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Hugo Chávez: Bush quer impedir que nasça o novo Mercosul

Nas entrevistas que deu durante a viagem à Argentina, o presidente Hugo Chávez, da Venezuela, denunciou as tentativas de Washington para interpor uma cunha entre os países do Mercosul, e sobretudo impedir que nasça o novo Mercosul, "que é o que nós propomos com a entrada da Venezuela." Chávez faz também a comparação entre George Washington e Simón Bolívar, que considera um percursor do socialismo.

Hugo Chávez: Bush quer impedir que nasça o novo Mercosul

Martín Piqué, Página/12, Buenos Aires, 10/3/07

Como cada vez que se encontra com um grupo de pessoas interessadas em saudá-lo ou em conversar, Chávez não teve problemas em deter-se para falar com os jornalistas. Imediatamente ficaram claras quais eram as suas preocupações: a mudança de discurso e de estratégia de George W. Bush em relação à América Latina e a oferta de substituir de forma progressiva o petróleo pelos combustíveis biológicos. Nos bastidores, com os gravadores desligados, os bolivarianos confiavam que a "contra-viagem" de Chávez à Argentina procurava contrariar o esforço de Washington para seduzir o Brasil. Em São Paulo, Bush propôs a Lula assinar um acordo de cooperação para desenvolver o etanol. Chávez dedicou quase todo o tempo a replicar e ironizar as promessas do norte-americano. "Seria uma loucura semear tanto milho, cana de açúcar e soja não para alimentar animais ou humanos mas sim para dar sustentação ao americam way of life", advertiu.

Qual a sua opinião sobre as declarações de Bush no Brasil?

Bush disse que vai concluir a revolução começada por Washington e Bolívar. Viram como manipula? Compara Washington com Bolívar. Washington nasceu pobre e morreu rico. Bolívar nasceu rico e morreu pobre. Washington foi o líder de um processo de independência para apoiar a elite esclavagista. Quando morreu, tinha fazendas e escravos. Bolívar, em contrapartida, libertou os milhares de escravos que herdou e levou-os à guerra com a bandeira da igualdade, liberdade e fraternidade. Washington é o símbolo do capitalismo. Bolívar é um percursor do socialismo. A frase de Bush não foi dita por se ter lembrado de repente. Ele não fala por si mesmo, tem assessores que o põem a falar. É suspeito que tenha dito que é necessário concluir as revoluções começadas por Washington e Bolívar. E que o faça justamente agora, quando detivemos um grupo de pessoas com algumas evidências de que estão a preparar uma vez mais um magnicídio em Caracas. É muito suspeito.

Que acha do artigo do New York Times com o título "Obrigado Chávez"? (O jornal disse que, graças ao venezuelano, o governo de Bush se tinha lembrado da pobreza na América Latina).

Bush deu-se conta agora de que há pobreza na América Latina. E Cristóvão Colombo descobriu as Índias! E oferece-nos um grande plano: 75 milhões de dólares e enviar um barco para atender 80 mil pacientes e fazer 1.500 operações. Bush fala de 75 milhões de dólares como se fosse um número gigantesco, quando, só entre Havana e Caracas, em ano e meio, fizemos já 400 mil operações da Misión Milagros (missão que visa tratar pessoas desfavorecidas com problemas de visão). E entre Argentina e Venezuela lançamos o Bono del Sur (título do Sul) e captámos 1.500 milhões de dólares para projectos de desenvolvimento. Teríamos que ver que percentagem significam esses 75 milhões de dólares dos 500 mil milhões de dólares que os Estados Unidos gastam em armamento e na invasão de povos, ou em manter 20 ou 25 porta-aviões nucleares em todo o mundo. Mantêm o mundo ocupado militarmente. Ou que percentagem é do que pagamos em dívida externa, nós povos da América Latina, nos últimos 20 anos. E a dívida não baixa, mantêm-se na mesma. A Argentina e a Venezuela vêm-se libertando dessa dívida ao Fundo Monetário. Já não vai ser preciso, até podíamos fazer-lhe algum empréstimo (risos). Agora que o Fundo está em crise... Têm que aplicar o seu próprio choque.

Pensa que os Estados Unidos querem aproveitar o conflito em torno das empresas de celulose para meter uma cunha no Mercosul?

Nada é inocente. É um plano. Estão a tentar debilitar o Mercosul e sobretudo impedir que nasça o novo Mercosul, que é o que nós propomos com a entrada da Venezuela. E sempre tentando criar fricções entre a Colômbia e a Venezuela. Diante desta viagem imperialista, saímos à frente com esta viagem anti-imperialista.

Vai reunir com Evo Morales?

