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Ségolène Blair e Nicolas Thatcher

A campanha presidencial está bem trancada. Tudo se passa como se estivéssemos condenados a escolher entre o liberalismo de eufemismo da sra. Royal e o liberalismo fulgurante do sr. Sarkozy. Mas nenhum dos dois traz respostas às preocupações dos franceses.

Por Michel Husson, Regards, Março de 2007

 

 
A primeira preocupação diz respeito ao desemprego e ao emprego. Ela é citada por 79% das pessoas inquiridas, uma preocupação que ultrapassa em muito a questão das reformas, da saúde ou do meio ambiente 1. Sobre esta questão, a realidade social é no fim de contas bastante transparente. Todos sabem que os números do desemprego já não reflectem, há muito tempo, a situação de insegurança social que ameaça hoje a maioria dos assalariados deste país. O colectivo "Os outros números do desemprego", que reúne sindicalistas e estatísticos, demonstra-o todos os meses 2.

Os assalariados estão bem colocados para saber que os seus salários só aumentam a conta-gotas. A explosão das remunerações dos dirigentes, das stock options, dos dividendos e outras benesses exprime aos olhos deles a rapacidade sem limites dos que mandam. Eles sabem também que o risco - este "valor dos valores" para os filósofos do Medef (Mouvement des Entreprises de France - Movimento das Empresas de França) - faz tanto parte do seu dia-a-dia quanto a precariedade, que a sra. Parisot associa à vida e ao amor. Eles tomam a teoria que faz do lucro a remuneração do risco pelo que ela é: uma fábula insultuosa 3.

Quando os liberais propõem trabalhar mais para ganhar mais, os assalariados vêem a incoerência desta proposta, porque todo o prolongamento da jornada de trabalho vai contra a criação de novos empregos. Muitos acordos recentes de empresas mostram que se trata na realidade de baixar o salário/hora e não de valorizar mais o trabalho. Esta orientação, que invoca o desafio dos países emergentes, é um impasse. Para alinhar os custos salariais com os destes países, seriam necessárias tamanhas reduções de salários que a economia europeia seria competitiva, mas morta. Enfim, os franceses não querem isto. Numa sondagem recente 4, onde o Ifop pergunta qual é a melhor solução para melhorar o poder de compra, apenas um em cada seis cita o aumento do tempo de trabalho: os mais citados são a redução da TVA (57%) e da fiscalidade sobre os combustíveis (43%), enquanto que "um aumento significativo do salário mínimo/hora" obtém 36% de respostas favoráveis.

Os franceses não têm nenhuma ilusão sobre as "reformas" liberais que implicam pensões reduzidas, serviços públicos privatizados e novos benefícios fiscais para os ricos. Como fazer então para abanar a resignação eleitoral? Não há, evidentemente, resposta-milagre, mas a única forma é insuflar nesta campanha o espírito do Não e da luta contra o CPE. Nos dois casos, foi possível recusar o discurso dominante, recusar a dupla fatalidade, a da Europa obrigatoriamente liberal e a do emprego obrigatoriamente flexível. Por que não estender esta rejeição da Constituição liberal e do contrato de trabalho anti-jovens aos projectos que fazem da globalização capitalista um horizonte inultrapassável?

As margens de manobra para uma outra política são realmente enormes, desde que não se tenha por adquirida a actual repartição da riqueza, uma das piores para os assalariados desde há um século. É economicamente possível aumentar os salários e os mínimos sociais em vez de bloqueá-los, aumentar as contribuições patronais em vez de as reduzir. Um relatório recente 5 acaba de revelar que os apoios públicos às empresas representam 65 mil milhões de euros, ou seja, "a ordem de grandeza das receitas acumuladas do imposto sobre as sociedades e da taxa profissional". Assim, tudo é possível, como diria Sarkozy, até sair da situação apodrecida que nos deixaram mais de 20 anos de política liberal. Só falta obter os meios, e isso passa por uma verdadeira insurreição eleitoral que exprimiria mais uma vez a rejeição da fatalidade. Esta é a tarefa dos candidatos anti-liberais. Possam eles fazê-lo a uma só voz.

 

1 Sondage Sofres, http://www.tns-sofres.com/etudes/pol/290306_preocconso_n.htm

2 http://acdc2007.free.fr

3 Nick Isles, The Risk Myth, The Work Foundation, http://hussonet.free.fr/riskmyth.pdf

4 «Les Français et le pouvoir d'achat», Metro, 26 Janvier 2007, http://gesd.free.fr/pametro.pdf

5 http://hussonet.free.fr/aidaudit.pdf

(...)

Resto dossier

Dossier Eleições presidenciais em França

O dossier desta semana é sobre as eleições presidenciais em França que terão a primeira volta no próximo dia 22 de Abril.

