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Polémica na esquerda: A união, mas não a qualquer preço

O texto que se segue é de Daniel Bensaid, dirigente da LCR, e foi publicado numa tribuna no diário  Libération, a 7 de Dezembro de 2006. É uma resposta a um artigo do filósofo Michel Onfray, que publicara um apelo ao entendimento da esquerda anti-liberal. E levanta uma das questões que levou ao fracasso da candidatura única: a falta de acordo em torno de uma eventual coligação  governamental ou parlamentar com o Partido Socialista.

Caro Michel Onfray, para quebrar o mortal círculo vicioso da alternância entre liberalismos de direita e de esquerda, tu empenhas-te, como nós, na luta por um agrupamento unitário na continuidade do "Não" de esquerda ao tratado constitucional europeu. Para atingir este objectivo, é preciso haver boa vontade, mas isso é insuficiente para construir de forma duradoura "um real projecto político alternativo ao liberalismo que direita e esquerda incarnam, sucedendo-se no poder desde Pompidou". É essa mesmo a questão.

Consideras resolvido "o essencial". Se subsistem problemas (sobre os salários, o nuclear, a laicidade, questões internacionais importantes), a discussão poderia sem dúvida prosseguir à luz da experiência comum para chegar às necessárias clarificações. A mala das reivindicações parece assim bem cheia para embarcarmos juntos numa viagem de longo curso. Mas falta um detalhe: a questão das alianças e da relação com as instituições existentes.

Olivier Besancenot e a LCR não fizeram chantagem. Apenas exigimos que seja explicitamente afastada a eventualidade de uma coligação governamental ou parlamentar com um Partido Socialista sintetizado no Mans (em torno da sua maioria do "Sim" no tratado constitucional). Esta exigência parece-te prematura: "Fazer da atitude a adoptar na noite da primeira volta ou na véspera da segunda, uma vez adquirida a vitória, uma pré-condição a qualquer união das esquerdas antiliberais, é pôr o carro à frente dos bois." Vejamos... Não se trata da orientação de voto na segunda volta para derrotar a direita, mas de saber, na hipótese da "vitória adquirida" (qual? Em relação a que programa?), quem governará o país. É a questão central das eleições presidenciais e legislativas. E é de tal maneira evidente que o Partido Socialista - pondo ele também "o carro à frente dos bois"? - põe a questão na ordem do dia das reuniões da esquerda plural recomposta e das negociações bilaterais com os seus parceiros. Quanto mais nos aproximarmos do desfecho presidencial e das eleições legislativas, mais a questão da maioria governamental se tornará incontornável.

A alternativa que queremos não é exclusivamente eleitoral, e a sua construção não se detém nos idos de Maio. Trata-se de traçar uma via para a frente, durante e depois das grandes noites e madrugadas eleitorais. Se nos deixamos encadear pela promessa de uma outra esquerda, para acabar por engolir o que tu chamas de "sapos do socialismo governamental", mais dura será a queda.

A desilusão poderia, como escreves, alimentar as reacções de descontentamento mais imprevisíveis. A questão das alianças está tão pouco (ou tão mal) clarificada que tu próprio contribuis para a confusão: "A questão é esta: como fazer o máximo peso para inflectir à esquerda uma formação - o Partido Socialista - tentada pelo centro" A questão é de criar uma alternativa ao social-liberalismo ou de "inflectir à esquerda?" Inflectir, foi o que pensou poder fazer o Partido Comunista ao participar do governo Jospin, com o brilhante resultado que se sabe. Se a nossa ambição se limita à linha do Partido Socialista, a alternativa vai transformar-se num lóbi sobre o aparelho dominante. Para "inflectir" eficazmente, por que não inflectir a partir do interior, para além do sim e do não, com o preço de um pesado silêncio sobre as próximas eleições europeias? E por que não do interior de um governo de esquerda plural recomposta? A mala da alternativa teria assim uma alça, mas estaria esvaziada do seu conteúdo, sacrificada no altar do "tudo menos Sarkozy/Le Pen". Na Itália, o "tudo menos Berlusconi" acaba de levar a Refundação Comunista a alinhar-se nas fileiras de Romano Prodi, um dos padrinhos do tratado constitucional. O medo de Sarkozy, a ameaça de Le Pen, o espectro do 21 de Abril de 2002, tudo vai ajudar à chantagem do "voto útil" já na primeira volta. Pretender que a candidatura Segolène "abre uma avenida para a esquerda antiliberal" é bem enganador. És muito imprudente ao ironizar sobre o seu "rosto encantador". Ela vai juntar muitas coisas: uma dose de blairismo, uma nota jaurèsiana (ao ponto de reivindicar a memória de Rosa Luxemburgo, assassinada pelos sociais-democratas alemães!), uma dose securitária de sarkozysmo, uma pitada de ecologia e - porque não? - um gesto de Olivier ou de Arlette para apimentar o prato.

