 5,4 mil milhões de dólares. O seu slogan é "Alimentos em abundância em um meio ambiente saudável".
Publicamos aqui o folheto "Transgénicos. Para ter opinião tem que ter informação.", do site da Monsanto Brasil.

2006 foi ano recorde em acidentes com transgénicos

O relatório "Registos de Contaminação Transgénica", divulgado pela Greenpeace em Fevereiro deste ano, afirma que 2006 foi o ano com maior número de acidentes com transgénicos.

Carta Aberta de Cientistas do mundo a todos os governos

Esta carta, datada de Setembro de 2000, foi enviada a governos e fóruns internacionais, como a Organização Mundial do Comércio, a Comissão para o Desenvolvimento Sustentável da ONU, a Convenção sobre a Diversidade Biológica da ONU. Nela, 828 cientistas de 84 países apelam à suspensão imediata de todas as difusões no meio-ambiente de culturas e produtos Geneticamente Modificados, tanto comercialmente quanto em testes em campo aberto.

A ameaça transgénica na Ásia

Sendo a Ásia o continente que mais produz arroz, alimento básico para cerca de três biliões de pessoas, a recente introdução de variedades transgénicas deste cereal motivou a preocupação de muitos activistas, que participaram, no final do mês de Março deste ano, na Semana de Acção pelo Arroz.

Às três, será de vez?

Diz-se que há uma primeira vez para tudo. No caso dos organismos geneticamente modificados (OGM) a inocência terminou a 16 de Outubro de 1999 com a publicação, na prestigiada revista científica Lancet, do artigo de Ewen e Pusztai intitulado «Effect of diets containing genetically modified potatoes expressing Galanthus nivalis lectin on rat small intestine».

Transgénicos em África: combater a fome, ou acumular lucros?

Nesta adaptação de dois artigos de Natália Suzuki (Carta Maior), torna-se claro como as empresas de biotecnologia fazem lobbies com governos locais para conseguir introduzir espécies transgénicas na agricultura africana, incutindo a ideia de que a solução para a fome do continente empobrecido é a produção de OGMs e as suas novas tecnologias. No entanto, além de consequências ambientais graves, os trangénicos levantam um grave problema político. É que no mundo todo há apenas três companhias que produzem sementes transgénicas e "quem controla a semente, controla a comida e controla o futuro".

12 perguntas e respostas sobre transgénicos

Transgénicos são plantas criadas em laboratório com técnicas da engenharia genética que permitem "cortar e colar" genes de um organismo para outro, mudando a forma do organismo e manipulando sua estrutura natural a fim de obter características específicas.
Não há limite para esta técnica; por exemplo, é possível criar combinações nunca imaginadas como animais com plantas e bactérias.

Publicamos aqui 12 perguntas e respostas sobre transgénicos, retiradas do site da Greenpeace Brasil.

Links

Existe muita informação sobre transgénicos na Internet. Em Portugal destaca-se o site da Plataforma Transgénicos Fora do Prato, onde pode encontrar toda a legislação portuguesa sobre OGMs, bem como as experiências com transgénicos já realizadas em Portugal e o debate público em torno do assunto. Para informações sobre iniciativas europeias  pode consultar este site, onde é anunciada a Terceira Conferência Europeia sobre zonas livres de transgénicos, biodiversidade e desenvolvimento rural, que se realiza a 21 e 22 de Abril deste ano.
Leia mais para ver outros sites 

Relatório sobre arroz aponta alternativas aos transgénicos

Tecnologias novas, ambientalmente sustentáveis e de consumo amigável tornam a imprecisa engenharia genética obsoleta e desnecessária, afirma o relatório "Futuro do Arroz" lançado pelo Greenpeace. Ao destacar um futuro ambientalmente sustentável para o alimento básico mais importante do mundo, o relatório desmascara o mito de que as empresas de engenharia genética como a Monsanto podem assegurar o futuro do arroz. No lançamento do relatório, o Greenpeace ganhou a adesão de fazendeiros indianos que protestavam contra campos de testes de engenharia genética na Índia e exigiu o fim de tais campos para proteger o futuro e a segurança das provisões de alimentos em todo o mundo.

Vídeo: O desastre da soja trasgénica no Paraguai

O Paraguai sofreu uma seca prolongada. As variedades de soja transgénica cultivada no país sofrem perdas de 90%, enquanto as variedades convencionais não transgénicas produziram muito bem. A soja transgénica não aguenta a seca, denuncia este filme produzido pelo governo do Estado do Paraná, no Brasil.