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Nuclear jamais

Este acidente mostra, mais uma vez, que não existe algo como o risco nulo e que as consequências da sua ocorrência são imprevisíveis, de difícil contenção e de uma gravidade alarmante para a saúde pública e o ambiente.

O acidente de Fukushima, após uma das piores catástrofes naturais que assolou o Japão, traz à evidência os perigos do nuclear. Mesmo para quem não aceita todos os outros argumentos para rejeitar esta fonte energética (ver artigo 2008), este acidente mostra, mais uma vez (basta lembrar Chernobyl, Three Miles Island, entre tantos outros), que não existe algo como o risco nulo e que as consequências da sua ocorrência são imprevisíveis, de difícil contenção e de uma gravidade alarmante para a saúde pública e o ambiente (ar, solo, água, biodiversidade, produção alimentar, entre outros).

Todos os dias há notícias de choque sobre Fukushima. Presença de elementos radioactivos na produção hortícola nos arredores de Tóquio, a 250 quilómetros de distância da central, ou registo de plutónio nos solos, parte dos muitos motivos para a proibição ou restrição da importação de produtos alimentares nipónicos numa série de países. Contaminação da água para consumo humano em Tóquio ou dos recursos subterrâneos junto à central, com eventuais riscos para a saúde pública. Contaminação do mar onde se localiza a central, com doses elevadas de radiação, podendo afectar a biodiversidade marinha e a actividade piscatória, entretanto interdita. Nuvem de radioactividade que navega milhares de quilómetros, registando-se mesmo a sua presença em Portugal, após atravessar o Pacífico, o continente Americano e o Atlântico.

A dificuldade em conter o perigo é evidente, com o colapso de reactores, o despejo de litros e litros de água para tentar arrefecer as barras de combustível sem grande sucesso, a contaminação do exterior sem se saber como, mesmo além do perímetro de 20 km em torno da central de onde foram evacuadas 70 mil pessoas ou dos outros 10 km além dessa área, onde 130 mil pessoas foram aconselhadas a não sair de casa (sobre os quais a Agência Internacional de Energia Atómica aconselhou também a evacuação). O próprio governo japonês e a empresa responsável pela central são obrigadas a reconhecer que não há um fim à vista para a crise nuclear.

Mas tudo isto, os riscos e perigos do acidente para a saúde humana e o ambiente, as dificuldades de conter as suas consequências na origem e imediações, atingindo áreas bastante distantes, os elevados custos económicos envolvidos, não só para a reparação e contenção de danos mas também pela perda de actividades produtivas (produção agrícola, pescas, ...), para não falar das indemnizações que terão de ser pagas e podem chegar a mais de 92 mil milhões de euros se a crise durar mais dois anos, parte significativa das quais poderão ser pagas com dinheiros públicos (!), parece que não serve para abrir os olhos aos governantes dos países com forte presença do lóbi nuclear.

Não é que estes governantes não reconheçam o drama de Fukushima. O que não querem é mudar de paradigma energético, porque este serve interesses bem instalados, recorrendo aos mais variados argumentos. Desde dizerem que o problema foi tecnologia envelhecida, ou a ausência de normas de segurança suficientes, ou até que o nuclear é bom para combater as alterações climáticas. Este foi o argumento central usado pelo presidente francês Sarkozy há dias quando visitou o Japão para defender o nuclear: uma piada de mau gosto.

Como se as centrais de última geração não estejam a dar problemas (como acontece em França). Como se a tecnologia e normas de segurança consigam atingir o risco zero, tendo em conta que as consequências de um desastre nuclear podem atingir proporções "apocalípticas" (como se referiu o presidente do Comité de Energia europeu sobre Fukushima). Como se não existissem alternativas de política energética ao nuclear e aos combustíveis fósseis. Como se não tivesse sido o nuclear um dos principais inimigos do investimento na eficiência energética e nas renováveis ao longo de tantas décadas. Como se o esforço para o combate às alterações climáticas seja mesmo levado a sério por estes governantes. Como se a escolha de fontes energéticas não tivesse de ser feita com base em critérios sociais, económicos e ecológicos, evitando-se os erros cometidos com a infra-estruturação pesada da produção fóssil - centralizada, ineficiente, poluente a nível local e global, geradora de conflitos e guerras.

Com estes governantes, cuja solução para qualquer crise é insistir nos factores que levam a essa mesma crise, como se não existissem alternativas, não vamos lá. E isso foi o que protestos de muitos milhares de pessoas em vários países para a rejeição do nuclear têm dito. E os resultados nas recentes eleições na Alemanha não são de desprezar: os Verdes, oposicionistas ao nuclear, colocaram-se como a 2ª força política, tirando do Governo regional o partido de Angela Merkel (CDU) no Estado conservador e rico de Baden-Württemberg, onde este liderava há 58 anos. Neste Estado existem duas centrais nucleares e nem mesmo a moratória anunciada pela chanceler ao nuclear conseguiu convenceu os seus eleitores mais fiéis.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, engenheira agrónoma.
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