Vamos-nos encontrar na Bolívia e visitar a zona das inundações, que é terrível e é produto das alterações climáticas. Agora vem Bush com esta história do plano do etanol. É uma loucura! Bush disse que em 2017 vão produzir a quantidade de etanol para substituir até 20% da gasolina. Isto parece algo muito positivo. O ambiente, combustível verde, que não contamina...

Mas vejamos de outra forma. Para produzir um milhão de barris de etanol, é preciso semear 20 milhões de hectares de milho. Estaríamos a semear muito milho, muita cana de açúcar e muita soja, mas não para alimentar nem animais nem humanos, mas sim veículos, para dar sustentação ao american way of life. Mas o planeta não aguenta. É uma verdadeira loucura. Temos de responder com uma aliança de países produtores e exportadores de gás, começando pela América do Sul. Bolívia, Venezuela, Argentina, que tem uma tecnologia de gás muito avançada. É essa a resposta que temos de dar.

Como fica a sua relação com Lula depois da visita de Bush a São Paulo?

O Brasil tem os seus interesses e é necessário respeitá-los. Isso não põe em nada em perigo a relação dos países do Mercosul, ou a relação de Lula com Chávez. A amizade e a relação entre nós é inquestionável.

(...)

Resto dossier

Dossier: Bush na América Latina

As manifestações de protesto em todos os países que Bush está a visitar na sua viagem pela América Latina mostram o desgaste que a administração dos EUA vive frente ao povo do continente. Consciente da sua perda de influência, Bush apresenta uma retórica amena, que o levou mesmo a apresentar-se como "filho de Bolívar". Mas os EUA vão gastar mais no Iraque só nesta semana do que com todos os programas anunciados para um ano na América Latina.

Esquerda.Rádio entrevista historiador brasileiro sobre viagem

O tema do magazine desta semana incide sobre as viagens que George W.Bush e Hugo Chávez estão a fazer por vários países da América Latina.

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A visita de Bush: mudança de retórica para disputar com Chávez

A preocupação de Bush de se apresentar com uma retórica amena aos povos da América Latina foi tal, que chegou ao ponto de se apresentar como "filho de Bolívar". Bush agora fala de "justiça social", de uma "mensagem de esperança", de "mudança para os pobres". Mas os EUA vão gastar mais no Iraque só nesta semana do que com todos os programas anunciados para um ano na América Latina.

Ao chegar à Argentina, Chávez ataca projectos de Bush

Veja o vídeo da chegada do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, a Buenos Aires.

Visto do Brasil: Onze razões para não confiar em Bush

"O que Bush vem fazer no Brasil?", pergunta o jornalista e professor universitário Bernardo Kucinski, para logo responder: "Coisa boa não deve ser". Kucinski observa que "sem o cancelamento da sobretaxa americana de US$ 0,14 por litro de álcool brasileiro, a proposta de uma parceria de estímulo à produção de etanol é enganação. Só no ano passado, o governo americano embolsou US$ 220 milhões de sobretaxa ao etanol importado do Brasil. Dinheiro que poderia e deveria ser nosso." O jornalista alinha 11 razões para não confiar em Bush.

Uruguai-EUA: Bush, a visita incómoda

A chegada de Georges W. Bush ao Uruguai, nesta 6ª feira, levantou grande protesto na coligação de esquerda que governa pela primeira vez este país. Os sectores mais radicais protestaram, mas o presidente Tabaré Vásquez actua com pragmatismo, ainda que se reafirme anti-imperialista.
A Frente Ampla (FA), composta por partidos historicamente opostos à hegemonia e ao militarismo de Washington, ao neoliberalismo económico e às directivas impostas pelos organismos de crédito multilaterais, envolveu-se num duro debate interno sobre a atitude a seguir face à presença do presidente norte-americano, que devolve a visita que Vásquez fez em Maio de 2006.

Banco do Sul causa nervosismo ao FMI

Em fins de Fevereiro, os presidentes da Argentina, Nestor Kirchner, e da Venezuela, Hugo Chávez, decidiram criar o Banco do Sul, que deverá ter o seu plano de acção pronto em 120 dias. Outros países, como a Bolívia e o Equador, já mostraram interesse em juntar-se ao processo, que causou grande nervosismo na sede do FMI. Esta instituição está a enfrentar dificuldades financeiras a curto prazo, com um défice de 105 milhões de dólares acima do previsto neste ano fiscal, uma coisa que não acontecia desde 1985.

Biocombustíveis: Entidades brasileiras rejeitam modelo de produção com base no agronegócio

Diante da visita do presidente dos EUA, George W. Bush, ao Brasil para tratar do etanol, movimentos sociais defendem a produção de agrocombustíveis, desde que beneficie agricultores familiares e não seja com base no modelo agroexportador.