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A PECmania ou o PS em maior dó

A tragicomédia do congresso do PS mostra-se pela inflamada defesa da Caixa pública enquanto Teixeira dos Santos anda a tentar vender os seguros da CGD a privados...

1 - A acrobacia do PS, e logo nesta altura, de tentar compor uma agenda de esquerda contra a agenda liberal do PSD é gesto digno do patético, do partido de todas as as capitulações no estado social,sempre com mais algumas privatizações de bónus. Um partido que corta os apoios sociais no meio da maior crise de desemprego, e boom de pobreza, não tem sequer a legitimidade, peso os termos, de reclamar o que quer que seja de esquerda. A esquerda é sempre, no mínimo dos mínimos, a protecção dos mais desfavorecidos, jamais o seu abandono cínico. O PS escolheu o sistema financeiro e as empresas rentistas, onde injecta os recursos que espolia aos outros, onde faz o paraíso fiscal, é a escolha dos liberais, assuma-a. O PS, aos olhos do povo, é uma imensa corte de Varas e essa é a face menos oculta do país, basta entrar em qualquer café para saber da cáfila dos self made men de Rato city.

2 - O cúmulo da hipocrisia, já chegámos a tudo, imagine-se é recuperar o chumbado PEC4 (e os antecedentes) como um pec de "esquerda" contra o programa do FMI, esse de direita. Não se pode deixar de recordar que esse peczito congela pensões, aumenta impostos, promove despedimentos baratinhos, indicia o roubo do 13º mês, empacota privatizações, quase que liquida o apoio aos desempregados, numa lista de horrores sociais... Esse receituário é já o do FMI, agora em agravamento acelerado. Quem se meteu nas mãos do FMI foi o PS, gorado que foi o marketing de tentar ludibriar o papa e o herege ao mesmo tempo:praticar o FMI e fugir à marca. É claro que a direita rejubila pelo facto do PS fazer o "ajustamento" contra os salários , os serviços públicos, o sector empresarial do estado. Tudo o que de negativo daí resultar é sempre cobrado ao pior primeiro-ministro das últimas décadas(consegue ultrapassar Santana em duplicidade de conduta,contradições entre discurso e actos,embora se saiba que o mundo muda muito 5 minutos antes de ele abrir a boca).

3 - O plano anti-FMI obriga a uma resposta oposta. Reforma Fiscal para trazer mais de 25% do produto para as contas públicas, corte imediato na extorsão gravosa das parcerias público-privadas cujos encargos atingem cerca de metade do valor que se fala do resgate do FMI, auditoria da dívida para a renegociar e baixar juros e prazos, bem como denunciar encargos de fraude contra a república. Ninguém ignora que são requeridas outras medidas ao nível europeu ou global, sobre taxação de transacções financeiras, eliminação de off-shores, dívida pública na escala do perímetro emissor de moeda, etc. Contudo, Portugal tem alternativa a este tipo de crise no seu quadro, como bem se sabe, mesmo se não se registarem contrapartidas europeias. Aliás, a UE de Merkel/Sarkozy/Cameron pretende apenas confortar a "sua" banca com a extorsão dos pequenos países pela via da especulação contra as dívidas avalizadas pelos estados respectivos. Uma alternativa oposta ao FMI será insuficiente sem o relançamento da economia, garantindo quotas vitais de investimento público reprodutivo e a baixa administrativa de preços de factores de produção,em especial na área da energia. O maior défice do país são 700 mil desempregados!

4 - Nas próximas eleições o mais difícil é garantir que há alternativa à esquerda contra o FMI, tal é a massiva operação de terrorismo informativo que tem sido feito para que as vítimas do FMI o encarem como algo de inevitável, assim uma espécie de uma doença grave a vencer... O programa do FMI e dos partidos que o apoiam, o que nos próximos 5 anos é uma e a mesma coisa, é uma agenda meia escondida nas medidas concretas até às eleições de 5 de Junho, mas toda a gente já percebeu que é para viver pior. A nossa responsabilidade é mostrar que há escolhas agora, agora mesmo, e não num qualquer futuro! O Bloco de Esquerda, e nisso não está sozinho, sabe como aliviar a dívida e criar emprego, eixo essencial de um governo de Esquerda. O FMI não põe a democracia no congelador,temos escolhas. A política da vontade popular pode gerar as escolhas de dignidade e justiça social.

5 - Um governo de Esquerda obviamente dispensa o PS, tem que ser construído contra as privatizações, o pacote do FMI,o conchavo do PS com o capital financeiro, os acordos répteis na união europeia, a NATO que bombardeia cada vez mais na vizinhança. A maioria que esse objectivo pressupõe tem que ser ganha à custa dos partidos pró-FMI nesta etapa de combate à iníqua e recessiva austeridade. Imensas pessoas que hoje, apesar de tudo, ainda sufragam o PS e o PSD hão-de procurar novas soluções ante o descabro nacional. O quadro das últimas eleições presidenciais, obrigando Cavaco Silva a uma 2ª volta, intento falhado, nada tem a ver com o quadro das eleições antecipadas onde Cavaco já garantiu o apoio de CDS, PSD e PS para os mesmos compromissos com Bruxelas. O distanciamento do cavaquismo, ponto-cruz do regime,está agora nos partidos mais à esquerda. E o PS não é reformável enquanto estiver refém dos negócios ao mesmo nível que a"direita dos interesses". A tragicomédia do congresso do PS mostra-se pela inflamada defesa da Caixa pública enquanto Teixeira dos Santos anda a tentar vender os seguros da CGD a privados...

6 - O manifesto dos 47, trazido pelo Expresso neste 9 de Abril, de apoio ao PEC, base do compromisso externo do país segundo os subscritores, e o grande apelo a um Governo de Bloco Central fala por si. O grosso são notáveis do PS, com umas personalidades desgarradas da direita conservadora, e empresários como Balsemão e Belmiro. O Expresso traz-nos a novidade do arrolamento de Boaventura de Sousa Santos. A PECmania tem iman. Já na semana anterior, o mesmo periódico deu-nos em discurso directo Fernando Nobre a oferecer-se para um governo de Bloco Central, embora esteja mais do lado do Passos. É do tempo, esse cocktail de PECmania com PS em maior dó. Já o teleponto desacerta...

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, professor.
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