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Afeganistão e direitos da mulher

RAWA: UM MODELO PARA O ACTIVISMO E A TRANSFORMAÇÃO SOCIAL
Divulgamos aqui um excerto do artigo de Sonali Kolhatkar publicado em Znet a 1 de Junho de 2006.
A Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão (RAWA)ganhou repercussão internacional depois dos ataques aos Estados Unidos a 11 de Setembro de 2001.
Dentro do contexto de continuidade de uma brutal Guerra, uma organização política de mulheres que existe e prospera é razão suficiente para estudar a RAWA. Acresce que a sua visão política é básica e não sectária, defendendo os direitos humanos universais, os direitos das mulheres, a democracia económica e uma progressista política de educação.

Criaram e distribuem a sua própria informação e, além disso, adoptaram com sucesso novas tecnologias para atingir os seus objectivos. RAWA é uma extraordinária organização que usa uma estrutura horizontal com ênfase no colectivo sobre o individual e emprega meios de decisão e práticas democráticas na resolução de conflitos internos. De facto a RAWA tem agido de uma forma com que sonhavam as organizações políticas progressistas ocidentais. O que podem os movimentos sociais ocidentais aprender com a RAWA? Para responder a esta questão resumo brevemente a minha experiência de trabalhar em solidariedade com a RAWA nos últimos 6 anos, complementada com a informação do livro "Com toda a nossa força" de Anne Brodsky (new York: Routledge, 2003).

Contexto histórico

A brutal história de guerra do Afeganistão naturalmente molda a RAWA dramaticamente. Os anos 70 foram um tempo de intenso protesto e activismo estudantil. Em 1977 uma jovem estudante da Universidade de Cabul fundou a RAWA para lutar pelos direitos das mulheres. A RAWA nasceu numa nação à beira da guerra imperial, da ocupação e de forças reaccionárias das quais ainda não emergiu. Um ano depois da formação da RAWA, a União Soviética invadiu o Afeganistão e começou uma longa ocupação de dez anos. O objectivo inicial da RAWA de emancipação das mulheres foi alargado para incluir a emancipação nacional. Participaram na resistência nacional não-violenta contra a ocupação. Mas a RAWA viu também como ameaça as forças fundamentalistas misóginas que os Estados Unidos escolheram para apoiar. De facto o trabalho da RAWA foi crescentemente ameaçado tanto pelos imperialistas soviéticos, como pelos fundamentalistas islâmicos. Em 1987 Meena foi assassinada pela colaboração de ambas as forças, KHAD (polícia secreta afegã, controlada pelo governo soviético) e Gulbuddin Hekmatyar (o maior recipiente da ajuda financeira americana).

Em vez de destruir a organização o assassinato de Meena tornou a RAWA clandestina e realmente levou a ampliar os seus objectivos ainda mais. Desde então elas vêem o imperialismo e o fundamentalismo religioso como injustiças gémeas a que se tem de resistir e que têm de ser erradicadas. Meena é vista como uma mártir pelos membros da RAWA. A sua fotografia adorna as paredes nuas das casas da RAWA, as salas de aula, os orfanatos, hospitais e clínicas. Porque os membros da RAWA trabalham incógnitos, a face de Meena tornou-se essencialmente a face da RAWA.

Visão Política

A filosofia subjacente à RAWA vê os direitos das mulheres como integrando a luta pelos direitos humanos, pela democracia e pela soberania nacional. Porque as mulheres são as principais vítimas da guerra, do fundamentalismo religioso e da globalização económica, os direitos das melheres são marcas cruciais no combate à injustiça mundial. Assim como nos Estados Unidos, as mulheres de esquerda afegãs como Meena verificaram que os homens nos seus movimentos falavam muito dos direitos das mulheres mas não os achavam tão importantes como as lutas de classe ou outras. As mulheres afirmaram que a sua liberdade acarretaria automaticamente outras mudanças sociais e que não era necessário que os direitos das mulheres fossem centrais nas lutas.

A RAWA não adoptou qualquer ideologia social ou económica específica. Advogaram democracia económica e secularismo. Enquanto a maioria dos membros da RAWA são muçulmanos, como a maioria dos afegãos, têm visto o Islão ser usado como um instrumento político de opressão pelos senhores da guerra fundamentalistas em posições governamentais.