Para manter o rumo da alternativa, é preciso saber onde queremos ir e manter o leme firme. O teu apelo ecuménico a todos os candidatos para uma candidatura antiliberal faz uma menção particular a Olivier, acusado de "incarnar a primeira ocasião de fazer perder a esquerda antiliberal". Deves ter seguido distraidamente as repetidas declarações que ele fez, que são límpidas: se as questões de fundo se resolverem, e não pretendendo representar toda a diversidade da esquerda alternativa, ele não será candidato; se as divergências subsistirem, ele será candidato da LCR. Portanto, ele não é o sexto candidato "disponível" à candidatura. Excesso de clareza e de honestidade? Se esta iniciativa tivesse sido levada a sério e esta honestidade melhor partilhada, os militantes não se encontrariam subitamente numa tormenta previsível, dissimulada até o fim por um consenso de fachada.

"Se o fundo não coloca problemas", escreves, "resta a forma, só a forma." Bom! Justamente, é o fundo que levanta problemas (além disso, dizia um dos nossos mestres, a forma é também o fundo), e não os problemas de pessoas. Se o negamos, chegamos ao espectáculo desastroso de uma conjura de egos, sem clarificação política.

"Falhar seria desiludir"? Evidentemente, mas uma ilusão de unidade construída sobre a areia movediça desabaria à primeira prova séria. Seria desiludir mais ainda. Não basta derrotar Sarkozy e Le Pen eleitoralmente (isso, Ségolène pode fazer, e sem dúvida vai aparecer a muitos como a mais indicada para isso). É preciso também derrotar a política deles. Sem o que, a cada legislatura, de esquerda ou de direita, o saldo será uma subida de Le Pen. Nós vimos de tão longe, que a cada passo em falso, em vez de reforçar a alternativa, podemos comprometê-la mais. Tu diriges a Olivier a velha acusação de já não ter mais mãos, à força de querer mantê-las puras. A política é uma questão de relações de forças e de compromissos. Mas trata-se de encontrar o limite, muitas vezes incerto, entre os compromissos que nos aproximam do objectivo e aqueles, comprometedores, que nos desviam dele. Quanto a ter mãos (e ousar sujá-las), nós seríamos mais as mãos pequenas, a amassar a massa de cada dia, e não mãos intermitentes imaculadas, a votar no domingo e a voltar para casa à espera de um novo domingo eleitoral.

(...)

Resto dossier

Dossier Eleições presidenciais em França

O dossier desta semana é sobre as eleições presidenciais em França que terão a primeira volta no próximo dia 22 de Abril.

Declaração de candidatura de José Bové

A França nunca foi tão desigual.
Um grande patrão ganha 300 vezes, ou mais, que um trabalhador que receba o salário mínimo. Os mais ricos fogem ao fisco quando 100 000 pessoas dormem na rua. As stocks-options recompensam os despedimentos.
É tempo de pôr fim a um sistema que lança a grande maioria dos assalariados na precariedade e na insegurança social. É tempo de decretar a insurreição eleitoral contra o liberalismo económico.

