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Estudo da revista Lancet

655000 IRAQUIANOS MORTOS EM CONSEQUÊNCIA DA GUERRA
Publicamos aqui em português extractos do estudo de Gilbert Burnham, Riyadh Lafta, Shannon Doocy, Les Roberts da revista The Lancet* que pode ser consultado no texto original em inglês ou traduzido em espanhol no site rebelion.org

Calculamos que em consequência da invasão da coligação, iniciada a 18 de Março de 2003, tenham morrido cerca de 655000 iraquianos para além do número que se poderia esperar numa situação sem conflito, o que equivale a 2,5% da população na área estudada.

Aproximadamente 601000 deste excesso de mortes deveram-se a causas violentas. A nossa avaliação da taxa de mortalidade bruta após a invasão representa o dobro da taxa de mortalidade linear, o que constitui uma situação de emergência humanitária.

A nossa valoração da taxa de mortalidade bruta ou de todas as causas de mortalidade está em completo acordo com a de outras fontes. A taxa de mortalidade bruta após a invasão aumentou significativamente os números anteriores à invasão e mostrava uma tendência ascendente. O número ascendente de mortes violentas segue o número dos corpos contabilizados nas morgues, assim como os recolhidos através dos meios de comunicação e pelo Iraq Body Count

Aplicando as taxas de mortalidade referidas ao período de estudo de 2004, obtém-se uma estimativa, durante esse período no Iraque, de um excesso de mortes que alcança o número de 112000 (69000-155000). Assim os dados apresentados aqui validam o nosso estudo de 2004, que, de forma cautelosa, calculo um excesso de mortliodade de quase 100000 pessoas em Setembro de 2004.

As nossas estimativas sobre o excedente de mortes no Iraque são muito mais altas que as proporcionadas pelas medidas de vigilância passivas. Esperávamos esta discrepância. Os dados que se obtêm com a vigilância passiva quase nunca são completos, mesmo em circunstâncias de estabilidade e são muito menos completos durante os conflitos, quando o acesso às zonas é muito limitado e os factos fatais poderão ser intencionalmente ocultados. Para além da Bósnia, não encontrámos nenhuma situação de conflito onde a vigilância passiva recolhesse mais de 20% das mortes registadas por métodos baseados em estudos directos com a população. Em diversas conflagrações a morte e a doença calculadas por métodos baseados em instalações subvalorizam os factos em dez ou mais vezes comparados com as estimativas conseguidas a partir da população. Entre 1960 e 1990 as contagens dos periódicos sobre as mortes por violência política na Guatemala recolheram correctamente 50% das mortes nos anos de baixa violência, mas menos de 5% nos piores anos de violência. Entretanto as contagens de vigilância são importantes para controlar as tendências no tempo e para a contagem de dados individuais e estes dados articulam-se estreitamente com os nossos próprios dados.

As taxas de mortalidade por causas violentas aumentaram ano após ano depois da invasão. Em meados de 2006 deram-se 91 mortes violentas em seis meses, comparadas com as 27 de 2003 após a invasão, as 77 de 2004 e as 105 de 2005, o que sugere que a violência aumentou substancialmente. A causa que provocou estas mortes mudou também com o tempo. Os nossos dados mostram que as armas de fogo são a causa mais importante de morte no Iraque, atingindo cerca de metade do total das mortes violentas. Sobre as mortes causadas por ataques aéreos durante 2006 informou-se muito menos que das ocorridas em 2003/4, mas as mortes provocadas por explosões de automóveis aumentaram desde finais de 2005. A proporção das mortes violentas atribuídas às forças da coligação pode ter alcançado o ponto mais alto em 2004, contudo o número total de mortes iraquianas atribuídas às forças da coligação aumentou velozmente no decurso de 2005. Não se classificaram as mortes como causadas pelas forças da coligação se as famílias não tinham a certeza sobre a parte responsável das mesmas, em consequência o número de mortes e a proporção de mortes violentas atribuíveis às forças da coligação devem ter estimativas muito cautelosas. Neste estudo não se pôde distinguir entre assassinatos criminais e acções das forças de resistência.

Por todo o Iraque os mortos e feridos por causas violentas concentram-se na faixa de idade compreendida entre a adolescência e a meia-idade. Ainda que alguns tenham sido provavelmente combatentes, uma série de factores expõe aquele grupo a mais riscos, por exemplo o estilo de vida, viajar em automóvel e os empregos longe de casa. As circunstâncias de um certo número de mortes por disparos sugerem assassinatos ou execuções.

Desde Janeiro de 2002 até à invasão de 2003 todas as mortes no Iraque foram causadas em geral por causas não violentas. As principais causas das mortes não violentas foram as mesmas que as principais causas de morte nos hospitais das que informou o ministério da saúde. As taxas de mortalidade por causas não violentas não variaram no essencial desde os níveis anteriores à invasão até 2006, quando aumentaram em 2,0 mortes por cada 1000 habitantes ao ano sobre a base linear anterior à invasão, um aumento que não era significativo.

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No Iraque tal como noutros conflitos são os civis que mais sofrem as consequências da guerra. Na guerra do Vietname morreram 3 milhões de civis, na República Democrática do Congo o conflito causou entre 3 e 8 milhões de mortos e no conflito de Timor-Leste morreram 200000 pessoas numa população total de 800000. Estimativas recentes apontam para que em Darfur tenham morrido 200000 pessoas nos últimos 31 meses. Consideramos que quase 655000 pessoas - 2,5% da população da zona em estudo - morreram no Iraque. Ainda que estas taxas de morte possam ser comuns em tempos de guerra, a combinação entre a longa duração e as dezenas de milhões de pessoas afectadas converteram este conflito no conflito mais mortífero do século XXI, facto que deveria ser motivo de grande preocupação para todos.

Ao concluir o nosso estudo de 2004 pedimos encarecidamente para que uma entidade independente calculasse o excesso de mortalidade tínhamos verificado no Iraque. Não foi levado a cabo. Continuamos a acreditar que é urgente e necessário que uma entidade internacional independente realiza um controlo da situação no cumprimento das Convenções de Genebra e de outros padrões humanitários para situações de conflito. Com dados fidedignos as vozes que se erguem em nome dos civis envolvidos num conflito podem conseguir atenuar o trágico custo humano de futuras guerras.

The Lancet é uma revista médica britânica semanal, das mais antigas e respeitadas em todo o mundo.

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