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Carreira docente 2

AVALIAÇÃO DE PROFESSORES: PARA QUÊ?
Há uma responsabilidade recíproca pessoal e social, própria da vivência democrática, que conduz ao facto de que "todos, sem excepção, têm de ser avaliados e responsabilizados para poderem ser avaliadores. Neste caso, os professores com certeza, mas também os alunos (não apenas em aspectos estritamente escolares mas igualmente quanto aos comportamentos cívicos) e os encarregados de educação." Artigo de Fernando Santos, Escola Secundária de Valongo.

Avaliação de professores: para quê?

Publicado originalmente em A Página da Educação

"O sistema de ensino tem, de facto, que ser meritocrático, o que não equivale a antidemocrático. Pelo contrário, exige-se-lhe ser capaz de procurar e estimular o mérito onde ele existe, uma responsabilidade tanto maior quanto a educação é mesmo o único meio de o conseguir. (...)"

Teodora Cardoso, A Educação e a Política in Jornal de Negócios

 

A proposta de alteração do actual ECD (estatuto da Carreira Docente) vem repor uma discussão já antiga e consensual sobre a necessidade de mudar o Sistema Educativo. A taxa de insucesso e abandono escolares nas escolas portuguesas mostra até que ponto o problema se tem arrastado e, ao compará-los com os restantes países europeus, o problema torna-se candente. Portugal já não o "país orgulhosamente só" e sofre as consequências da sua abertura à Europa e ao Mundo em geral. É necessário fazer uma avaliação profunda, mas clara.

Quando se fala da Escola Pública e dos seus objectivos, não podemos esquecer que cabe ao Estado a responsabilidade de garantir condições de equidade para que todos, sem excepção, possam ter acesso à formação e educação. Contudo, como diz Adalberto Dias de Carvalho: "A meritocracia é uma condição do desenvolvimento coerente das sociedades que tem de inspirar a própria educação enquanto motor da democracia e da construção da cidadania."

Contudo, há uma responsabilidade recíproca pessoal e social, própria da vivência democrática, que conduz ao facto de que "todos, sem excepção, têm de ser avaliados e responsabilizados para poderem ser avaliadores. Neste caso, os professores com certeza, mas também os alunos (não apenas em aspectos estritamente escolares mas igualmente quanto aos comportamentos cívicos) e os encarregados de educação."

Não sou contra a avaliação do desempenho por mérito profissional e pessoal. Contudo, nas actuais circunstâncias, em que nas Escolas se vive um quadro de desconfiança recíproca, de excessiva burocratização e "centralismo democrático" (vejam-se os exemplos de controle por parte das DRE's e Serviços Centrais do Ministério da Educação sobre a desejável autonomia das escolas), a proposta de avaliação do ME pode acentuar a tendência para que o exercício da profissão docente se torne, como diz Matias Alves: "mais complexo, mais intenso, mais simbolicamente desqualificado, mais caótico, mais conflituoso (na disputa dos bens escassos), mais competitivo, mais individualista, mais burocrático, mais impossível".

A avaliação, no meu entender, deve contribuir para reforçar os processos de liderança que tenha em conta não apenas as tarefas, mas também as pessoas que as realizam. Isabel Baptista assinala que: "Os papéis profissionais dos professores não podem ser burocraticamente definidos, sujeitos a vontades indiferentes à complexidade e à especificidade da realidade educativa." Receio que esta proposta acabe por liquidar o trabalho cooperativo entre professores, se centre excessivamente nos resultados escolares dos alunos e na ordenação das escolas (vulgarmente designados por "rankings escolares"), segregando-as, e hipervalorize o trabalho individual de cada professor.
Enfim, a proposta de avaliação do desempenho parece-me esconder intenções ideológicas de desvalorização da Carreira e da Escola Públicas, tornando a avaliação como um processo pouco consensual, pouco democrático e pouco transparente, ao hierarquizar e burocratizar o funcionamento das escolas. Isto é, centra-se nas responsabilidades dos líderes e nas tarefas a cumprir e, menos nos processos de liderança cooperativa e responsável das pessoas envolvidas.

(...)

Resto dossier

Dossier Professores e Educação

Os professores realizam esta terça e quarta-feira uma greve nacional contra a política educativa da ministra Maria de Lurdes Rodrigues. Depois da poderosa manifestação em Lisboa no dia 5 de Outubro, a luta dos docentes cresce a cada dia.

Um visionário

Nos anos 70, o austríaco Ivan Illich era muito lido e discutido. As suas obras influenciavam todos os que queriam pensar a escola e problematizar a educação. Hoje, está quase completamente esquecido. E, no entanto, as suas ideias são, em muitos aspectos, mais actuais do que nunca.

A ministra e os professores

O que a Ministra da Educação está a fazer é o mesmo que um realizador de cinema que matasse a sua personagem principal. Sem ela o realizador fica sem argumento. Sem professores a Ministra da Educação fica sem actores que levem a cabo aquilo que precisa de ser uma reforma profunda mas também agregadora, mas também responsabilizadora de todos os intervenientes na educação.

Carreira docente 2

Há uma responsabilidade recíproca pessoal e social, própria da vivência democrática, que conduz ao facto de que "todos, sem excepção, têm de ser avaliados e responsabilizados para poderem ser avaliadores. Neste caso, os professores com certeza, mas também os alunos (não apenas em aspectos estritamente escolares mas igualmente quanto aos comportamentos cívicos) e os encarregados de educação."

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"Abramos as portas e dêmos corda aos relógios. É boa altura para exigir o reconhecimento social da forma como trabalhamos, como nos vemos e como nos sentimos", diz Cecília Honório neste artigo sobre a polémica questão da avaliação dos professores.

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Conheça a seguir as mais recentes iniciativas legislativas do Bloco de Esquerda relacionadas com a educação, entre projectos de lei, requerimentos, comunicados e intervenções.

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Neste artigo, Rolando Silva, professor do Ensino Secundário, explica porque o Estatuto da Carreira Docente que o Ministério da Educação quer impor aos professores viola direitos fundamentais, aumenta as exigências para ingresso na formação, intensifica e funcionaliza o regime de trabalho dos professores e incapacita a maioria dos profissionais de exercer cargos que decorrem da sua habilitação durante parte significativa, ou mesmo, na totalidade da sua carreira.

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Neste artigo, Licínio C. Lima critica a denúncia do "eduquês" feita por Nuno Crato, no livro O "Eduquês" em Discurso Directo: "Ainda que no início do seu texto o autor seja cauteloso e evite generalizações", diz Licínio Lima, "a verdade é que ao longo do livro estes cuidados iniciais vão desaparecendo, do que resulta, com intenção ou sem ela, uma crítica generalizada ao pensamento educacional e à investigação portuguesa." Licínio Lima diz que não hesitaria em criticar tanto o "eduquês" quanto o "anti-eduquês", que considera igualmente ideológicos e orientados mais para o convencimento do que para a compreensão crítica e a argumentação.