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Entrevista Fernado Morais: Cuba não vai cair

"O tigre que sentiu o gosto de sangue, jamais vai querer voltar a ser vegetariano." Para o jornalista e escritor Fernando Morais, 60 anos, o processo de transição para o capitalismo em Cuba ainda não começou. E nem vai começar. São algumas palavras de um dos maiores jornalistas brasileiro, especialista em Cuba, à repórter Sylvia Colombo da Folha de São Paulo.
Autor, entre várias obras, do livro reportagem "A Ilha" (Companhia das Letras), relato entusiasmado sobre as conquistas da Revolução, best-seller na época do seu lançamento, há 30 anos, e amigo de Fidel Castro, Morais defende o regime cubano sem hesitar. Para Fernando Morais, no caso dos EUA tentarem intervir após a morte de Fidel, morrerão na praia, como na batalha da Baia dos Porcos, em 1961 (em que tropas armadas pelos EUA foram derrotados por milicianos cubanos).

Folha - O que o senhor acha que vai acontecer quando Fidel morrer?

Fernando Morais - Não sei. Mas tenho certeza do que não vai acontecer. Não haverá transição para outro tipo de sistema. Há um vício de associar a Revolução Cubana aos antigos regimes da Europa do Leste, os chamados satélites da União Soviética. E não tem nada a ver uma coisa com a outra. Essa visão equivocada do que seria a Revolução Cubana levou as pessoas a acharem que, com o fim da União Soviética, o regime cubano acabaria. Não acabou.

Folha - Por que não?

Morais - Porque em Cuba a revolução foi feita pelo povo. É evidente que não é a sociedade ideal. Mas há um símbolo que gosto de citar e que responde às dúvidas da maioria das pessoas sobre por que esse regime sobrevive há tanto tempo. É uma placa na saída de Havana que diz: "Hoje à noite, 500 milhões de crianças vão dormir na rua. Nenhuma delas é cubana". Aí as pessoas dizem: "Ah, mas o preço é muito alto". É, sim. Mas, daqui a 200 anos, Cuba será lembrada por ter sido o primeiro país pobre deste continente a acabar com a miséria e por ter sido o país que durante mais tempo sobreviveu às agressões dos EUA. Essas coisas estão relacionadas.

Folha - Como assim?

Morais - Cuba só conseguiu acabar com a miséria porque tem uma população armada. Por que não derrubam Fidel se todo mundo com mais de 16 anos lá tem uma arma de fogo? E se é uma população organizada? Não derrubam porque o regime é uma construção tijolo a tijolo que não foi feita de cima para baixo. Não é preciso muito sociologismo para entender, pois há conquistas objectivas. Os índices de desenvolvimento humano superam os de alguns Estados americanos. E Cuba não é nada. É o PIB da Daslu (cadeia de lojas de roupa brasileira).

Folha - Os EUA subestimam a vontade do povo de manter o regime?

Morais - Subestimam. E é por terem memória curta. Em 1961, [o presidente John] Kennedy armou, financiou e patrocinou os mercenários cubanos para derrubarem Fidel. Em 72 horas foram escorraçados, pois a população os derrotou. Quem tinha arma levava, quem não tinha levava taco de basebol.

Folha - Então você acha que, se os EUA interferirem na transição, pode ocorrer uma nova Baía dos Porcos?

Morais - Sim, vão ter que matar todo mundo. Vão ter que acabar com os 11 milhões de cubanos. E não só porque eles vão defender o regime. Isso está na história de Cuba. Vem do tempo dos espanhóis. A rebeldia e a insubmissão dos cubanos é célebre. Eu não tenho preocupação. Lá não é Moscovo. Não vai acontecer a mesma coisa.

Folha - Uma questão clássica: por que, para garantir as tais conquistas, o regime tem de ser tão fechado?

Morais - Não é bem assim. Não é porque deu comida e deu escola para todo mundo que precisa tirar a liberdade. Mas sim pelo facto de ter dado tudo isso enquanto se está em guerra.

Folha - E Cuba está em guerra?

Morais - Há 50 anos está em guerra com os EUA. Se você chegar hoje no Iraque e disser que quer montar um jornal contra a ocupação americana, vão deixar? É a mesma coisa. A responsabilidade pelo facto de o regime ser fechado é a sucessão de agressividades dos EUA contra Cuba, desde sabotagem de colheitas a leis destinadas a desarticular a economia cubana.

Folha - Isso é guerra?

Morais - Sim, e o que está acontecendo com a notícia da doença do Fidel é a melhor prova. Imagine se, quando Tancredo Neves fez a cirurgia, o presidente dos EUA dissesse: "Estamos preparando aqui em Washington a transição, e o próximo presidente não pode ser o vice, Sarney. Vocês brasileiros vão decidir, mas só não vai poder ser o Sarney". Em qualquer lugar, se algo assim acontecesse, as pessoas iam sair para a rua e dizer que não. Não iam?

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Resto dossier

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Pode a revolução sobreviver?: A última batalha de Fidel

Jon Lee Anderson é um profundo conhecedor de Cuba e autor de umas das melhores biografias de Che Guevara, nesta reportagem feita para a New Yorker, 24/7/2006, anterior a hospitalização de Fidel, faz um retrato do momento que se vive na ilha.
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Carlos Alberto Montaner: "Desmantelar este anacrónico manicómio"

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Gabriel García Márquez: O Fidel que eu conheço

A sua devoção pela palavra. O seu poder de sedução. Vai buscar os problemas onde estão. O Ímpeto e a inspiração são próprios do seu estilo. Os livros reflectem muito bem a amplitude dos seus gostos. Deixou de fumar para ter a autoridade moral para combater o tabagismo. Gosta de preparar as receitas de cozinha com uma espécie de fervor científico. Mantém-se em excelentes condições físicas com várias horas de ginástica diária e natação frequente. Paciência invencível. Disciplina férrea. A força da imaginação arrasta-o até ao imprevisto. Tão importante como aprender a trabalhar é aprender a descansar.