“Na rua, nas urnas”, texto de Besancenot

Nicolas Sarkozy pode visitar fábricas, citar Jaurés e Blum e desenvolver muitos esforços para se fazer passar por amigo dos trabalhadores, mas terá dificuldade em mascarar que ele é sobretudo o candidato plebiscitado pelo MEDEF (central patronal francesa). E desde que ele se solte, como o fez na TF1 denunciando os que “matam o carneiro na banheira”, o natural vem ao de cima a galope: é o eleitorado de le Pen que ele adula. Mas só pôde apresentar-se como o candidato do poder de compra – “trabalhar mais para ganhar mais” porque a candidata socialista estava calada sobre as questões sociais.

Vídeo com 2,5 milhões de visitas: o verdadeiro Sarkozy

O vídeo nas plataformas YouTube e DailyMotion tem sido largamente usado na campanha das eleições presidenciais francesas. O vídeo "Le vrai Sarkozy" (O verdadeiro Sarkozy), disponível na net desde Julho de 2006, colocado nas duas plataformas e em vários endereços, já teve no total mais de 2,5 milhões de visitas.

O balanço da net-campanha

A quatro semanas da primeira volta da eleição presidencial, que balanço fazer da campanha na internet? Desde há vários meses, vários grupos de protagonistas têm repetido a mesma cantiga. "É na net que isto se vai decidir", repetiram em coro jornalistas políticos e empresários da web - sem esquecer os mais convencidos: a equipa de campanha de Ségolène Royal, que tinha criado desde Fevereiro de 2006 o site participativo Désirs d'avenir (Desejos de futuro).

Polémica na esquerda: O peso nulo da esquerda antiliberal

O filósofo Michel Onfray foi um dos defensores da união da esquerda antiliberal, com base num programa que encontrasse o ponto de união dos programas de cada uma das formações políticas. Neste texto, ele lamenta que a união não se tivesse concretizado, e que a esquerda antiliberal não vá ter qualquer peso nas eleições. E volta a defender a união para depois das presidenciais.

Polémica na esquerda: A união, mas não a qualquer preço

O texto que se segue é de Daniel Bensaid, dirigente da LCR, e foi publicado numa tribuna no diário  Libération, a 7 de Dezembro de 2006. É uma resposta a um artigo do filósofo Michel Onfray, que publicara um apelo ao entendimento da esquerda anti-liberal. E levanta uma das questões que levou ao fracasso da candidatura única: a falta de acordo em torno de uma eventual coligação  governamental ou parlamentar com o Partido Socialista.

O nacionalismo "soft" de Nicolas Sarkozy

Os discursos de Nicolas Sarkozy sobre a imigração e a identidade nacional podem ser qualificados de "nacionalistas". Mas trata-se de um nacionalismo "soft" adaptado às leis da democracia televisiva, às quais estamos submetidos hoje.
Texto de Gérard Noiriel, publicado no site mouvements.asso.fr a 29 de Março de 2007.

Eleições presidenciais em França: candidatos e sondagens

A primeira volta das eleições presidenciais em França realizar-se-á dia 22 de Abril, a segunda volta a 6 de Maio.
A estas eleições concorrem 12 candidatos. Nas últimas sondagens Nicolas Sarkozy (candidato de direita pela UMP) está em primeiro lugar com valores entre 26% e 31%. Em segundo lugar, Ségolène Royal, candidata do PS, com valores entre 24,5% e 27%. Em terceiro lugar, François Bayrou, candidato do partido de direita UDF, com 18% a 22%. Em quarto lugar, Jean-Marie Le Pen, candidato da Frente Nacional de extrema-direita, com 11% a 14,5%. E em quinto lugar, Olivier Besancenot, candidato da Liga Comunista Revolucionária (LCR), com 3% a 4,5%.

Ségolène Blair e Nicolas Thatcher

A campanha presidencial está bem trancada. Tudo se passa como se estivéssemos condenados a escolher entre o liberalismo de eufemismo da sra. Royal e o liberalismo fulgurante do sr. Sarkozy. Mas nenhum dos dois traz respostas às preocupações dos franceses.

É pouco provável que Le Pen obtenha um resultado semelhante ao de 2002

A investigadora Nonna Mayer, do Centro de Investigações Políticas de Ciências Políticas (CEVIPOF), fala sobre a Frente Nacional, nesta entrevista em que analisa a trajectória desta formação de extrema-direita, as características do seu eleitorado e as suas temáticas de campanha.