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Crise nuclear japonesa: desespero contra o relógio?

Por que o governo não inicia treinos de evacuação para a eventualidade de enfrentarmos fumos prejudiciais saídos dos reactores? Todos dirão que é para não criar pânico desnecessário. Desnecessário?
Nos próximos dias, quando a temperatura alcançar os 20 graus, voltaremos a ver fumo saindo dos reactores? Foto de daveeza, FlickR

A decisão da Tóquio Electricidade (TEPCO) de despejar, no Oceano Pacífico, toneladas de água contaminada pela radioactividade não agradou a ninguém. E está a gerar apreensão em vários países, principalmente os mais próximos, como a Coreia do Sul e a China. Essa medida só pode ser considerada uma atitude desesperada por parte da empresa e também do governo que aceita essa situação.

Apesar de as autoridades alegarem que tal radioactividade será diluída na imensidão do mar, é uma desculpa difícil de engolir. Concretamente, não só é uma decisão de poluir o mar, com consequências que ainda não sabemos – mas podemos imaginar, como também já acarreta problemas imediatos naqueles que têm no mar um dos principais motivos de sua existência, como é o caso dos pescadores e também de pessoas que, de alguma forma, estão relacionadas com a actividade marinha.

O desespero destes dias está relacionado com a mudança climática derivada da mudança de estação. A cada dia que passa, o calor aumenta e não existe, desde o terremoto, nenhuma solução efectiva para o resfriamento dos reactores, necessário para impedir a fuga de quantidades pequenas ou grandes de radioactividade. No interior do reactor 2 existe uma grande quantidade de água com alto grau de radioactividade. Essa água transformou-se no principal obstáculo para prosseguir na tentativa de estabilizar a sistema de refrigeração. Como não é possível, neste momento, devido à opinião pública, despejar essa água no mar, é necessário transportá-la para os reservatórios. Para isso, é preciso esvaziá-los, o que levou à decisão de despejar o conteúdo no mar, por se tratar de uma água com teor de radioactividade “mais baixo” e, só depois, iniciar a mudança da água com grande teor de radioactividade para os reservatórios esvaziados. Mas, mesmo isso, não é uma coisa possível imediatamente e serão necessários vários dias ou mesmo uma semana para que se possa iniciar tal procedimento.

Mesmo após o término desse processo de transferência da agua altamente radioactiva, não existe nenhuma garantia de que os trabalhos realizados consigam estabilizar ou reconstituir o sistema de refrigeração danificado. Segundo o calendário das estações, a Primavera começou em 23 de Março. O Verão começa em 23 de Junho. Após um mês sem nenhum resultado definitivo, a maioria está a fazer-se de cega, não querendo imaginar o que possa acontecer no decorrer da Primavera e do Verão. Nos próximos dias, quando a temperatura alcançar os 20 graus, voltaremos a ver fumo saindo dos reactores? Será fumo “inofensivo”? Fazer-se de cego pode diminuir a angústia, mas não serve para salvar a pele de ninguém. No Japão, são comuns treinos para casos de terramotos, apesar de não servirem para muita coisa, como foi verificado tragicamente. Por que o governo não inicia treinos de evacuação para a eventualidade de enfrentarmos fumos prejudiciais saídos dos reactores? Todos dirão que é para não criar pânico desnecessário. Desnecessário? Na falta, mesmo, de perguntas e também de respostas, só consigo interpretar as últimas atitudes como desesperadas, numa corrida cuja pressão do relógio cada dia é mais evidente.

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