Declaração de candidatura de José Bové

A França nunca foi tão desigual.
Um grande patrão ganha 300 vezes, ou mais, que um trabalhador que receba o salário mínimo. Os mais ricos fogem ao fisco quando 100 000 pessoas dormem na rua. As stocks-options recompensam os despedimentos.
É tempo de pôr fim a um sistema que lança a grande maioria dos assalariados na precariedade e na insegurança social. É tempo de decretar a insurreição eleitoral contra o liberalismo económico.

“Na rua, nas urnas”, texto de Besancenot

Nicolas Sarkozy pode visitar fábricas, citar Jaurés e Blum e desenvolver muitos esforços para se fazer passar por amigo dos trabalhadores, mas terá dificuldade em mascarar que ele é sobretudo o candidato plebiscitado pelo MEDEF (central patronal francesa). E desde que ele se solte, como o fez na TF1 denunciando os que “matam o carneiro na banheira”, o natural vem ao de cima a galope: é o eleitorado de le Pen que ele adula. Mas só pôde apresentar-se como o candidato do poder de compra – “trabalhar mais para ganhar mais” porque a candidata socialista estava calada sobre as questões sociais.

Vídeo com 2,5 milhões de visitas: o verdadeiro Sarkozy

O vídeo nas plataformas YouTube e DailyMotion tem sido largamente usado na campanha das eleições presidenciais francesas. O vídeo "Le vrai Sarkozy" (O verdadeiro Sarkozy), disponível na net desde Julho de 2006, colocado nas duas plataformas e em vários endereços, já teve no total mais de 2,5 milhões de visitas.

O balanço da net-campanha

A quatro semanas da primeira volta da eleição presidencial, que balanço fazer da campanha na internet? Desde há vários meses, vários grupos de protagonistas têm repetido a mesma cantiga. "É na net que isto se vai decidir", repetiram em coro jornalistas políticos e empresários da web - sem esquecer os mais convencidos: a equipa de campanha de Ségolène Royal, que tinha criado desde Fevereiro de 2006 o site participativo Désirs d'avenir (Desejos de futuro).

Polémica na esquerda: O peso nulo da esquerda antiliberal

O filósofo Michel Onfray foi um dos defensores da união da esquerda antiliberal, com base num programa que encontrasse o ponto de união dos programas de cada uma das formações políticas. Neste texto, ele lamenta que a união não se tivesse concretizado, e que a esquerda antiliberal não vá ter qualquer peso nas eleições. E volta a defender a união para depois das presidenciais.

Polémica na esquerda: A união, mas não a qualquer preço

O texto que se segue é de Daniel Bensaid, dirigente da LCR, e foi publicado numa tribuna no diário  Libération, a 7 de Dezembro de 2006. É uma resposta a um artigo do filósofo Michel Onfray, que publicara um apelo ao entendimento da esquerda anti-liberal. E levanta uma das questões que levou ao fracasso da candidatura única: a falta de acordo em torno de uma eventual coligação  governamental ou parlamentar com o Partido Socialista.

O nacionalismo "soft" de Nicolas Sarkozy

Os discursos de Nicolas Sarkozy sobre a imigração e a identidade nacional podem ser qualificados de "nacionalistas". Mas trata-se de um nacionalismo "soft" adaptado às leis da democracia televisiva, às quais estamos submetidos hoje.
Texto de Gérard Noiriel, publicado no site mouvements.asso.fr a 29 de Março de 2007.

Eleições presidenciais em França: candidatos e sondagens

A primeira volta das eleições presidenciais em França realizar-se-á dia 22 de Abril, a segunda volta a 6 de Maio.
A estas eleições concorrem 12 candidatos. Nas últimas sondagens Nicolas Sarkozy (candidato de direita pela UMP) está em primeiro lugar com valores entre 26% e 31%. Em segundo lugar, Ségolène Royal, candidata do PS, com valores entre 24,5% e 27%. Em terceiro lugar, François Bayrou, candidato do partido de direita UDF, com 18% a 22%. Em quarto lugar, Jean-Marie Le Pen, candidato da Frente Nacional de extrema-direita, com 11% a 14,5%. E em quinto lugar, Olivier Besancenot, candidato da Liga Comunista Revolucionária (LCR), com 3% a 4,5%.

Ségolène Blair e Nicolas Thatcher

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É pouco provável que Le Pen obtenha um resultado semelhante ao de 2002

A investigadora Nonna Mayer, do Centro de Investigações Políticas de Ciências Políticas (CEVIPOF), fala sobre a Frente Nacional, nesta entrevista em que analisa a trajectória desta formação de extrema-direita, as características do seu eleitorado e as suas temáticas de campanha.