Excertos da Carta da RAWA (duas vês revista desde o início, para incluir mudanças político sociais) define os seus princípios [1] fundamentais como:

(1) emancipação da mulher, "que não se pode abstrair da liberdade e da emancipação do povo como um todo";

(2) separação entre religião e política, "para que nenhuma entidade possa usar a religião como meio de atingir os seus objectivos políticos"

(3) direitos iguais para todos os grupos étnicos afegãos,

(4) "democracia económica e desaparecimento da exploração",

(5) obrigação de "lutar contra a iletracia, a ignorância e a cultura reaccionária e misógina",

(6) "levar as mulheres para fora da encarceração das suas casas para a actividade social e política, para que elas possam libertar-se economicamente, politicamente, legalmente e socialmente",

(7) servir e assistir "as mulheres e crianças afectadas e abandonadas, nos campos da educação, saúde e economia",

(8) estabelecer e estreitar relações com outros grupos pró-democracia e pró-direitos das mulheres nacional e internacionalmente, com tais relações "baseadas no princípio da igualdade e da não interferência",

(9) apoio a outros movimentos de liberdade e de mulheres por todo o mundo".

A RAWA baseia a sua luta nos princípios universais dos direitos humanos e da democracia, de acordo com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Eles não estão limitados pelo dogma inevitável que resulta do sectarismo e da "linha de partido".

A RAWA salienta a importância de juntar as suas lutas com a de outros grupos em todo o mundo. Expressam regularmente nas suas posições a solidariedade internacional, tal como esta:

Declaramos o nosso apoio inequívoco e sem reservas e a nossa solidariedade com as lutas dos povos e as forças progressistas e pró-democracia do Irão, da Palestina, da Cashemira, do Curdistão, do Sudão e de outros povos acorrentados da Ásia, África e América Latina que lutam pelos seus direitos contra os estados e poderes reaccionários e anti-liberdade. [2]

Estratégia

Pela formação de um Afeganistão livre, independente e democrático a junção de esforços e lutas das forças pró-liberdade e democráticas é indispensável. Este objectivo só pode ser concluídos através da luta implacável e não por compromissos e capitulação.

As estratégias da RAWA, como os seus princípios políticos, são amplas. São um balanço de estratégias de longo e curto prazo da agitação política e da ajuda humanitária.

(...)

[1] Anne Brodsky, With All Our Strength: The Revolutionary Association of the Women of Afghanistan, (New York: Routledge, 2003), p169.

[2] RAWA statement, Overthrow of Jihadi and Taliban Criminals is the Only Guarantee of Human Rights in Afghanistan, December 10, 1998, http://www.rawa.org/dec10-98.htm.

(...)

Resto dossier

Dossier Afeganistão

Há cinco anos, após os atentados do 11 de Setembro, uma coligação encabeçada pelos Estados Unidos bombardeava e invadia o Afeganistão, derrubando o regime bárbaro dos taliban.

Afeganistão e direitos da mulher

Divulgamos aqui um excerto do artigo de Sonali Kolhatkar publicado em Znet a 1 de Junho de 2006.
 

Economia afegã

O Senlis Council, uma ONG britânica especializada no narcotráfico, propôs um projecto muito cuidado e sério que, se fosse aplicado, poderia representar uma solução para muitos dos problemas actuais do Afeganistão. A ideia consiste em legalizar o cultivo do ópio para transformá-lo posteriormente em morfina e codeína para uso médico. Isto permitiria que a principal fonte de rendimentos do país fosse legal e também que fosse coberta a crescente procura de medicamentos paliativos da dor a nível mundial.

Afeganistão taliban

Artigo de Wahidullah Amani do Institute for war and peace reporting (Instituto de observação para a guerra e a paz ), Cabul 9 de Agosto de 2006, disponível em www.iwpr.net

Deputada afegã

Nasceu a 25 de Abril de 1979 e é a pessoa mais jovem do parlamento afegão, eleita deputada pela província de Farah. Tornou-se conhecida nacional e internacionalmente pela sua intervenção em Dezembro de 2003 na Loya Jirga (grande assembleia afegã), que aprovou a nova Constituição, onde atacou "os bandidos que conduziram o nosso país a este estado" presentes na assembleia. Malalai Joya concitou o ódio dos senhores da guerra e uma grande simpatia em largos sectores populares, nomeadamente entre as mulheres.

Links Afeganistão

Há muita informação na Internet do e sobre o Afeganistão. Um dos sites mais interessantes e importantes é rawa.org, o site da associação de mulheres revolucionárias que tem diverso e variado material, documentos em várias línguas incluindo em português, fotogalerias e vídeos. Ele constitui também um auxiliar imprescindível para conhecer a barbaridade dos taliban e de outros grupos fundamentalistas, para saber quem é quem no Afeganistão e para conhecer a difícil vida e luta deste povo, em particular das mulheres, as mais oprimidas e brutalmente violentadas.