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O tango não acabou

Ainda o governo não tinha caído, já os patrões e os barões da política e da finança anunciavam o sucessor escolhido: é o bloco central que tem de ser derrotado nas próximas eleições.

Cavaco Silva defendeu no discurso de posse que a estabilidade política vai depender de um "programa estratégico de médio prazo, objecto de um alargado consenso político e social". E desde então, os apelos multiplicaram-se: Ricardo Espírito Santo Salgado, Marcelo Rebelo de Sousa, Daniel Proença de Carvalho, Luís Campos e Cunha, todos a favor de um governo do PS com o PSD e o CDS.

Alexandre Soares dos Santos, o dono da Jerónimo Martins/Pingo Doce e segundo bilionário português na lista da Forbes, saúda a vinda do FMI como "uma bênção" e não esconde o desejo dum governo de "salvação nacional" onde caibam todos menos o Bloco. Logo após a demissão de Sócrates, o presidente da CIP, António Saraiva, apelou a "amplos consensos parlamentares" para uma "solução extraordinária".  São vozes que se juntam à de Luís Amado, que em Novembro chegou a pôr o seu lugar no governo à disposição do PSD, para não atrapalhar um eventual entendimento entre Sócrates e Passos Coelho.

Compreende-se o receio deles: as políticas que o FMI quer aplicar em Portugal não cheiram bem em nenhum programa eleitoral. São os cortes nos salários, nas reformas e prestações sociais, a facilitação dos despedimentos para torná-los sem custos para os patrões, a precariedade imposta como regra nas relações laborais, as privatizações de empresas estratégicas…

Mas para aplicar estas medidas antisociais sem as propor explicitamente na campanha, os partidos da aliança FMI têm de se unir a seguir às eleições para formar governo e justificar o volte-face com a emergência da pressão do Fundo, da Europa e dos especuladores.

Como foi dito no recente debate da moção de censura ao governo, a clarificação eleitoral é a melhor forma de devolver a voz aos cidadãos, já que ninguém votou nas políticas do FMI e de Angela Merkel para Portugal. Estas eleições serão a oportunidade para apresentar alternativas para vencer o medo. Políticas que respondam ao descontentamento que encheu as ruas do país a 12 de março e voltou a manifestar-se no sábado seguinte em Lisboa.

Com a luta e agora com o voto, as gerações sacrificadas têm na mão o poder de dar a volta à política, desmascarar a alternância podre que nos tem governado há 30 anos e impedir o terror social que o bloco central anuncia.

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